22/03/2010

" Subir o Chiado" (3ª parte), Duarte Cannavial







Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo. Sobe o resto da Rua Serpa Pinto e, ao chegar ao Largo Raphael Bordallo Pinheiro, vai estranhar que um prédio de boa qualidade - fazendo esquina com a Travessa da Trindade (por detrás do Hotel Borges) - esteja desocupado. Mantém ainda um letreiro - bastante fanado - com os dizeres Barbosa & Costa. Em 1871 era o Casino Lisbonense - o das Conferências do Casino, que tanta tinta fizeram correr. NO seu interior ainda se podem ver decorações e pinturas que atestam da ambiência requintada que ali se vivia e que tão abalada foi com as Conferências Democráticas.
Mesmo em frente, na outra esquina, em prédio discreto mas de qualidade, sedia o Círculo de Eça de Queiroz. Ideia dinamizada por António Ferro, aí por 1940, congrega 202 sócios, nem mais, nem menos. O número foi escolhido a pensar no nº. de polícia da casa do Príncipe da Grã Ventura nos Campos Elísios, em Paris.
No Largo há que dar uma olhadela à fachada de azulejos do prédio do topo, e ainda às placas toponímicas que recordam os desenhos e as cerâmicas de Bordallo.
Mas o seu destino é o Largo do Caro; local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.
É que foi ele que fez toda essa zona de Lisboa, à sombra da Igreja e do Convento que mandou edificar em 1389 - passam já 600 anos.
Ali foi Nun'Álvares sepultado, e também sua Mãe, a virtuosa Senhora Dona Iria Gonçalves, como se pode ler na lápid da sepultura, hoje guardada na Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, no 1º. andar do prédio que ocupa todo o lado Norte do Largo.
A Igreja do Convento, que Dona Maria I mandou reconstruir - o que ficou só pela intenção - é hoje Museu de Arqueologia, onde, de quando em vez, pode ouvir boa música pelo que resta da Orquestra Sinfónica da RDP.
Ao lado era o Convento onde se acolhia Frei Nuno de Santa Maria. Hoje é o Comando Geral da Guarda Nacional Republicana. Bastante danificado, também, pelo terramoto de 1755, mantém ainda uma bela sala ogival onde o grande Franz Liszt, quando por aqui passou, deliciou lisboetas com a sua virtuosidade pianística. Parece que, então, era aquela a sala com melhor acústica na Capital.
Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu. Depois, para iluminá-lo, passaram-lhe uns fios de electricidade presos no topo. Há poucos meses limparam-no e - Deus seja louvado! - instalaram-lhe torneiras de latão. Só que os tais fios eléctricos permanecem, e agora mais visíveis, pelo contraste com o mármore limpo ...
Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde desfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; vale a pena e são só cinquenta metros.
Ao fazê-lo verá como Siza Vieira tem razão. Mesmo à frente à porta Sul das ruínas da Igreja do Carmo que magnífico caminho se deve fazer para chegar à Rua Garrett!
Mas, antes disso, repare no prédio onde está instalada a Escola Veiga Beirão. Antiga casa apalaçada, foi ali - naqueles terrenos, claro que não naquele prédio - mas foi ali que, em 1920, ficara instalados, por decisão De Dom Dinis, os primeiros Estudos Gerais, que vieram, depois, a originar a Universidade de Coimbra.
Mesmo ao lado fica a Rua do Almirante Pessanha; recorda aquele Manuel Pessagno que o plantador de Naus a haver escolheu para Almirante-Mor do Reino.
É na esquina dessa rua com a Calçada do Sacramento que se situa a igreja da minha Paróquia - a Igreja do Santíssimo Sacramento. Merece uma visita, que mais não seja para ver pintura de Pedro Alexandrino.
Sobe agora para o quase inexistente Largo da Trindade. Tem ali o Teatro que, felizmente, ainda está vivo e logo abaixo, o Gymnásio que estão a refazer. O Giymnásio que, ao seu tempo, com dinheiros do Alves dos Reis, dois dos melhores teatros d Lisboa ... Sic transit gloria Mundi.
Vai chegando, de novo ao Largo do Chiado. Lá está ele, o Poeta Galhofeiro a ditar uma das suas piadas ao passante; quase defronte, à porta d'A Brasileira, Pessoa convida-o a sentar-se ao seu lado. Dali, falando com ele, pode vislumbrar, ao longe, não muito longe, - Camões.
Há que fazer-lhe uma visita! São dois passos. Atravessa o antigo largo das Duas Igrejas (hoje continuação do Chiado) e à sua direita tem a Igreja de Nossa Senhora do Loreto (Igreja dos Italianos, porque construída pela sua Comunidade) e, se lhe pesa algo na consciência, há ali sempre um Sacerdote para proporcionar-lhe o Sacramento da Reconciliação.
Depois de venerar Camões e os seus ilustres acompanhantes, desça um pouco da Rua do Alecrim. Perto, no Largo Barão de Quintela, cumprimente o Homem que mais falou, que mais fez viver o Chiado - Eça de Queiroz.
Volta de novo para o Chiado; a sua cara-metade já está à espera. Ao chegar ao início do Largo te, frente à Igreja Nossa Senhora da Encarnação, igreja-mãe do Bairro Alto - um outro Mundo, como o Chiado.
Foi mesmo à hora! Sua Mulher despedia-se da amiga e são horas do jantar. Decide-se pelo Tavares. Aí fermentou e nasceu a ideia desse famoso grupo que foi o dos Vencidos da Vida. Vencidos que, afinal, nunca deixaram de lutar.
Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto ...
E volte sempre ... há muito, muito mais para ver ...

DUARTE CANNAVIAL (do livro "Chiado meu Amor "1989)

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