26/06/2010

«É complicado ...» (citação)


Estarão os portugueses a ficar mais estúpidos ou apenas mais incompetentes? É que ultimamente tenho verificado com desolação que é cada vez maior o número de coisas e tarefas, que são caracterizadas como sendo de grande complexidade.
Pergunta-se a um amigo se ele quer vir beber um café - até há pouco tempo um empreendimento relativamente fácil - e ele responde logo:
«É complicado...»
Vai-se sozinho beber o café, pede-se troco para a máquina dos cigarros e o empregado desde logo confessa a complexidade daquela operação:
«É complicado, amigo...»
Claro que acaba por dar o troco, mas entrega as moedas como se tivesse acabado de resolver o teorema de Fermat, como se exigisse que eu tomasse consciência do grau intenso, quiçá insano da dificuldade do meu pedido.
O tecido vivo da Nação foi envolvido por uma furiosa teia de complicação. Pergunta-se inocentemente se amanhã vai estar bom tempo para a praia e o nosso interlocutor transforma-
se logo num camponês perplexo, caído de pára-quedas no Centro Comercial Colombo, fitando o céu, suando com os nervos e balbuciando: «Está complicado...»
«Achas que compre um bolo para a festa de anos do teu irmão?»
«É complicado...»
«Emprestas-me este CD?»
Ó pá; é complicado...»
Das duas uma: ou as coisas todas do mundo português atingiram finalmente a assustadora complexidade tecnológica da qual tanto nos avisaram os profetas da desgraça, ou foi a nossa inteligência colectiva que foi repentina e tragicamente diminuída; simplificada.
Quando eu era pequenino ou, pensando bem, até ao ano passado, era tudo muito simples:
«Como é que eu chego à Calçada do Combro?»
«É muito simples, amigo...»
Seguiam-se instruções capazes de paralizar o cérebro de um astrofísico: «controla o cruzamento...segue pela rua que não é do eléctrico, sempre à direita...não liga aos sinais...passa o homem das castanhas...mete na terceira; não...quinta à esquerda...até chegar aos semáforos...e depois pergunta...»
Podíamos não dar com a porcaria da rua mas, se é verdade que os extra-terrestres escutam tudo o que dizemos, imagine-se a fama de inteligentes que nós tínhamos! E que agora podemos ter perdido para sempre.
O problema é particularmente grave com o «complicado» porque a palavra acaba por afectar o próprio pensamento, fazendo parecer complexas situações que doutro modo poderiam ser facilmente resolvidas. Por exemplo, estou convencido que a luta contra os incêndios poderia ter sido mais eficaz se cada fogo, fosse ele qual fosse, não tivesse sido logo classificado como «complicado».
Às tantas, afirmar logo à partida que uma coisa é complicada equivale a uma desistência. Quer-se saber como vai o casamento de um amigo e o oco diagnóstico «Aquilo está complicado...» acaba por substituir-se à tentativa de uma explicação.
Por alguma razão o «É complicado...» leva sempre reticências. É para entrar preguiçosamente no reino irritante do «Nem me faças falar...»; do «Escusado será dizer...» e do «Quanto menos se disser sobre este assunto, melhor...»
Já mais de um médico me disse, para se poupar ao esforço de me dar um lamiré acerca de uma situação:
«É complicado; é complicado...»
Os médicos, não sei porquê, repetem sempre o adjectivo; talvez para demonstrar ciência acrescida. Dos mecânicos de automóveis nem se fala.
A única resposta, por enquanto, é tratar o verbo «complicar» como deve ser e retorquir logo:
«Ah sim? E o que é que complicou a situação? Como era ela antes de se complicar? Era melhor? Tem saudades desse tempo? O que é que acha que se pode fazer para descomplicá-la?»
Não é a melhor maneira de atingir a popularidade mas é eficaz.
Quer dizer; é complicado...

Miguel Esteves Cardoso
(A minha andorinha)

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