01/04/2010

Quando chegar a hora



Quando eu, feliz, morrer, oiça Sr. Abade,
Oiça isto que lhe peço;
Mande-me abrir, ali, uma cova à vontade,
Olhe: eu mesmo lha meço.

O coveiro é podão, fá-las sempre tão baixas…
O cão pode lá ir:
Diga ao moço que tem a prática das sachas
Que ma venha abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Aleluia!
Não me diga orações, que eu não tenho pecados!
A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Unção!
E as Carvalhas (chorai o poeta, encomendai-o!)
De padres farão

Mas as águias um dia, em bando como astros
Virão devagarinho,
E hão-de exumar-me o corpo, levá-lo-ão de rastos
Em tiras, para o ninho!

E há-de ser um deboche, um pagode, o demónio,
Naquele dia, ai!
Águias, sugai o sangue a nosso filho António,
Sugai! Sugai! Sugai.

Raro tem de comer. A pobreza consome
As águias, coitadinhas!
Ao menos, nesse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas…

De que serve, Sr. Abade! O nosso pacto:
Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as águias um contrato
No dia em que nasci.

António Nobre
(Seixo 1886)

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