28/12/2010

Mensagem ao Relógio da Sé (Aragens da Madeira)




       Respeitado Amigo,

       Escrevo-te duma vila piscatória onde, nestas férias, fundeei por uns dias. Por ter ouvido o “cantar dos galos”, o que nas cidades não se escuta, lembrei-me de ti. Outrora, nesta baía que, dizem, foi “a primeira conhecida”, ouvia com agrado o raro chamamento dos “búzios” que ecoava no vale.
       Agora, não se ouvem búzios; os sons e os ruídos são outros.
       Mas, voltando ao assunto: acaso sabes que os “galos” destas
redondezas não acertaram o passo pela Europa, tal como tu, nos últimos anos? Continuam orgulhosamente sós, cantando às horas que entenderem!
       Dizem os antigos que os galos cantam à uma, cinco e sete horas. A basearmo-nos nisso, seria, quanto a mim, apenas por espírito de rebeldia que, tal como aconteceu hoje, os galos cantaram às quatro horas da madrugada.
       Lembrei-me ao amanhecer que os relógios neste Outono, foram atrasados uma hora. Isso é assunto que interessa, entre outros, aos alunos que não precisarão ir de noite para a escola. Para os galos, suponho, trata-se de uma questão à qual permanecem alheios.
       Tu que já passaste muitos invernos, tens alguma ideia para retardar o cantar dos galos neste Outono?
       Nisto de atrasos, quem nunca pecou que dê a primeira badalada. E, a propósito, já retomaste o “pio”?
       A última vez que te vi ou tentei ver-te, além do mutismo a que me habituaste, estavas pouco visível. Voltaram a iluminar-te?
       Retomando o despertar dos galos, longe de mim a ideia de calá-los. Sugeria, apenas, que atrasassem as cantorias.
       Isto até porque acho imensa graça no emblema dum clube de “galitos” de Aveiro, prestigiado pela actividade náutica no País e respeitado no estrangeiro, que tem como distintivo a figura dum galito, com a pata sobre uma rolha, encimando a legenda: “Não há mordaça para a consciência humana”.
       Sabes, relógio da Sé, não sugiras o que quer que seja a nível oficial, porque os galos a que me refiro, não estão acomodados em “aviários”, mas sim dispersos em capoeiras, vários dos quais até “vêm a terreiro” pela mais simples “galinhice”.
       Aliás, nesta zona, não são apenas as cantorias dos galos que ouvimos pela madrugada: Um fontenário do litoral, que retomou o “pio”, aliás o “fio”, originou esta noite uma festa entre os habitantes da localidade que há dias não ouviam o cantarolar da água a correr nas torneiras. Porém, isso é assunto que, pelo menos, oficialmente, já está resolvido.
       Beija o sol por mim e até breve.
       O teu amigo,
       Victor Caires
       (“Diário de Notícias” 30/9/83)

26/12/2010

Sem título ( O Amor é fod... )

(…) Serei o teu lembrador, quem te lembra, quem te aproxima de quem eras. Não falarei com ninguém, mas ai de quem vier falar comigo. Hei-de chatear toda a gente com a tua pessoa. Ai, as histórias que vou contar, nunca mais acabarão, serão feitas só de coisas simples, como cafés e cinemas, nada de íntimo ou de interessante, só banalidades, daquelas que dão cabo de mim, que não consigo esquecer por mais uma – meu Deus, como vou chorar! Ninguém se poderá ir embora. Vai ser uma tortura. É bem feito, para não se meterem com quem não foi feito para viver.

Se alguém me mostrar algum sentimento, como-o. (…)

Miguel Esteves Cardoso

24/12/2010

Coração Polar



Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de sal surgem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel Alegre

17/12/2010

Chorosos versos meus...



Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.


Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

Bocage

15/12/2010

Crepúsculo




É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão- Ferreira

14/12/2010

Ode ao Tejo e à memória de Álvaro de Campos



E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"

Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
 porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

O meu mal é não ser dos que trazem beleza metida na algibeira
e não precisam de olhar as coisas para as terem.
Quando não está diante dos meus olhos, está sempre longe.
Não te reduzi a uma ideia para trazer dentro da cabeça,
e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.
Não tenho nada, porque só amo o que é vivo,
mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre virgem,
porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a posse.

Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim...
E por isso é que fiquei a pensar como era grave ter passado
sem te olhar, ó Tejo.
Mau sinal, mau sinal, Tejo
Má hora, Tejo, aquela em que passei sem olhar para onde estavas.
Preciso dum grande dia a sós comigo, Tejo,levado nos teus braços,
debruçado sobre a cor profunda das tuas águas,
embriagado do teu vento que varre como um hino de vitória
as doenças da cidade triste e dos homens acabrunhados...
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
para me lavar do que deve andar de impuro dentro de mim,
para os meus olhos beberem a tua força de fluxo indomável,
para me lavar do contágio que deve andar a envenenar-me
dos homens que não sabem olhar para ti e sorrir à vida,
para que nunca mais, Tejo, os meus olhos possam voltar-se para outro lado
quando tiverem diante de si a tua grandeza, Tejo,
mais bela que qualquer sonho,
porque é real, concretas, e única!

Adolfo Casais Monteiro

11/12/2010

Resíduos do corpo


De ti ficam as aves,
o rumor
de arderem altas;

ficam as águas,
à tona
a clara sombra
onde pousaram lábios;

fica o Outono,
desatado beijo a beijo
sobre a palha;

ficam as nuvens,
a sede ainda
de um ramo de coral.

Eugénio de Andrade

09/12/2010

Quem se afasta...


Quem se afasta do mundo deixa a quem fica
um rasto de perguntas. Mas eu vi a morte dançar
tantas vezes no lago dos teus olhos que não pergunto
pelos teus passos à lama dos caminhos nem
pelos teus sonhos ao côncavo da cama. Quando

partiste, a solidão ficou nas coisas todas – no prato
que ia por vício para a mesa mas voltava vazio;
nas roupas escuras; nas sardinheiras secas; na dor
embrutecida do cão cego a ganir toda a noite à porta
do teu quarto; na casa fria; no livro aberto

ao meio no tapete (e que ninguém lerá, porque divide a tua vida entre o que foi e o que podia ter sido se deus
fosse mais deus do que diziam); e ainda nesse rosto
que me deste – e que é o teu no meu envelhecido.

A tua morte foi como um espelho partido contra o verão;
e nenhum vento que atravessasse o mundo varreria
de mim os seus estilhaços. Por isso, perguntar não mais
seria do que tecer armadilha para as memórias.

Maria do Rosário Pedreira

04/12/2010

Rosto




Rosto nu na luz directa.
Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.
Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.
Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem

Sophia de Mello Breyner Andresen

01/12/2010

Um trémulo instante de felicidade (Lisboa contada pelos dedos)

Estivera a escrever desde o fio da madrugada. Não só porque gosto e escrever quando toda a gente dorme, como tinha de entregar um original na editora. No fio da madrugada, Deus também dorme, e eu não sou atormentado pelo bem nem pelo mal. Escuto apenas, esse sininho longínquo, esse murmúrio suave das memórias e das recordações, e a mão torna-se-me quente para a escrita.

Mão quente, isso mesmo. Não é tépida nem fria: quente. As ideias, então, fluem. Mas fluem sem pressa, não se atropelam umas às outras, e às vezes eu sorrio mansamente com esse desfilar de ideias. Vai a caligrafia num deslize, então. Vão as palavras felizes, e eu cheio de gozo e prazer vendo as frases construindo-se a si mesmas, sem tropeções, sem se acastelarem.

Antes de começar o meu trabalho estivera por detrás de um livro, e lia comovido a história de um velho que se apaixonava doidamente por uma velha, no lar de velhos onde se encontravam.

As vigilantes haviam percebido os sobressaltos dos dois corações antigos mas sem rugas, e decidiram, com inclemente severidade, afastar os amados da voz dos seus sentimentos cálidos. Um para uma álea do pavilhão, outro para um quarto longe. A história pretendia ser a aventura das possibilidades. Mas não tinha final feliz: os dois velhos morriam de dor por se não verem, e de espanto por não entenderem a crueldade medonha da situação a que os obrigavam. Foi depois que comecei a escrever o original para a editora.

Uma coisa bem fugaz, sem compromisso; um texto que falava de canções entoadas por um cego. Rematei o texto como se deixasse de estar preocupado com um problema persistente. Acontece-me, quando trabalho com afã. Meti-me no carro um pouco fatigado; olhos pandos da insónia, boca a saber a oito séculos de história, membros pesados, todo o corpo latejante.

A Avenida de Roma era uma confusão de veículos. A manhã estava muito clara, o sol era leve, pessoas moviam-se, de um lado para outro lado, nos passeios, pareciam alheadas de tudo, puxadas pelas pernas e encaminhadas para os seus destinos certos. E carros, carros e carros. No interior, condutores nervosos. Alguns consultavam os relógios de pulso. Outros, acendiam cigarros. Outros ainda buzinavam. Os semáforos pareciam loucos. E carros, carros e carros. Marcha lenta, cada vez mais lenta. E as pessoas, na lembrança de um dia que se perderia uma vez mais, nem sequer olhavam para as coisas fortuitas: as pessoas, as faces das pessoas, mais pareciam objectos tensos e lamentáveis. A vida, a avenida, as montras talvez tivessem deixado de possuir aquele perfume vago, porém perfume, que costuma descarregar a tristeza e desanuviar a melancolia.

Pensava, maciamente, nestes factos banais. Sou um homem banal, embora decepcionado com esta época onde a solidariedade está desempregada, e o susto de viver se transformou num pesadelo diário. Pensava e guiava o carro com infinita paciência e extrema precaução. Eis senão quando de uma das ruas transversais surge uma pata seguida de sete patinhos. A pata conduziu os patinhos numa recta impecável. Espanto dos condutores de carros. Travagens bruscas. Sem sequer virar a cabeça para os lados, com uma dignidade altiva e uma presteza surpreendente, a pata desprezava, nitidamente, o mundo dos homens que a rodeava e aos filhos.

De onde teriam vindo eles? Talvez das hortas minúsculas, das quintinhas que ainda existem e resistem nas casas laterais à Avenida de Roma. Talvez. Imaginava coisas e episódios. E a pata continuava a atravessar a avenida, filhos atrás dela. A meio, parou brevemente; logo continuou a destemida caminhada. Tudo parado. Tudo atónito. Finalmente as pessoas descortinavam que, para além dos seus destinos certos, das suas angústias e apoquentações, havia acontecimentos bonitos, cenas de difícil explicação que ainda sucediam numa cidade virada para dentro do seu egoísmo.

A pata e os filhos atingiram o passeio. A pata olhou, então, de um para outro lado. Escolheu o sítio certo para aonde ir com os filhos. Certamente que escolheu o sítio certo. E os carros moveram-se de novo. E os transeuntes regressaram aos seus trajectos. E todos tornaram a virar-se para dentro do seu próprio egoísmo.

A Avenida de Roma, cheia de gente áspera, enervada, tensa, ficara, porém, durante alguns momentos, repleta de uma trémula felicidade. Daquela felicidade pequenina que é o nome da estrela que, afinal, nos faz ainda andar por cá.

Baptista Bastos

30/11/2010

Dizem que a paixão o conheceu...


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

29/11/2010

Fado para a lua de Lisboa


Ó Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!

Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas...
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.

As rugas do sobressalto,
Ó Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.

Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemunha
dos fogos da Inquisição.

Procissões do Santo Ofício...
Fileiras de condenados...
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados...

Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!

Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E quando te não merecermos
não te acendas nunca mais!

David Mourão-Ferreira

25/11/2010

Receita para fazer um herói...


Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira

24/11/2010

Deita-te aqui...




Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me


também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que


quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,


dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.

Maria do Rosário Pedreira

23/11/2010

Bilhete



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana

21/11/2010

Maria Irene (crónicas)




Não pensava em si. Há séculos que não pensava em si. No fundo da minha alma estava livre de si. As coisas corriam mais ou menos
       (dá azar dizer que correm bem)
       a gente nunca sabe porque o mal é traiçoeiro mas acho que tenho tido saúde, não encontro razões de queixa do trabalho
       não é o que se espera mas vamos andando
       em casa as pessoas interessadas em mim, carinhosas, graças a Deus nas férias há dinheiro suficiente para sair de Lisboa
       (alugamos um apartamentozito no Algarve e este ano pode ser que vamos a Espanha, estava um prospecto na caixa do correio e não é caro)
       substituímos o mosaico do chão, a minha prima teve um bebé em março. De tempos a tempos passa-me uma coisa pela cabeça e escrevo um poema. Ali, na gaveta, ficou um caderno inteiro quase cheio de versos. Há quem ache que devia publicá-los mas não sei, na minha opinião são demasiado íntimos, faço-os para mim. Você não entra em nenhum deles, descanse. Não por pudor: por não pensar em si.
       À parte isso tenho mais cinco anos e afiançam-me que não mudei: o cabelo continua castanho, não dou por rugas no espelho. Talvez me canse um bocadinho a subir as escadas ao fim do dia, a seguir ao emprego, de vez em quando acordo a meio da noite: não com um sonho ou uma dor ou isso, acordo sem razão. Demoro a compreender onde estou e mal compreendo adormeço de novo. A minha prima aconselha-me a não me ralar, de modo que não me ralo assim muito. Agora, existe um vaso de zínias junto à varanda. Como eu costumo dizer é uma companhia, e desde que o gato desapareceu sabe-se lá onde havia ignoro o quê que faltava. Desde que as zínias chegaram não falta quase nada. E, pelo menos, as flores não metem as unhas no sofá nem estragam os tapetes. De quarta-feira a quarta-feira o regador e pronto.É pena que não me saltem para o colo.
       Por consequência
       (em imensas ocasiões o meu pai começava uma frase dessa maneira, sobretudo quando ia falar de política. Alargava na poltrona, subia os óculos para a testa, murmurava na direcção do tecto
       - Por consequência
e jurava que, com o governo que temos, num abrir e fechar de olhos
       expressão sua
       ficamos todos de tanga
       idem)
       por consequência não me assiste o direito
       (outra expressão dele:
       - Não te assiste o direito de me aborreceres)
       de lamentar-me seja do que for. E não me lamento. Aconteceram episódios tristes, claro, embora não me afectassem por aí além: o aneurisma da dona Ângela rebentou, a minha tia gastou uns dias aflita com uma inflamação na perna. Apesar das injecções no Posto demorou a curar. Coxeia um bocadinho, porém animada: o médico jura que para a semana, se lhe apetecer, até pode entrar na meia maratona. A minha prima gosta dele por ser o médico mais bem disposto que conhece. Esse é que meias maratonas nem sonhar: traz uma bengala derivado a uma queda em pequeno que lhe entortou o joelho. Na sala de espera percebe-se que é ele pela bota ortopédica a bater com força no chão. No outro pé usa um sapato normalíssimo, de forma que se olharmos só para baixo julga-se que o doutor é dois.
       Há outros episódios que podia mencionar porém, no essencial, devo ter contado mais ou menos tudo. Principalmente, que não pensava em si, que há muito tempo não pensava em si, que no fundo da minha alma estava livre de si. Julgava eu. Ontem, por acaso, passei na rua Dr. Taborda Viana derivado a um problema de facturas da empresa e vi-a entrar para um automóvel com uma criança ao colo. Está mais magra, levava um casaco castanho que não conheço, mudou de penteado e, no entanto, notei-a logo. A gente cuida que enterrou os sentimentos e enterra uma ova. Não a imaginava com um filho. Não a imaginava com aquela permanente. Você não deu por mim, colocou a criança nesses bancos para crianças que se encaixam nos bancos de trás dos carros e foi-se embora. Fiquei ali parado até que o meu colega disse
       - É para hoje?
       Veio-me a tentação de lhe falar de si e calei-me a tempo. Para quê? Já foi há cinco anos, não é? Despedimo-nos a bem na pastelaria, a seguir a você guardar o lenço e jurar-me que não ia chorar. Isto com dois riscos a descerem-lhe das bochechas, exactamente iguais aos que o meu colega, distraído como sempre, não viu, conforme não me viu limpar a cara à manga. Felizmente saímos da rua Dr. Taborda Viana com o problema das facturas resolvido.

António Lobo Antunes

12/11/2010

A morte...






Havia já anos que a tinhas expulsado,

fechado na cave, procurado esquecer.

Sabias que não estava na música, por isso cantavas;

sabias que não estava no silêncio, por isso te calavas;

sabias que não estava na solidão, por isso estavas só.

Que sucedeu então hoje

Para que te assustasses, como alguém

Que de repente visse, na noite,

Um raio de luz sob a porta do quarto ao lado,

Onde há tanto tempo já ninguém habita?


Eugénio de Andrade

11/11/2010

Subir o Chiado...(Chiado meu Amor)



«Quando vou ao Teatro é para ver e ser vista!»

(Velha amiga da minha Avó)



Dobrou a esquina do Rossio para a rua do Carmo, e começou a subir o Chiado…
Subir o Chiado não é só ir da Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n’A Brasileira.
Subir o Chiado, para disfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga (…)
(…) Se for no inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes Ilhéus…), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir umas luvas.
Podem até ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada (…)
(…) Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Alliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava a Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante. (…)
(…) Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável (…)
(…) Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garret (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos um “t” (…)
(…) Depois de, no Piccadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand – o que havia de histórias para contar dessa esquina…
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre na Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires – não quer dizer nesta Igraja – que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147 (…)
(…) Não estará agora na hora de tomar um café n’A Brasileira? Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco – cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo – é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n’A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraiais…
Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n’O Calcanhar de Aquiles, publicou uma magnífica caricatura representando, nessa esquina, Herculano com as suas vazilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa ainda está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo (…)
(…) local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.(…)
(…)Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu.(…)
(…) Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde disfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; Vale a pena e são só cinquenta metros. (…)
(…) Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto…
E volte sempre…há muito, muito mais para ver…

Duarte Cannavial

09/11/2010

Se a morte vier e for de noite...



Se a morte vier e for de noite, e tu estiveres
deitado a ler e a vires chegar, se o seu rosto
for branco e as suas mãos geladas, e ela
as estender para ti e te chamar pelo nome;

se o quarto subitamente arrefecer e os teus
olhos se encherem de neblina, e o ar cada
vez mais raro nos pulmões te deixar o coração
como uma ferida; e então uma voz estranha

te implorar que recordes a tua vida do avesso e
alcances de novo o paraíso materno, que é o
único naufrágio de que ninguém quer ser salvo,

acorda-me, porque quero ir no teu lugar. A luz
do mundo nunca esqueceu as tuas mãos, nem
os teus olhos experimentaram jamais a paisagem
de um quarto vazio pela manhã. Porém, se me

faltares, sei que não voltarei a amar ninguém e
a vida que negar acabará por derrotar-me. Por
isso, deixa que a morte consinta que, por uma vez,

seja meu o teu nome e me arraste nos seus braços de
cera para longe dessa cama – onde já não existe mais
nenhum romance senão o livro com que te deitas sempre.

Maria do Rosário Pedreira

08/11/2010

Noites de sangue e de silêncio


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.
Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia

07/11/2010

O Amor é o Amor...



O amor é o amor — e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
Sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos —somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?

Alexandre O’Neill

06/11/2010

Carta da árvore triste



(…)
escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devorávamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido

é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola-se-me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou-se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo
cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter-me-ia sido fatal
conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo
sinto a manhã cada segundo mais próxima
ameaçadora e cruel
a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer
arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
inventaria mesmo desculpas plausíveis
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
catástrofes
e na espera duma carta acabaria por me embebedar
beber muito e esperar
esperar
digo tudo isto mas já não te amo
(…)
Al Berto

05/11/2010

Era o último amor...


Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

Luís Filipe Castro Mendes

04/11/2010

Além do corpo...



Mais que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a alma e quero a estrela
e quero o teu prazer e a tua dor
o crepúsculo e a aurora e a caravela
para o amor que fica além do amor.

A alegria e o desastre e o não sei quê
de que fala Camões e é como água
que dos dedos se escapa e só se vê
quando o prazer se torna quase mágoa.

Estar em ti como quem de si se parte
e assim se entrega e dando não se dá
quero perder-me em ti e quero achar-te
como num corpo o corpo que não há.

Manuel Alegre

02/11/2010

Outono...



Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira

28/10/2010

Qual sol, qual carapuça... (A minha andorinha)




Quando Deus deixou de procrastinar, arranjou coragem e foi fazer Portugal. Mas, mal tinha começado a fazer as compras essenciais, estoirou o orçamento todo no clima. Daí ter ficado tão pouca massa para as outras coisas de que o país precisava urgentemente. É, tornou tudo na secção Casa e Jardim. À parte os sucedâneos do clima (a paisagem, a comidinha, a namoriquice),ficámos bastante mal servidos, e isto dá-nos cobertura para os mais extensos queixumes, que agradecemos amargamente enquanto lhes ululamos. Não há no mundo outra terra em que as caras melancólicas dos habitantes sejam tão maus espelhos da luz e do calor que têm.
Alguma razão há-de ter tido o Criador. É que o clima está lá em cima, fora do nosso alcance. Podemos estragar e vender tudo o que está cá em baixo – e estragamos e vendemos, ai nanas! - , mas ao ceuzinho e ao solinho não chegamos. E assim, no meio do negrume circundante, assistimos, a 12, 13, e 14 de Março, a três dias de perfeita Primavera. É, aliás, um fenómeno conhecido dos meteorologistas: em Portugal, as estações do ano apresentam sempre um trailer antes de estrearem. E algumas reposições também.
No terceiro desses dias, eram duas muito bonitas da tarde e deslizávamos junto ao mar em direcção ao Estoril, o meu motorista de táxi e eu. Estragando o bendito silêncio da contemplação, caí na asneira de dizer que estava um dia de Primavera. «É? É?», respondeu o condutor. «Está bem, está… Vamos ver quanto tempo é que dura esta maravilha…» E, não fosse eu interpretar mal a atitude do homem, carregou no escárnio – repugnância, até – quando pronunciou «esta maravilha».
No dia seguinte, o clima lá voltou à programação habitual, e aposto que o marmanjo tem andado a ver se caça uma chamada minha, doido para me esfregar na cara um longo «Está a ver?! Está a ver? Eu não dizia? É que o pessoal que não anda nesta vida vê um dia mais ou menos bonito e, pronto, julga logo que a coisa está resolvida. Mas não está, meu amigo, não está…Longe disso. Longe disso, meu amigo…! Era bom, era…» É espantoso o pouco que consola esta repentina amizade que nos é oferecida por quem nos esclarece.
Esta atitude, tão portuguesa que até chateia mais do que é costume, tem tanto de estúpida como de grandiosa. É estúpida porque nos impede de gozar o que Deus nos deu. O sol de três dias de nada vale se depois vai chover outra vez. Para quê? Para um gajo habituar-se ao calorzinho e amargá-las mais ainda quando voltar à realidade? Para os portugueses, a realidade é um exclusivo da miséria, e tudo o que não seja completamente miserável é mera ilusão.
Não vale a pena dizer que a beleza daqueles três dias não é negada pela fealdade dos seguintes. Quer dizer, eu disse, mas arrependi-me, porque o motorista retorquiu com a bomba atómica do Ó…! Como quem diz, «cantas muito bem mas não me alegras». E ser acusado de querer alegrar um compatriota só não é punível com pena de morte porque ninguém é desentristecível.
Mas, por trás da imbecilidade automutiladora do «vamos ver quanto dura…», há uma ambição gloriosa. É que, para estes portugueses retintos, só o que é eterno pode ter valor. Entretanto, vão-se bebendo uns canecos, como também Platão bebia. Este ódio ao temporário é nada menos que um ódio à própria vida. A vida, como aqueles três dias de sol, também acaba passado um bocadinho. Entre as pregas do pescoço encarniçado daquele motorista havia ânsias recalcadas de imortalidade.
Outros povos (o brasileiro, por excelência) conseguem de vez em quando, viver cada momento como se fosse o único. O português também. Só que, por morbidez e teimosia, logo haveria de ser o da morte. O clima em si nada pode contra nós. Deus não pensou quando nos comprou o melhor que havia. Com os poucos tostões que Lhe restavam, regateou-nos uma mentalidade em que está sempre a chover ou um frio de rachar ou um calor que não se pode. Pouco admira que, quando nos disse «Enjoy!» em hebraico, a gente tenha percebido «Enjoem!».

Miguel Esteves Cardoso

27/10/2010

"Regresso" ao passado...

Se eu não te amar mais...


Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento

António Lobo Antunes

26/10/2010

O elevador de Santa Justa



Podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre Eiffel. Faz a experiência. Por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.

Podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
Lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
Noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a Rua Augusta,
e em Lisboa é o único a subir na vertical.

No Tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
Com o Cesário dorme a última varina, a mais robusta.
Não é para desoras o elevador de santa justa,
arrefece-lhe o esqueleto de metal,
mas tens o dia todo à luz do dia. Não faz mal.

Vasco Graça Moura

25/10/2010

Já não se vê...


Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

Eugénio de Andrade

24/10/2010

Outra voz...




Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,
na arca das lãs que só voltaria abrir no inverno.

Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto ― a outra voz.

Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais que o silêncio ― essa outra voz.


Maria do Rosário Pedreira

23/10/2010

Por onde andam os deuses?

O Estrela e a mulher... (Rua)



Como de costume, às oito, o sol começou a entrar pelo quarto dentro. Mas já não pôde, à semelhança das mais vezes, descer do peitoril da janela, inundar o soalho, subir à cama, devorar pouco a pouco a colcha branca, incendiar um naco do cobertor vermelho, e acabar por bater-lhes em cheio nas meninas dos olhos. Hoje um e logo a seguir o outro, tinham partido. Discretamente, disseram adeus àquelas quatro paredes, voltaram costas à realidade, e fecharam-se num recolhimento tão íntimo e tão persistente, que só mesmo no fundo duma sepultura. Deram-lha, então. Justamente os oito dias que durou essa mudança foram toldados. Perdido por terras distantes, nessa semana triste, o astro-rei esqueceu-se dos seus dois velhos amigos. Vinha agora bater-lhes novamente à porta. Infelizmente já não moravam ali.
- E novos ainda!... – ponderou, filosoficamente, a Berta.
- Ela sessenta e cinco, e ele sessenta e oito – precisou o Mamede, aferidor da Câmara.
- Exactamente… - confirmou o dono da casa.
Era na loja do Guerra, sapateiro. O Mamede viera saber dumas meias solas nas botas de caça; a Berta já lá estava a ver se os sapatos do homem podiam ser gaspeados; de maneira que sem darem conta encontraram-se a falar do acontecimento da semana – a morte do Estrela e da mulher.
A princípio, o que diziam avolumava apenas a sombra dos ausentes.
- Coitados!... Sem filhos, de mais a mais…
Mas pouco a pouco os mortos foram ressuscitados em cada palavra pronunciada. O poder mágico do verbo ia-os avivando nas lembranças apagadas, e todos eles, que nunca tinham pensado sequer que conheciam o Estrela e a mulher, se puseram a seguir-lhes, fascinados, os passos no mundo. Milagrosamente, viam-nos reais e palpáveis, a retomar a vida habitual, ali, no Largo da Graça.
Começou o Estrela por abrir a porta da barbearia. Era barbeiro, o Estrela. Acabavam justamente de bater as onze. Nunca saía do quarto antes. E o Amadeu, o alfaiate, que com a rosa dos alfinetes ao peito, a fita métrica ao pescoço, e uma letra vencida no bolso mourejava desde manhã cedo, não podia engolir serenamente semelhante ultraje. (…)
(…) O Estrela, esse, vestia a bata e chegava-se à porta.
- Então Deus nos dê muito bons dias!
Cumprimentava ao mesmo tempo o mundo e o seu grande amigalhaço, o Gil, latoeiro e vizinho.
- Vamos a ele, ou quê?
- Tem de ser…
Era o mata-bicho sacramental. Bastava-lhes dobrar a esquina. O Moreira parece que mandava fabricar aquela aguardente no céu. Um sinal, apenas, e os cálices apareciam cheios e perfumados sobre o balcão.
- À nossa!
- Cá vai…
Pagavam, saíam, e o taberneiro, com açúcar na urina, arrasado de bronquite, e guardado como um carneiro pela mulher, desabafava sozinho:
- Que estômagos! Que saúde! Que naturezas! Porcaria de mundo! (…)
(…)- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Barba?
- Barba e cabelo.
O violão, encostado à parede, pôs-se a mirar um canto do espelho.
- Pelos vistos, o senhor Estrela ainda lhe puxa pelo bordão!...
- Pouco. Só para matar saudades…Bons tempos! Tudo passa…
E o ano de 1896, o ano áureo do Estrela, começou a nascer na tarde morna.
- Custou-me a brincadeira oito dias à sombra. O malandro do sacristão! Era compadre dum polícia…Mas valeu a pena. O largo do Romal pareça o Terreiro do Paço. Talvez até mais bonito…
Quê?! O senhor Estrela conhecia o Terreiro do Paço?! A sério?! O Lucas, que nunca saíra da terra, parecia que estava diante dum milagre.
O Estrela teve um riso aberto de iluminado.
- Olha, olha, o Terreiro do Paço! Hã, ó Aninhas?
A D. Aninhas engrunhou-se um pouco, olhou um nadinha de lado, e começou a rir-se lá por dentro.
O Terreiro do Paço, a Mouraria, Cacilhas…Fechei o quiosque, e de comboio por aí a baixo foi o fim do mundo!
No rosto de ambos nem tudo agora eram sessenta e tantos de idade. Havia também a marca duma carícia funda da vida.
Mas a quê? A que tinham ido os dois a Lisboa?
Olharam-se ternamente, numa maliciosa cumplicidade.
- Hom’essa! (…)
(…)- Passear?!!!
- Pois!
Caladas, as moscas dançavam na sala cheia de quietude, espanto e silêncio. (…)
(…)- Passear!... – murmurou o Lucas, a remoer um pensamento fundo, de oficial de diligências.
- Olarilas! Por sinal que nos perdemos…Lembras-te, Aninhas?
- Se lembro!...
- Foi na rua… na rua… Ora deixa-me pensar… Rua do…
Mas a cabeça de ambos, nos últimos tempos, atraiçoava-os miseravelmente. Que, de resto, não era admiração nenhuma…já lá ia um par de anos…Mil novecentos e seis… Ou não? (…)
(…) Quantos dias nos demorámos ainda lá?
- Três…E se tínhamos ficado mais um, víamos o rei…
- É verdade!
- Qual?
Olharam-se ambos, numa ajuda mútua.
- Devia ser o D. Carlos… Ora em mil novecentos…
O ruído dos rodízios do relógio quebrou a data ao meio. As cinco horas vieram logo a seguir. (…)
(…) Bom homem, este Lucas! – disse por fim o Estrela, sem grande convicção.
- É…É… - repetiu, como um eco, a mulher.
A tarde caía docemente. O Estrela pegou no violão, sentou-se, e tirou dele um acorde que encheu a praça. Depois carregou a fundo na inspiração.

Se estou melhor das maleitas,
Se estou melhor das maleitas…

- Este bordão novo não presta. Ou então é do cavalete…
- Experimenta outro…
A voz dela, mansa, submissa, parecia ainda sair da loja fechada e triste.
Da sapataria via-se o largo inteiro; e, sem querer, olharam todos na direcção do 43.
- Uma verdadeira santa! – disse melancolicamente o Mamede. – Uma mulher assim faz a felicidade dum homem…
- Lá isso… - confessou, de consciência carregada, a Berta, que punha a alma negra ao marido. – Era o que o seu Manuel dissesse. Ninguém lhe conheceu outro querer. E a prova é que, apenas ele fechou os olhos, fechou os dela também. Não tinham mais que ver neste mundo.

Miguel Torga

22/10/2010

Tu e eu, meu amor...


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Manuel da Fonseca

21/10/2010

Coração sem imagens



Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu inventei-te.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

20/10/2010

Se terminar este Poema...



Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.


Maria do Rosário Pedreira

19/10/2010

Como nós... (crónicas)




De forma que espero por ti cá em baixo, ao pé dos correios do Estoril, ou passeio nas Arcadas sem olhar para o mar, desatento do jardim do Casino, indiferente aos turistas alemães cor de lagosta de viveiro e aos chapéus de palha com cerejas de baquelite das americanas idosas. Encosto-me a um murozito de pedra, o sol escorre por mim como um fio de glicerina e ponho-me a pensar no teu cabelo loiro, nos teus gestos, na tua boca, na tua maneira de falar enquanto um cão me vem cheirar as pernas porque com a idade me vou assemelhando a uma árvore antiga, a um olmo, a uma nespereira, a um tronco de ossos tristes com raízes no vento, e dos galhos das mãos nas algibeiras brotam as folhinhas de uma primavera antiga, tão antiga que se confunde com os retratos da sala no tempo em que a esperança era um país do tamanho da minha família com fronteiras de tias jovens e de beijos suspensos.
Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fica, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao domingo, espero por ti, filha, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti.
António Lobo Antunes

18/10/2010

Melodia


Este é o orvalho dos teus olhos.

Esta é a rosa dos teus vales.

O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.

Tu estás no meio,

entre a dor e o espanto da treva.

Arrancas-te ao mundo e és a perfumada

distância do mundo.

Chego sem saber, à beira dos séculos.

Despenho-me nos teus lagos quando para ti

canta o cisne mais triste.

O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas

nuvens.

Esta é a canção do teu amor.

Esta é a voz onde vive a tua canção.

As tuas lágrimas passam pela minha terra

a caminho do mar.


José Agostinho Baptista

17/10/2010

A noite é uma ausência nua...


A noite é uma ausência nua
tão pura, tão profunda, tão solene,
que só o lembrar-me das coisas
é um acto de violência.
A cada esquina do escuro
espantalhos de silêncio,
com longos braços de mãos frias,
e urros suspeitados de susto gutural, aguardam.
E pelas guaritas do céu,
as estrelas fiscalizam a submissão universal
com o olho gigante dos polícias.
Em torno das casas
negros morcegos rondam
batendo asas de pano,
só sendo também ausência me poderei aguentar.
Vou dormir.

Vergílio Ferreira

16/10/2010

Nostalgias...

canção




Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade

15/10/2010

Porque é que este sonho absurdo...


Porque é que este sonho absurdo

a que chamam realidade

não me obedece como os outros

que trago na cabeça?


Eis a grande raiva!

Misturem-na com rosas

e chamem-lhe vida.


José Gomes Ferreira

14/10/2010

Não quero viver sem ti...



Não quero viver sem ti
mais nenhum tempo.
Nem sequer um segundo
do teu sono.
Encostar-me toda a ti
eu não invento.
Tu és a minha vida
o tempo todo.

Maria Teresa Horta

12/10/2010

O homem que não é ninguém... (Lisboa contada pelos dedos)


O rio está virado e a chuva cai a cântaros. É um dia repetitivo, sem remanso, sulcado de pequenos trechos de amargura, de minúsculas teias de angústia. Percorri com humildade o meu caminho diário, desempenhei com aplicação as tarefas que me foram destinadas, cigarro pendurado no beiço, olhos ardidos, por muitas letras lidas e escritas, e penso, agora, na utilidade inútil em que se transformam as palavras que escrevo. Quem me lê? Quem nos lê? Para quem escrevemos estas frases pensadas com rapidez, sinais e signos de ideias que malbaratamos?
E aí está, sobre a minha banca de trabalho onde se atafulham folhas normalizadas, papéis delidos, canetas, recados, preocupações e avisos – e aí está a fotografia. A fotografia é a de um homem que meia Lisboa conhece, que meia Lisboa negligencia, que meia Lisboa finge ignorar, por incúria, por indiferença. Talvez por egoísmo. Isso: egoísmo. Se há uma biografia para o egoísmo, há, certamente há, uma biologia do egoísmo; do nosso egoísmo colectivo.
O homem coberto de mantas de holandilha, sujo, imundo, sórdido, asqueroso, passeia o seu autismo numa caminhada apressada, sem tino nem destino. Por debaixo das mantas sujas um corpo que se entrevê esquelético, um sexo pendente que em vão procura tapar, pés com pústulas, mãos que parecem providas de grifos, cabelos enormes, desgrenhados. Olho a fotografia e penso: se vocês fazem questão de saber, também eu, durante uma semana, tentei descobrir ou adivinhar o passado, o presente e o futuro do homem que caminha sem parar, apossado de uma demência inquieta. Um homem infausto num tempo inclemente. Abordei-o meia dúzia de vezes. Ofereci-lhe dinheiro; até pão, adquirido na padaria do Celeiro, ali mesmo na Rua 1º de Dezembro, no final das Escadinhas do Duque. Nem me olhou, fê-lo de forma subtil, de soslaio, enviesada. Falei-lhe falas banais, impelido por uma solidariedade que a rotina da profissão e as marcas do tempo jamais conseguiram fazer recuar em mim. Estacou, primeiro; recomeçou a andar, logo-logo. Uma grave apreensão emergiu, de sobreleve, no rosto esquálido. Estacou de novo; virou-se para trás, examinou o homem grisalho, céptico e rugoso que se lhe dirigia. Disse-me:
- Eu não sou ninguém.
Não o disse assim, exactamente assim. A articulação sintáctica foi outra; mas o objectivo final era comunicar-me uma afirmação fantomática: eu não sou ninguém. Nem aflita, sequer, era a afirmação. Os olhos estavam amassados e as pálpebras pandas. Pessoas estugaram o passo, caminhando para os seus objectivos irretorquíveis e certos. Pessoas cujo nome também eu não sabia, cujas vidas eram também um enigma para mim, cujas missões e destinos teriam de estar assinalados por ausências, amores, encontros e desencontros. Insisti, preso a velhas reminiscências:
- Mas você tem um nome.
Mais uma afirmativa do que uma interrogação.
Recomeçou a passeata à toa, eu atrás dele, no varejo de uma história possível. Não há histórias possíveis. Todas as histórias são impossíveis desde o momento em que se possam contar. Parou de novo. Virou-se-me e chegou-se-me tão de perto que lhe senti o bafo morno, a respiração arfante:
- Não sou ninguém. Não tenho nome. Nunca tive nome. Quer dar-me um nome? Porque é que não me dá um nome? O seu, por exemplo?...
Tive vontade de lhe dizer que levo um ror de anos a tentar comunicar com os outros. Nada. Ninguém me liga nenhuma, porque eu, afinal, também não sou ninguém, e porque as palavras que escrevo, por incompetentes e inócuas, não encontram destinatários certos. Mas nada disso falei. Tive vontade de lhe dizer que, apesar de as minhas palavras se não repercutirem em nada, em alguém, em ninguém – eu tento, tento sempre, sempre tenho tentado. Estávamos em silêncio, os dois, cada vez mais perto um do outro e, simultaneamente, cada vez mais afastados um do outro. Na minha profissão aprendi a servir-me de qualificativos para os homens. Sei lá quais!; a este homem andrajoso e imundo que adjectivo aplicar?
Acaso este: só. Ah!, como eu só, como vocês, só; como vocês – todos sós. Sós, solitários, imundos de solidão e andrajosos a ratear ternuras. Um homem só é um homem deserdado. De repente, ele sorriu. Um sorriso claro, iluminado e lento como um ritual. E rematou:
- Tenho de ir à vida…


Baptista-Bastos

11/10/2010

Fado...




Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.


A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

Estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.

Maria do Rosário Pedreira

09/10/2010

...São assim as mais pequenas histórias



[…} São assim as mais pequenas histórias do mundo. Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite – e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, nem das aves negras nos meus braços de mármore, nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo – das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre o que valeu a pena ( o mais eram os gestos que não cabiam nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse eu deixar de escrever esta manhã, o dia treme na linha dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, mas ouço-te a respirar no meu poema. Nunca te esqueci – é este um amor maior que atravessa a vida e resiste à cicatriz do tempo. O que ontem me disseste agora o ouço, como se nada tivesse interrompido a magia do instante em que as nossas bocas se aguardavam na distância de um beijo e o olhar tocava o corpo antes da mão. Se hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja lombada acariciei todos os dias que durou a tua ausência como uma nesga de sol acaricia um rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os lençóis da cama imaculados – e ainda o cão deitado à porta, à tua espera, como na véspera de partires. Porque os anos não contam para quem assim ama.


Maria do Rosário Pedreira

08/10/2010

Senhora, partem tão tristes...



Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo-Branco

Como quem escreve com sentimentos



Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo

Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar.
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar
e tê-la-á levado estranha ventania

Daqueles traços fisionómicos de pedra
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada



Ruy Belo

07/10/2010

Valsa das viúvas da pastelaria Bénard



Cada qual de cão ao colo
damos de comer ao cão
chá e migalhas de bolo
pão-de-ló de Alfezeirão.

Arejamos com o leque
calores dos 60 anos
pérolas de pechisbeque
brincos de prata ciganos.

Lá em casa convivemos
com os estalos da mobília
tristes silêncios serenos
doçuras de chá de tília.

Réstias de sol nas janelas
de cortinas desbotadas
candelabros de três velas
retratos das afilhadas.

A crueldade do espelho
vem mostrar-nos de manhã
ruínas de um corpo velho
num casaquinho de lã.

E à cabeceira da cama
o riso do falecido
garante qu'inda nos ama
por trás da placa de vidro.

Ai felicidade perdida
porque a mágoa não tem fundo
o cão ladra contra a vida
nós ladramos contra o mundo.

António Lobo Antunes

Adágio

06/10/2010

Mãe, vou-me embora...






Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.


Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.


Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.


Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

05/10/2010

Muito penhorado e à disposição de vossas excelências (A minha andorinha)


Embora esteja habituado a ser preso e, graças ao bom humor da polícia que me tem tocado, até recorde com agrado algumas detenções mais espectaculares, ainda não consegui habituar-me à componente invasiva que às vezes compreende. A facilidade com que nos entram pela casa adentro, sem danificar portas ou janelas, nunca deixa de me espantar. Será o senhorio que colabora ou terão a mãe de todas as chaves-mestras? Nunca me disseram.
Acordar com o quarto cheio de agentes, meirinhos e o ocasional juiz, todos a competir para ver quem consegue fazer a voz mais grossa, é sempre rude para um menino criado a chá, torradas e palavras mimadas. Mas está bem. Toma-se banho; veste-se uma camisa fresca e tem-se um carro à porta de casa, mais eficaz e veloz do que qualquer táxi: como eles são a polícia, respira-se conforto e segurança, por muito perigosas que sejam as manobras e velocidades com que nos transportam para o tribunal.
Convenci-me que estas invasões eram ossos do ofício de escrever em jornais e arreliar profissionalmente as gentes e, verdade se diga, até usava com vaidade este triste emblema, por ser prova do meu carácter destemido, incorruptível, irreverente e – não me neguem o acesso à palavrita – malandro.
Mal sabia eu, todo armado em veterano e vítima da luta das forças do Mal contra a liberdade da expressão, que me faltava ainda passar por outra experiência, também ela associada aos escritores e heróis da minha adolescência; ao pé da qual o ser-se meramente invadido e preso mais se parece com levar com uma multa de estacionamento.
Eu não estava preparado. E, mesmo passadas duas semanas desde o horrível episódio, ainda não estou. Perdoar-me-ão se as letras estiverem um bocado tremidas enquanto relato a aventura de ser, mais do que invadido, pior que preso: penhorado. Que é como quem diz comprado e vendido; escolhido e regateado; pesado e mexido; apalpado e grosseiramente apreçado.
O motivo não interessa muito: era uma dívida antiga de estacionamento, invocada por uma garagem aqui vizinha, que eu não só não reconheci como não paguei, claro. Referia-se esta conta a um Mercedes SLK 230 que eu já não tinha e que ainda hoje choro, cuja retoma foi tema de uma crónica minha e cuja data de publicação é a prova que eu já não tinha Mercedes nenhum, de espécie alguma, para lá estacionar durante os meses que a simpática garagem me quis cobrar. E conseguiu cobrar, com juros fanáticos – pois penhorando-me.
Acordámos nessa bela manhã com uma díspar e estranha multidão já dentro de casa. Não era a do costume: a multidão amiga, constituída pela decência de um juiz e agentes da autoridade, ansiosos apenas por me apresentar à Justiça da qual eu teimo, por sistema, em fugir.
Esta era uma maralha com um brilho guloso e triunfante nos olhos. Havia um polícia alto, daqueles que se encostam às paredes e olham para o chão, um pouco envergonhados com a situação. Chefiava a delegação uma advogada tão mal dormida como eu, a inclinar sob a tara bruta dos documentos que abraçava. Acompanhava-o um expedito e curioso funcionário, de olhar arguto, com porte e faro de premiado perdigueiro de electrodomésticos. Estes, mesmo atendendo às vis intenções, ainda se aceitariam de bom grado no nosso ninho e lar.
O que me apanhou desprevenido e me fez vacilar a marcha foi a presença casual dos garagistas; um dos quais de fato-macaco, profusamente decorado com as nódoas que são as medalhas da profissão lubrificadora. Traduzindo para palavras caras a minha fundamental interrogação humana, acerca de que merda, ao certo,, vinha a ser esta; foi-me dito que a comparência dos garagistas, como representantes da entidade credora, era não só legítima como exigida.
Tenho de dizer já que, sendo gente simpática e bem portuguesa, se comportaram, ao contrário de mim, como senhores. Terão de imaginar, se fizerem favor, o espectáculo desta trupe, de bota grossa, a passear pela minha sala para compreender porque perdi a cabeça. Estão avaliando a qualidade do televisor («É um Trinitron dos últimos!», assobia um) e o número de woofers das colunas; detêm-se com curiosidade diante da mesa de mistura de karaoke (não perguntem!), deslizando com desprezo um dos cursores; passam com os dedos pelos móveis, para mais bem se inteirarem da qualidade e da conservação das madeiras; agora fitam intensamente o valor dos dois gatos persas que, ignorantes e traidores, se lhes roçam na sarja dos fatos-macaco; sempre absortos por complexas contas de cabeça, enquanto multiplicam a estimativa dos milhares de livros e cedês por um preço espúrio e inconfessável, certamente relacionado com a Feira da Ladra, que lhes vem não sei de que educação.
Este espectáculo de ver o meu dómus transformado em loja de segunda mão para garagistas, com todo o recheio à disposição, para arrematarem ao preço que lhes apetecesse atribuir-lhe, foi de mais para a minha condição habitual de eremita.
Chocado com a maneira abjecta com que o Agostinho, sobretudo, mas também a outra persa, a Marieta, aderiram imediatamente à causa dos que tinham a faca e o queijo na mão, num frenesi colaboracionista que desmentia anos de despesas e carinhos, cheguei a dizê-los campeões, para lhes inflacionar o preço conjunto (na verdade, duzentos contos), a ver se os levavam mas era já dali para fora e não se falasse mais na dívida. Que eu e a minha mulher ficaríamos bem só com o Casimiro (dois contos) porque, sendo um Félix ordinário de Alfama e naturalmente avesso às fardas e a qualquer espécie de autoridade, tinha-se mantido escondido, petrificado de medo e leal.
Que fiz eu então? Primeiro, perdi a cabeça. Depois, caindo em mim, fiz o que faz qualquer homem adulto, com a maturidade de quase cinquenta anos: fui chamar a minha mãe.
A minha mãe pôs logo ordem naquele casbá. Tentou afastar os garagistas: «Isto é um circo?» «Porque é que não está a trabalhar?» e, imortalmente, «Isto não é uma garagem!». E, diante tal fúria, eles bem que teriam preferido correr dali para longe. Mas logo a advogada, também ela com uma paciência de santa para com a minha alevantada e furiosa família, explicou que os garagistas tinham de ficar.
Entrando na sala, perguntou logo ao avaliador, que estava sentado a avaliar furiosamente a alta fidelidade (registando-a, com grande lata, diante de um Nakamichi topo de gama, como «midi stereo tipo Sony») se era costume ele ficar sentado quando entrava uma senhora. Levantou-se imediatamente o pobre moço.
A minha mãe pediu-lhe logo explicações: « O que é que está a escrever? Quem é que lhe deu licença para estar a mexer nas coisas do meu filho?». O avaliador, amedrontado (uma reacção comum), lá começou a explicar, o melhor que podia. «Não, não!», interrompeu a Mrs. Esteves Cardoso, «Em inglês, se não se importa!».
E não é que o pobre homem, um modelo de boa educação e de terror infindo, desatou mesmo a relatar-lhe as complexidades das leis da penhora em inglês? É. E que a minha mãe, insatisfeita com a proficiência do pobre homem na língua de Byron, se põe a corrigir cada erro, como se fosse ela, e não ele, a dar a explicação?
Foi bonito de se ver, sim senhor, e não pouco me consolou, não senhora.
Tendo registado tudo o que de mais atraente havia em nossa casa, sempre atribuindo valores insultuosamente baixos (deve ser «consumer paradise» escolher o que se quer e poder fixar o preço que apetece pagar), preparavam-se já para começar a carregar a camioneta.
A memória recente da minha figura orates, gritando «Levem tudo! Tomem mais isto! Há cerveja estrangeira no frigorífico! Querem que eu dispa já estas calças de ganga?», ainda pairava no ar. A minha mãe, habituada a estes números, pediu-me para ir fazer um gin-tónico e vir aqui para o meu escritório ler um livro ou qualquer coisa. Eu, intransigente, fui. E ela lá aceitou pagar a dívida fictícia, por julgar que saía muito mais barato do que estar a comprar tudo outra vez.
Quando finalmente emergi do escritório, duas horas e três gin-tónicos mais tarde, já se tinham ido todos embora. Tinha permanecido tudo – até os sacanas dos gatos, esticados em coma, exaustos depois de tanta agitação e incerteza perante o futuro.
Não me venham por isso dizer que não é desgraça ser pobre; não me façam uma coisa dessas; porque é. Não tem graça nenhuma sabermos que as nossas coisinhas afinal não nos pertencem e que, se ainda aqui estão, é em exposição, devidamente mantidas, à espera dos próximos garagistas que por aqui aparecerem à procura de umas pechinchas e de uma visita guiada à casa de um pobre escritor desgraçado.


Miguel Esteves Cardoso