18/03/2010

" Subir o Chiado " (1ª parte ), Duarte Cannavial




"Quando vou ao Teatro é
para ver e ser vista!
(Velha amiga da minha Avó)


Dobrou a esquina do Rossio para a Rua do Carmo, e começou a subir o Chiado ...
Subir o Chiado não é só ir à Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n'A Brasileira.
Subir o Chiado , para desfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga, e como creio que todo o Chiado vai voltar a ser muito do que era, vamos subir o Chiado,
Se for no Inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes ilhéus ...), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir uas luvas.
Podem ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada. Ficar-lhe-ia melhor o nome de Liliput, embora Ulisses da História só fosse grande nas obras, porquem frente ai Ciclope, também ele, o Ulisses e seus companheiros, eram liliputianos.
Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Aliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante.
E desse lado - do lado da pedreira - estugue o passo; é que a sua Mulher pode encantar-se com as modas da Ana Salazar ...
Depois, depois o encanto da sua companhia feminina - subir o Chiado deve ser, ou pelo menos é melhor a dois - será pelas utilidades e futilidades domésticas (mas lindas, e por isso caras), que uma série de montras exibem.
è ocasião - se aí tem conta - de ir abastecer-se ao Montepio Geral, ali mesmo ao lado.
Logo acima tinha os Armazéns. Terá, agora, um Centro Comercial. Em frente tinha - e terá de certo - essa magnífica instituição que é o Martins & Costa. Aí não sei qual dos dois vai ser mais perdulário. Desde os frutos exóticos ao salmão e ao espadarte fumado, aos queijos e vinhos, que maravilhas ali há! Aí me abastecia sempre do genuíno Serra para levar à minha Mãe.
Mais uns passos e é a sua vez de ser gentil e, na Perfumaria da Moda, alargue os cordões à bolsa para oferecer à sua companheira o Chanel nº. 3.
Chegou ao topo da Rua do Carmo. Subiu devagar, como se deve subir o Chiado, mas está cansado. Não suba já a Rua Garrett.
Continue em frente. Aquele disco da Maria João Pires que tanto deseja, encontrá-lo-á, com certeza, no Valentim de Carvalho.
Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável, como o foi nas instalações provisõrias das Escadinhas de São Francisco.
Retemperado, e se recorda ainda leituras do Eça, talvez lhe apeteça descer até à Livraria Férin, onde o Mestre recebia o pagamento dos seus artigos para a Revista de Portugal.
Só que entretanto, a sua companheira não resistiu . . . e entrou na Casa Batalha. Podia lá deixar de ser! Mais aliviada ficou a sua bolsa, mas mais decorada ficou a sua cara-metade.
No retorno - porque para baixo não se desce, a Boa-Hora ali está e não é agradável pensar no que lá se passa! - no retorno, porque o Freire Gravador já não existe, tenta-se por entrar no A d'Abreu e, naquela pedra de lápis-lazúlli que trouxe do Brasil, manda gravar as armas da Família. Sim, porque embora vivamos em República, um brasão de armas bem gravado no anelar sempre dá um certo ar ...
Começa, então, a subir a Rua Garrett.
Se, até agora, se preocupou com o ar com que subiu, atente que, daqui por diante, mais terá de preocupar-se ... Isto se, como a amiga da minha Avó, quer ver e ser visto. Se, por outro lado, quer só ver, só desfrutar, aí terá muito mais gozo ... mas não sairá nas páginas da Olá.
Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garrett (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos, um t; o João Baptista dizia que escrevia o nome com dois tt para que, pelo menos, lhe pronunciassem um).
Já abastecida na Ana Salazar, talvez que a sua companheira não se entusiasme pelo Eduardo Martins; se bem que ali, muita cousa boa há para ela e mesmo para si ...
E se a cara-metade não se deixou levar pelos encantos do Eduardo Martins, procure que ela não vá na onda do José Alexandre. É difícil, sei-o bem! Até porque, a si mesmo pode ser impossível resistir; há ali tantas cousas boas .. e lindas!!!
Bem, mas como logo adiante já não existe o Novo Figurino mas sim o Banco Comercial Português, tem aí (se aí tem conta), ocasião para reabastecer novamente a carteira.
Subir o Chiado, sobretudo para quem, agora, tem, no anelar, um anel de brasão, noblesse oblige ...
Por isso, ao passar para o outro lado da rua, vai, à vontade, entrar no Jerónimo Martins. Há mais umas delicatesen para adquirir ...
A sua cara-metade quer mantê-lo desse lado. É que, em frente, a XCasa Pereira oferece demasiados chocolates que não são do melhor para manter a linha ...
Ora aí estamos na esquina das Ruas Garrett e Ivens. Com o seu brasão d'armas no dedo talvez tenha conseguido entrada para o Tauromáquico. Ali, no entanto, não entra quem quer. Ali só quem é tem a porta franqueada. Se conseguiu entrar, tanto melhor. Por detrás do tule das cortinas que maravilhas se vêem E como se come bem!
Se o seu anel de lápis-lazúlli ainda cheira a fresco, se as armas que ostenta não são das desenhadas no tecto do Palácio da Vila, em Sintra, já sei!, não conseguiu entrada.Não se afole! Com um pouco da boa vontade do BCP arranja logo capacidade para a jóia e o mais necessário que lhe proporciona a entrada no Grémio Literário. E esse é mais antigo até - como instituição - do que o Tauromáquico.

Duarte Cannavial (do livro "Chiado meu Amor"1989)

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