20/03/2010

" Subir o Chiado " (2ª parte), Duarte Cannavial



O G.L. existe desde 1846. Foram seus fundadores, entre outros, Garrett, Rodrigo da Fonseca, Fontes, Herculano e Eça.
Como se preocupa com a segurança lembro-lhe um pormenor. Naquele fatídico dia 25 de Agosto de 1988, uma das grandes preocupações dos Bombeiros era evitar que o G.L. ardesse. Hoje, passado um ano, ainda o G.L. não tem detectores de incêndio ligados aos Bombeiros! Como pode isso quando, naquela casa, há tantas obras que se não podem perder? Noblesse oblige ... será que a sua acção chegará para colmatar esta lacuna? Queira Deus que sim!
Mas tenha cuidado! Nas suas idas e vindas para o G.L. a sua Mulher pode encantar-se, e não só ela! É que por ali, pela Rua Ivens, as montras exibem também cousas lindas - é a Vista Alegre, é a Atlantis, é a Casa Quintão!
Depois de um bom almoço no G.L., para ajudar à digestão passeie até ao agora Largo da Academia de Belas Artes (antigo Largo da Biblioteca Pública). Vale a pena o passeio - são cem metros - mas dali, através de um portão gradeado, vai ter uma vista soberba sobre a Baixa Pombalina, a Sé e a encosta do Castelo.
O que decerto o vai chatear é que, à volta do busto do Visconde de Valmor - benemérito protector das Artes - exista uma Academia com a parede exterior pintalgada e u edifício da Câmara Municipal de Lisboa, e onde funcionam serviços municipais, em pleno estado de degradação. Vai sentir vontade, necessidade, de fugir dali. Retroceda e retome a subida da Rua Garrett. Faça-o mantendo permanente conversação com a sua Mulher. Nessa parte da subida há a Ourivesaria Aliança e o Eloy de Jesus e as tentações são muitas. Vá falando da tristeza do Café Chiado não ser hoje mais do que o local de atendimento da Império, mas rejubile, ainda assim, porque a Gardénia ainda se mantém tal e qual como o Raul Lino a desenhou.
Depois de, no Picadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand - o que havia de histórias para contar dessa esquina ..
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre a Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires - não quer dizer que nesta igreja - que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147. Foi também nessa Paróquia que ocorreu o baptismo do venerável Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo Primaz e voz possante e disciplinadora no Concílio de Trento.
De tarde está em exposição o Santíssimo Sacramento. O Senhor, que tanta cousa boa lhe tem dado, merece que lhe faça uma visita.
Vê? Vem agora muito mais bem disposto. Disposto até a comprar bilhetes para a Ópera em São Carlos. Desce um pouco da Rua Serpa Pinto e, com sorte, arranjará bons lugares.
Ao sair da bilheteira, ainda sob o pórtico, espere um pouco, tenha um momento de reflexão. Mesmo em frente, no 4º andar, nasceu, a 13 de Junho de 1888, Fernando Pessoa. Pouco mais de um mês depois era, também ele, baptizado na Basílica dos Mártires. Filho daquela paróquia, explicava mais tarde a João Gaspar Simões que o sino da minha aldeia era o sino da Basílica dos Mártires, a dois passos da casa onde nascera, e que daí, sob o pórtico do São Carlos, pode ver ...
Pessoa era frequentador assíduo d'A Brasileira; não estará agora na hora de tomar um café?
Retomando a Rua Serpa Pinto vai encontrar, na esquina, o Paris em Lisboa, que, no início do século era fornecedor de S. M. a Rainha Dona Amélia. Em frente, mais uma tentação - a Livraria Sá da Costa! Basta só pensar naquela magnífica Colecção dos Clássicos ...
Agora que a sua cara-metade encontrou uma amiga que não via há muito tempo, e por isso decidiu ir tomar chá à Bernard, aproveite para tomar o café n'A Brasileira. Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco - cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo - é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n'A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraias ...Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n'O Calcanhar de Aquiles, Herculano com as suas vasilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: Aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo
ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Duarte Cannavial ( do livro "Chiado meu Amor" 1989)

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