08/07/2010

Maria Matos (e "coisas" do passado...)


(...) Há no meu quarto um vélho contador de embutidos em cujas gavetas pequeninas eu guardo, desde há muito tempo, lembranças que me são queridas, memórias de tudo quanto, ainda que por momentos, encantou o meu espírito ou me impressionou o coração.Gosto de conversar com o meu vélho móvel e, às vezes, naquêle cantinho cheio de intimidade onde êle dormita, fico a idealizar qual teria sido a sua situação anterior; quem o teria possuído, que mãos viriam abri-lo diàriamente, para nêle guardarem, o quê?!(...) Não sei. É de confiança o meu vélho contador, e por mais que alguém o interrogue, jámais quebrará o seu impenetrável mutismo.Às tardes, quando o sol desmaia num longo beijo, suave como um queixume de amor, nessa hora estranha de inefável melancolia, em que até as rosas parecem empalidecer de saüdade, ou à noite, altas horas, quando tudo dorme e só o palpitar do meu coração enche a casa silenciosa, gosto de abrir as suas gavetas pequeninas, e, devotamente, mergulhar os dedos nas mil recordações que ali guardo; de entre eles, uma há, que me merece a mais indulgente ternura: É uma vélha Ilustração Portuguesa e, sempre que a folheio, o meu olhar detem-se comovido, na contemplação do retrato que, isolado, a meio de uma página, recorta modestamente a sua linha escura.É tão feiosinho, Santo Deus! E, vejam lá! por isso mesmo lhe quero e as lágrimas me vêm aos olhos sempre que o contemplo!É que êsse retrato, em que uma rapariguinha vestida de luto, numa atitude acanhada, de olhos baixos, esboça timidamente um sorriso triste...êsse retrato...é o meu.Que infinidade de recordações êle desperta no meu coração!Acabava eu de prestar as minhas provas de exame do 2º ano do Curso de Arte de Representar no Conservatório Real de Lisboa.No pátio do vélho casarão dos Caetanos, aguardava-nos o fotógrafo do Século para reproduzir na Ilustração o bando gentil de futuras actrizinhas que, buliçosas e despreocupadas, chilreavam como pardalitos em tarde de primavera.Parece-me ainda estar a ouvir a voz amiga de Henrique Lopes de Mendonça, que fizera parte do júri, e que, pegando-me na mão, me dizia com solenidade cómica: «venha. A caminho da Imortalidade!» Eu sorria, confusa, enleada, feliz, cheia de amor pela carreira que resolutamente abraçara...
Agôsto de 1935
Maria Matos

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