21/08/2010

Quero ir para um lar... (A Minha Andorinha)



Sexta – feira passada, ao descer os distintos degraus do átrio do famoso e fabuloso Hotel Palácio Estoril, tropecei nas sandálias Dr. Scholl que orgulhosa mas contrariadamente calçava e espalhei-me ao comprido.
Ao estatelar-me, com a minha centena bem pesada de quilos, ouvi um assobio no ouvido, mais precisamente um silvo de baixa pressão arterial, não desaparecido com a melodia do Lá Vai o Comboio, que me cantarolava, em versão «tinnitus», o refrão «Lá se Vai A Tua Pinta Toda (Oh Figlioglio Mio)».
Para uma queda aparatosa – as folhas do Daily Telegraph e do Le Monde a esvoaçarem em entente cordial; as Rotrings lançadas como setas; as cigarrilhas em formação acrobática – só se recomenda um grande, grande hotel.
Não sei de onde, apareceu um grumete com estudos de neurologia que me amparou o crânio, salvando o meu ganha-pão que, graças a ele, ainda consegue escrever esta crónica. Não fossem aquelas mãozinhas amigas e cirúrgicas e o embate dos meus miolos com o belo mármore do Hotel Palácio teria acabado 5-0 a favor do mármore.
Estendido ao comprido naquele átrio maravilhoso que acolheu Graham Greene, Kim Philby e tantos outros bêbados ilustres, voltei à consciência com a voz maviosa e salvífica do Senhor Diogo, o melhor concierge do mundo inteiro (o que ele não sabe não vale a pena saber) que quase me ia convencendo, muito solidária e terapeuticamente, que quem não tropeçasse naqueles degraus tinha um problema qualquer.
Isto sendo evidente – com degraus tão doces e perdoadores – que eu tinha sido o primeiríssimo palerma, em 75 anos de actividade frenética, a conseguir cair daquela simpática rapaziada abaixo.
Veio um senhor com um copo de água (do Luso, de garrafa). Propôs-se chamar um médico de renome, a cinco minutos. E eu ali estendido, como uma torre de Babel caída, ferido em toda a minha dignidade, a murmurar piadolas de tostão e meio.
Estava rodeado por médicos melhores do que médicos – o lendário porteiro que me conhece desde os cinco anos; o barman que me tinha servido os dois impecáveis gin-tónicos; a nata daquele grande hotel. Senti-me tão bem que – juro – dei aquela queda embaraçosa como uma ascensão aos céus. Por mim ficaria ali caído até hoje, tal era a qualidade do serviço.
Telefonaram imediatamente para a minha mulher – a Enfermeira Pinheiro – e, passando três minutos, lá estava o amor da minha vida.
É que saudáveis são sempre bem recebidos – é fácil. Agora quarentões de peso, com gosto pelo Bombay e corações frágeis, que se estampam num átrio sem aviso algum e com desplante absoluto – é mais raro aturarem-se. Obrigado, Hotel Palácio do Estoril: agora compreendo, em profundidade, todos os elogios!
No dia seguinte à minha queda aparatosa – eu culpo as sandálias nazis do Dr. Scholl, que deve ter sido coleguinha do Dr. Mengel – ouvi a minha mulher a falar com uma das melhores amigas dela, a Carla. É casada com um dos meus melhores amigos – o Carlos Quevedo, que praticamente inventou o gin-tónico e tanto se empenha na criação que não há dia em que não beba seis ou sete para confirmar que a fórmula está correcta – e, tal como a minha mulher, nasceu década e meia depois de nós, só para ser mais bonita e jovem. Coisas de mulheres…Bem-vindas que sejam.
«O Miguel, coitadinho, foi-se abaixo das canetas ontem…»
«Cala-te que o Carlos passou o dia inteiro agarrado ao joelho. Dói-lhe muito. Ele diz que foi do râguebi que jogou em miúdo no célebre FINAS de Buenos Aires («Fucking Toffee-Nosed Argy Snobs») mas o médico disse que ele que chamasse o que quisesse à maleita mas a classe médica preferia chamar “reumatismo, meu velho”…»
A estes relatos das nossas maleitas – ambas de notórios lutadores da Pátria, com assinatura reconhecida no notário e rejeitada pela Visa e tudo – seguiu-se um alegre (quiçá despojado até) cacarejar, próprio de moçoilas de bilha à cabeça e ancas gingonas que, airosas e coradinhas, de peitos sobranceiros e empertigados, bisbilhotam na fonte mas que, todavia, fizeram uma promessa de imitar o falar das galinhas e, nesse compromisso, quando se trata de gozar com os vetustos maridos, nunca falham; Deus as abençoe por isso ao menos.
«Temos que metê-los num lar!», disse uma. É a grande anedota daquela amizade. Garante o riso. A Vodafone factura. E nós, encolhendo a barriga e impondo respeito aos nossos gatos – que ainda assinalam a nossa existência, por serem persas bem-educados -, engolimos e fazemos sorrisos amarelos cujas matizes nem Matisse sonhava quando concebeu os vitrais de Vence.
Pois bem. Como dizem os americanos nos filmes rascas, «it’s pay-back time». Depois da minha aparatosa queda no átrio do Hotel Palácio, sou eu que digo que quero ir para um lar. Sempre adorei a palavra «lar». É uma das vantagens de não ser de esquerda.
Quero ir para um lar. Mas não é um lar desses que há para aí, que ainda sou muito novo. Nem cinquenta anos tenho. Não, quero um lar moderno e muito baby boomer, com um retrato do grande Benjamin Spock, meu supremo educador, à entrada.
Para mais, mal tinha deixado de ser filho do meu pai e tinha conseguido ser o meu próprio MEC, eis que me vejo, diante o êxito televisivo das minhas tão amadas filhas, o «pai das gémeas». «Deve estar muito orgulhoso», dizem-me nas tabacarias. E estou. Mas quando lembro que eu próprio já escrevi umas coisas e, embora não me vanglorie, também tenho uma razão ou outra para piar fininho, as pessoas distraem-se e dizem «Pois, pois… mas tenho outro cliente para atender… as suas gémeas são muito goras!»
E eu penso mas não digo: «Lá isso são. Mas sabe que os meus genes… É que eu próprio não sou um monstro… Tenho olhos azuis; sou alto; dizem que tenhobom ar…» Mas ninguém me ouve já. Porque já não digo. Até porque, a semana passada, me espalhei ao comprido no átrio do Hotel Palácio do Estoril e, com essa queda, caíram-me quaisquer peneiras que me restavam. Nem Graham Greene, depois de vinte «sidecars», foi incapaz de negociar aqueles quatro ou cinco inocentes degraus…
A vergonha é boa conselheira e eu, já que não posso pôr mais os pés no Palácio, quero ir para um lar.
Haverá – escusado será dizer – centenas de enfermeiras de salto alto e farda branquíssima e engomada. Não exclusivamente escandinavas, note-se. Pretende-se uma representação justa da ONU. Quero duas do Mali; onze italianas; seis singapurenses; nove da Costa do Marfim; quatro canadianas (mas só uma «canadiana» para chegar ao bar); dezassete japonesas, uma dúzia de russas rebeldes e outra de irlandesas sardentas e, para economizar, quatro brasileiras (duas mineirinhas e duas baianas) e noventa e oito dos outros PALOP. Têm é de ser altas. Não; nem isso. Não têm de ser altas. Até podem ser muito baixinhas. Têm é de ser boas enfermeiras. Isso é essencial. E não se pense que só quero novinhas. Não. Quero «Matrons» inglesas; avozinhas norueguesas de carrapito e baton de cieiro mas bem redondinhas com tabuleiros de respeito – sejam de dry martinis ou peitorais.
Quero todo o meu país representado. Uma Saudade da Beira Alta; uma Magnífica do Algarve; uma Noémia do Minho; uma Adelaide de Sesimbra; uma Maria de Lurdes de Trás-os-Montes; uma Natividade do Baixo Alentejo. Todas engomadinhas, tão branquinhas e resplandescentes que tirar os óculos escuros seria abraçar a cegueira de Borges. As mini-saias não são importantes – mas isto é dito de forma peremptória, para perceber-se que são absolutamente indispensáveis.
Quero ir para um lar, já! E quero levar os meus amigos de idade: o Pájó; o Carlos, o Pedro Ayres; o Luís Coimbra; os Chicos Sande e Castro e Vasconcelos; o Alberto Castro Nunes; o António Braga; o João Miguel e o Joaquim; o Manuel Falcão; o Manuel Rosa; o Rui Reininho; os cunhados Álvaro e o Zé e – sobretudo – os que ainda têm a mania que são putos, como o meu irmão Paulo, o Fernendo Cruz, o Pedro Rolo Duarte, o Manuel Serrão, o Rui Zink, o Paulo Portas, o Jó Gavazzo, o Gonçalo Ribeiro Teles, o David Ferreira, o João Pereira Coutinho e o meu sobrinho-neto Diogo que, apesar de só ter quatro anitos, já lhe pesam…Hi hi, são precisamente estes os que mais necessitam dos cuidados em que estou a pensar. As minhas amigas Luísa, Graça, Filomena e Catarina ainda são muito novas, até porque dariam enfermeiras ideais.
As minhas filhas nasceram com setecentos gramas e trinta centímetros e passaram os primeiros três meses em incubadoras. Este lar seria uma incubadora ao contrário: uma lenta, lentíssima antecâmara para a morte.
Os inquilinos seriam igualmente prematuros – com pouco menos de 50 anos – para a morte. Haveria um bar impecável, copiado do Bemelsmans Bar do Hotel Carlyle na Madison. Aberto 24 horas. O bar do Shining de Kubrick era fictício, mas era à mesma muito bom.
O nome do Lar poderia ser «Liber Pater», porque tem uma ressonância séria e até patriótica, já que os ignorantes julgariam tratar-se de «Pátria Livre» ou «Livros do Pai». Só nós saberíamos que é o nome do deus romano do divertimento, do vinho, da luxúria sexual – e do teatro.
Haveria visitas conjugais dia sim, dia não – para que as nossas jovens mulheres pudessem colher os doces frutos e, feitas ineses, porem-se em sossego. A nós também não nos saberia mal. Com bom champagne e o room service do Ritz Four Seasons de Lisboa.
Haveria um canal «T1» de banda larga; todas as televisões de cartão, cabo e satélite; uma tabacaria da Cubatabaco em parceria com a Fábrica Estrela de São Miguel e uma loja de jornais e revistas que cobrisse o mundo inteiro e tivesse sempre tudo. Cinemas e (para os foleiros) bilhares.
O refeitório seria gerido diariamente. Um dia seria o Porto de Santa Maria; terça era o Gambrinus; quarta o peixinho divinal do Solar dos Leitões; quinta o Aleixo da Campanhã; sexta o Tromba Rija de Leiria; sábado o Sacas da Zambujeira do Mar; domingo o Fialho de Évora; segunda-feira o Pedro dos Leitões da Mealhada; terça o Fortaleza do Guincho; quarta o João Padeiro; quinta o Pap’Açorda; sexta a Bica do Sapato; sábado a Marítima de Xabregas; domingo a Flor da Rosa de Estremoz; segunda-feira o Galito; terça-feira a Marisqueira Ramiro; quarta-feira o Vila Lisa da Mexilhoeira Grande; quinta o Beira-Mar da Cascais; sexta o English Bar…
Não sei, nas palavras imortais de tantos motoristas de táxi de Lisboa, se estão a ver onde eu «istou a querer chigar…»
A minha espalhafatosa queda às augustas portas do Hotel Palácio do Estoril (só senti, como leitor de Óscar Wilde Coward, a falta dos «sais de cheiro» que eu pensara obrigatórios em estabelecimentos daquele luxo) convenceu-me. Se já não me aguento nos calcanhares; se tropeço nas sandálias mais ortopédicas; se o forte vem tão facilmente abaixo; então que se faça vingar a troça sábia da minha jovem mulher com a jovem mulher amiga dela e que me instalem – imediatamente – num lar.
Com três letras apenas se escreve a palavra «lar». «Mãe» também – mas «mãe» é claramente um substantivo. «Lar» até parece um verbinho, de tão jeitosinho que é.
Conjuguemo-lo alegremente, amigos meus:
Eu (já estou) lá,
Tu lás-de ir lá parar;
Ele lá (irá ter);
Nós lamos (já para aí vamos andando, sem delongas);
Vós lais de lá aparecer (aparecereis);
e…Eles também lão tardam (vêm já amanhã!).
Quero ir para o meu Lar. Preparem o meu Lar, se fizerem favor. Recrutem o pessoal necessário. A acrescentar às enfermeiras (ia-me esquecendo) há uma junta médica dos melhores especialistas portugueses e, caso insistam muito para entrar, um ou outro americano. Atenção à importância da unidade permanente de transplantes figadais, trabalhando em estrita sintonia com o serviço de bar.
E as enfermeiras? Já mencionei enfermeiras? Peço desculpa mas é que estou num lar e tenho tendência a repetir-me…Frisei bem a importância do Mali e das ilhas Faroé? Ah, as Faroé não? São importantíssimas; altas e de queixo levantado, mas com um aroma permanente a arenque fumado…


Miguel Esteves Cardoso

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