19/03/2010

Distância...



Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim. Não vás para tão longe;
Quero ver se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.
Não vás para tão longe!
Tenho medo do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala! Não vás para tão longe!
Antigamente, era sempre demais o curto espaço que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois, com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
o meu abraço. Não vás para tão longe! Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar e tenho medo! Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...
Céu apagado, negro, pessimista, E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro

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