08/08/2017

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer.


Mia Couto

02/08/2017

Cul de lampe


Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.
Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?),
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem...
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei.
Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.
(Não, não vou acabar
Ainda...
Não vou acabar.
Acabei.)
Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.
Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo,
Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão
Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora tudo cocaína...
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!

Álvaro de Campos

31/07/2017

Para além da curva da estrada



Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.



Alberto Caeiro

18/07/2017

Às vezes, olhar dói...

Às vezes, olhar dói. E como dói olhar os inquiridores
deste processo inquisitório a que chamas vida.
Olha-me bem nos olhos. Olha, sem paixão, no fundo
dos meus olhos, e que vês? Apenas um homem que se orgulha
da sua espinha dorsal. Subversivamente amante do amor,
despudoradamente amigo dos amigos, como se vivesse
com todos na mesma casa. Um ser inquieto por tanta
quietude. Um animal metido à força num filme
de aventuras, personagem literário plantado num campo
de golfe, convertido em mera verbalidade.
Segura as minhas mãos. Sente-as. Não vamos conversar
sobre literatura, somos donos de nós, é sobre coisas
velhas que vamos construir todas as coisas novas
das nossas vidas. Cada história é um poço de pequenas
histórias. Tentemos a normalidade. As pessoas normais
nunca sabem que o são e as anormais não têm
consciência de o ser. Por isso nos resta o olhar.
Viaja então por dentro do meu corpo, percorre
as florestas e as praias que há em mim, navega
este bocado de distância. Para o fazeres, basta
respirar. Só ver para lá do amor

é de todo impossível.

Joaquim Pessoa

05/07/2017

Soneto do Amor e da Morte



quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz o nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


 Vasco Graça Moura

03/07/2017

Palavra que desnudo


Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo.

Mia Couto

Deixas rasto no meu peito...

Deixas rasto no meu peito durante horas.
Dou com cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel.
Procuro-te nas esquinas dos instantes que passam.
Reconheço-te no vinco que a ternura deixa na carne do peito, do meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina, de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente teu, igualmente meu, reflectido na montra de uma loja do nosso sono.
Deslizo.
Deito-me sobre as lembranças.
(...)
E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam na pele.
E depois na presença eu ... presença tu...

Manuel Cintra