25/09/2010

Epístola do Chiado... (Lisboa contada pelos dedos)




Nunca fui dono de coisa alguma, a não ser dos meus sonhos. Sou um português com um ofício incomum: o de perfilar palavras. Transformei-me num senhor grisalho e pesado, mas o sonho devolve-me, por vezes, o rapazinho esgalgado e tosco sentado nas raízes expostas do carvalho que ainda existe, mesmo ao lado do Palácio Real, na Calçada da Ajuda. É uma árvore solitária e nobre. E o rapazinho está lá sentado, a olhar a bela nesga de Tejo, iluminado o rio por uma claridade que só eu vejo. Lisboa nunca foi para mim uma cidade. Sempre foi um território de paixão aflita, que não morre e que não tarda a ser salvo. Quando, nesses antigamentes, eu contemplava o Tejo, o que queria era ir embora, atravessar os mares nos volumosos e graves transatlânticos, e conversar com pessoas longínquas nas suas línguas misteriosas. Conversar humildemente; escutá-las com modéstia e aplicação. Viajei, muito mais tarde, por nações soberbas, resplendentes ou medíocres; em algumas residi sem nelas, rigorosamente, nunca ter vivido. Regressei sempre a esta desusada paixão, vociferando contra a nefasta grandeza que me impelia a não saber existir fora de Lisboa, aldeia adormecida. Certa feita, um homem considerável convidou-me a ir para Londres, falar a alunos sobre coisas inúteis, porém bem pagas. Disse-lhe que não ia porque Londres não tem Chiado. Resposta insensata, não impulsiva nem leviana. Londres não tem mesmo Chiado.
Chiado é nome feio. Chiado é poeta de terceiro patamar, e há dúvidas se alguma vez existiu. Mais do que nome de rua, foi a necessidade profunda e secreta de todas as revelações. Ali charutou Ramalho, sempre infenso aos ditos infamantes do seu amigo Eça. «Ó Queiroz, você ensandeceu?». Por lá passearam Fialho e a sua matula. Raul Brandão lançava o azul do olhar às formosas mulheres que lhe sorriam discretas. E Aquilino, e Carlos Olavo, e Manuel Mendes, e Lopes-Graça. Redol, Rogério de Freitas, Leão Penedo, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Manuel Ribeiro de Paiva, Vespeira, Nikias Skapinakis, Júlio Pomar, Augusto Abelaira, Alexandre O’Neill. E Almada Negreiros, António Pedro, Jorge Barradas, Abel Manta – quantos, quantos mais…
Área delimitada, onde os dias corriam devagar, entre nuvens serenas, boatos, intrigas, conspirações, dissíduos, reconciliações, fraternidades e sarcasmos – o Chiado foi o pulsar de um grande coração colectivo, o equilíbrio entre a opressão e a liberdade e, sobretudo, a aprendizagem do exercício da moral. A Brasileira, o Café Chiado com cadeiras de palhinha, a Bertrand e a Sá da Costa, à ombreira de cujas portas discorriam sobre graves ou frívolos assuntos muitos dos homens que tentavam forçar o destino e montar as coroas de uma peculiar identidade cultural; o consultório do Prof. Pulido Valente, onde os mesários do convívio eram do melhor que a inteligência portuguesa tinha produzido; a Leitaria Garrett, distrito do namoro, frequentada pelos arquitectos António Alfredo, Manuel Tainha, pelo Vitorino, trovador, e então aluno das Belas-Artes – eis os pontos cardeais de um universo que recusava o vazio e que combatia a indiferença.
Não vale a pena esconder nem esquecer esse tempo, nesse local, nesta cidade. Não vale a pena dissimular a nostalgia confusa que nos propõe uma época remota e absurda, em que qualquer de nós encontrava recompensas para os desgostos e descobria ignoradas energias para todos os resgates. No fundo, o Chiado era a austera determinação que se movia no interior da mais insidiosa das melancolias. E íamos ao Chiado para divisar Aquilino, para ouvir Mira Fernandes, para escutar Bento de Jesus Caraça, para apertar a mão a Carlos de Oliveira, para contemplar os lindos cabelos brancos de José Gomes Ferreira, para comentar com João José Cochofel um recital de música ou de poesia. E lá estavam Francisco Keill do Amaral, Francine Benoit, Maria Isabel Aboim Inglez, Manuela Porto, Roberto de Araújo, Bernardo Marques nunca vendo o fluir do tempo; dominando o tempo com a majestade imperiosa dos gestos precários. Íamos como se vai atrás de perfumes antigos. Íamos como quem vai a um chão protegido de todas as violências e de todas as agressões. Uma pequena pátria inviolada, defendida pela paliçada da cultura. E havia uma leve emoção, uma humilde alvíssara logo quando passavam, por exemplo, Villaret ou Nascimento Fernandes ou Alves da Cunha, os actores, e os cumprimentávamos com reverência e obséquio, os modos superlativos, por discretos, de dizer que os amávamos..
Era o Chiado, senhores. O passaporte branco de todas as aventuras de espírito. O local. O sítio. O lugar. E o jogo sempre remoçado das palavras, das ideias, das insatisfações e das glórias. Há murmúrios perdidos na distância, sussurros de vozes longe, faces e gestos, entoações e timbres que se foram. Talvez, porém, ainda os reencontremos, nas suas primordiais certezas. Um dia, perguntaram, no Brasil, a Beatriz Costa de onde é que ela era.
- Do Chiado.
Respondeu sem rir. Mais do que uma declaração de princípios ou a convocação veemente de uma toponímia, era a visitação a uma imagem feliz. Mas, antes de tudo, a apresentação de um bilhete de identidade.

Baptista - Bastos

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