19/10/2010

Como nós... (crónicas)




De forma que espero por ti cá em baixo, ao pé dos correios do Estoril, ou passeio nas Arcadas sem olhar para o mar, desatento do jardim do Casino, indiferente aos turistas alemães cor de lagosta de viveiro e aos chapéus de palha com cerejas de baquelite das americanas idosas. Encosto-me a um murozito de pedra, o sol escorre por mim como um fio de glicerina e ponho-me a pensar no teu cabelo loiro, nos teus gestos, na tua boca, na tua maneira de falar enquanto um cão me vem cheirar as pernas porque com a idade me vou assemelhando a uma árvore antiga, a um olmo, a uma nespereira, a um tronco de ossos tristes com raízes no vento, e dos galhos das mãos nas algibeiras brotam as folhinhas de uma primavera antiga, tão antiga que se confunde com os retratos da sala no tempo em que a esperança era um país do tamanho da minha família com fronteiras de tias jovens e de beijos suspensos.
Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fica, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao domingo, espero por ti, filha, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti.
António Lobo Antunes

Sem comentários:

Enviar um comentário