04/04/2010

José Agostinho Baptista ("Anjos Caídos")


EPITÁFIO

Desces as escadas de granito em
direcção ao cadafalso,
e a terra espera-te, húmida e verde,
com as suas mãos de lama, abertas para o
teu corpo quebrado em dois, sem música
e sem sentido.
Despedes-te de cada um,
este é o teu dia, o grito, o fim, pensas,
beijas o teu cão na sua cabeça sonhadora,
tu que já não sonhas,
que já não vestes o manto do perigrino,
tu que viajaste os oceanos do mundo,
e só,
tão longe,
queres que pela última vez se aproxime um
rosto que julgavas perdido,
um rosto que se encoste ao teu e diga:
esta é a tua hora, a hora dos órfãos e do
lobo,
mas eu estou aqui, vês-me, ouves-me?
eu estou aqui e sou o filho, o pai,
trago-te estas flores e este vinho,
trago-te a saudade de todos os sinos,
de todas as ilhas que te viram crescer,
doente e aflito,
no centro das orquideas,
pobre menino devorado pelo excesso dos
corações femininos,
mas agora podes descansar em paz,
para sempre,
porque nesta lápide já escrevemos o teu
nome
a tua idade,
e deixamos um beijo frio e uma lágrima
eternamente acesa.

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