19/08/2010

Um cigarro (Pedras Lavradas)



- Trazes tabaco? –
perguntou, mesmo antes de a mulher pousar o cesto.
- Não.
- Então desaparece-me da vista!
- Ó homem! – choramingou ela.
- já te disse!
- Corri tudo, valha-me Deus…Cheguei a ir a Sabrosa…
- Andúvia!
- Come o caldo, ao menos…
A pobre da Leonor, a enxugar as lágrimas ao avental, voltou pelo mesmo caminho, e o Leopoldo continuou a destroçar a mata. Mas que teria ele? Que fúria era aquela? Não é que o machado lhe parecia uma arma nas mãos?! Até os pinheiros gemiam doutra maneira!
- Não queres? – monologava ele, quando algum resistia mais. – Eu digo-te já!
E o cutelo fendia o ar numa parábola, e vinha enterrar-se na polpa branca do desgraçado.
- E agora?
Cortado pelo cerne, o pau tinha uma pequena ilusão libertadora, hesitava um momento, e acabava por acompanhar a rama na sua queda desamparada e dramática.
- Que raio terei eu?
Há trinta anos que era lenhador. Mas nunca pusera ódio nos golpes. Derrubava, mas com amor.
- Eh, valente! Chama-se a isto tê-los no sítio! Tem paciência…
Passava a mão calosa pela carcódia do bicho, num afago verdadeiro, e dava-lhe então o golpe de misericórdia.
Hoje, porém, qual ternura nem meia ternura!
- Ah, sim?! Estás-te a fazer fino?
E, sem tomar fôlego, atirava-se às dentadas ao toco do infeliz.
Suava como um odre. E a resina derretida colava-lhe as mãos ao cabo da ferramenta.
- Porca de vida!
No chão, o último vencido acabara de morrer. As palpitações do seu coração, uma a uma, tinham-se apagado, primeiro no tronco, depois nos ramos, por último nas agulhas: jazia finalmente inerte como os outros irmãos, e abraçado a eles.
- Porca de vida!
Ficou-se a olhar a mortandade. Um emaranhado de corpos esguios, mutilados no pé, com as chagas ainda a sangrar.
Guerras, parvoíces, e o resultado era não haver tabaco, nem medida na destruição.
Há dois anos já que era uma razia por toda a parte. Dantes cortava-se um castanheiro, uma faia, um carvalho ou meia-dúzia de pinheiros para o madeiramento da casa de Fulano ou de Sicrano, e mediam-se os paus, calculava-se-lhes a idade e botavam-se abaixo só nas luas, quando a seiva estava de feição. Agora…
Por mais empedernida e dura que se tivesse a alma, não se podia ficar insensível àquela devastação. Tudo servia. O que não dava madeira dava sulipas, o que não dava sulipas dava toros para as minas, e o resto lenha. Antigamente ficava sempre uma mata duma mata cortada. Agora…
Moveu os olhos com lentidão. Nada! Um cemitério. De pé, como um espantalho, apenas um pinheirito aleijado a que pendurara o casaco. Poupara-o para aquele fim, e os irmãos maiores, ao passar na sua fúria, tinham-no desfigurado ainda mais, levando-lhe a crista e bocados da pele.
- Um panorama bonito, não há dúvida!
Cuspiu. Sentia a boca mais grossa do que uma cortiça. E então uma vontade de fumar!
Adiantou-se, olhou friamente a nova vítima, encostou-lhe o machado, e foi beber.
Guardara a garrafa no bolso da vestia, e o vinho quente soube-lhe mal.
- Há dias excomungados!
Voltou e retomou o trabalho. Perdia na empreitada. Oh, se perdia! Muita sorte se conseguisse pagar as despesas na loja. Havia de ser sempre o mesmo desgraçado, o mesmo miserável! Há trinta anos a matar o corpo, e cada vez mais pobre. Olha que roupa! Que calças! Que camisa! Parecia a veiga de Fermentões. Cada polegada, cada remendo.
- Deus o ajude!
Voltou-se rápido como o vento.
- Tem um cigarro que me dê?
- Não gasto.
Quem era, imperturbável, continuou a trotar no burro, até se perder na curva. Depois um grande silêncio e uma grande solidão cobriram tudo.
Ou da aragem, ou do pavor, o pinheiro para que se dirigiu oscilava como um vime.
- Não tremas!
Mas é bom de dizer!... Apenas lhe largou o primeiro golpe, o coitado pôs-se a chorar como uma criança. Era da fúria com que o cortava.
- Muito boa tarde! – ouviu do caminho.
- Fuma?
- Fumava, fumava…
Acabou de liquidar o desgraçado, que se torceu no ar, cambaleou, e se espapaçou no chão como um sapo.
- Não, assim não posso!
Foi vestir o casaco, pôs o machado ao ombro, e meteu pelos montes fora. Fosse o que Deus quisesse!
Atravessou um vale de tojo molar, galgou um cerro de giesta branca, saltou dois muros, passou um ribeiro, e ninguém! Ah! mas quem porfia mata caça!
Não era dos sítios. Judeu errante, corria o país à procura de serviço. Chegava a uma terra, arranjava uma empreitada, alugava um cortelho, metia lá a mulher, e começava a faina. Por isso não conhecia ninguém.
Uma povoação ao longe fumegava. Seria Francelos ou Samodães?
Apressou o passo, cortou à esquerda e meteu por uma rapada. Talvez do lado de lá do outeiro…
Que doidice! Que penitência aquela!
Realmente, na outra encosta, numa leirinha de milho painço, que parecia uma fita verde no surrobeco do carqueijal, andava alguém. Andava alguém, e fumava! Os olhos ávidos e maravilhados identificaram as ondas azuladas do fumo que saíam da boca do cavador, e se perdiam no azul imenso do céu.
Cautelosa e criminosamente, aproximou-se.
- Ora então muito boas tardes!
- Venha com Deus!
O fumador não se assustou. Ergueu-se de cima da enxada e tirou o chapéu. Nos beiços secos e gretados, a ponta da pirisca a brilhar.
- Vossemecê é homem para me dar um cigarro?
- Sou, sim senhor!
Meteu a mão ao bolso do colete, tirou o maço e estendeu-lho.
- Faça favor!
Depois chegou-lhe lume. Aproximou a cara da cara dele, e o Leopoldo teve a sensação de que lhe chupava o próprio hálito.
Calado, o lenhador sorveu sofregamente uma, duas, três vezes, a inundar-se de paz. Por fim, saciado, pousou o machado no chão, num gesto de alívio, sentou-se, e agradeceu:
- Não sabe o favor que me fez! Se me nega o cigarro, éramos dois desgraçados!
O outro sorriu levemente, puxou por sua vez uma fumaça, e respondeu, meio envergonhado:
- Eu sei o que isso é. Ontem, também maluco de vício, quase que enterrei a mulher aqui nesta mesma leira. Se não foge a tempo…
Mas eram agora dois homens pacificados, bons, naturais e fraternos como a paisagem. E nessa mansidão se separaram.

Miguel Torga

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