05/10/2010

Muito penhorado e à disposição de vossas excelências (A minha andorinha)


Embora esteja habituado a ser preso e, graças ao bom humor da polícia que me tem tocado, até recorde com agrado algumas detenções mais espectaculares, ainda não consegui habituar-me à componente invasiva que às vezes compreende. A facilidade com que nos entram pela casa adentro, sem danificar portas ou janelas, nunca deixa de me espantar. Será o senhorio que colabora ou terão a mãe de todas as chaves-mestras? Nunca me disseram.
Acordar com o quarto cheio de agentes, meirinhos e o ocasional juiz, todos a competir para ver quem consegue fazer a voz mais grossa, é sempre rude para um menino criado a chá, torradas e palavras mimadas. Mas está bem. Toma-se banho; veste-se uma camisa fresca e tem-se um carro à porta de casa, mais eficaz e veloz do que qualquer táxi: como eles são a polícia, respira-se conforto e segurança, por muito perigosas que sejam as manobras e velocidades com que nos transportam para o tribunal.
Convenci-me que estas invasões eram ossos do ofício de escrever em jornais e arreliar profissionalmente as gentes e, verdade se diga, até usava com vaidade este triste emblema, por ser prova do meu carácter destemido, incorruptível, irreverente e – não me neguem o acesso à palavrita – malandro.
Mal sabia eu, todo armado em veterano e vítima da luta das forças do Mal contra a liberdade da expressão, que me faltava ainda passar por outra experiência, também ela associada aos escritores e heróis da minha adolescência; ao pé da qual o ser-se meramente invadido e preso mais se parece com levar com uma multa de estacionamento.
Eu não estava preparado. E, mesmo passadas duas semanas desde o horrível episódio, ainda não estou. Perdoar-me-ão se as letras estiverem um bocado tremidas enquanto relato a aventura de ser, mais do que invadido, pior que preso: penhorado. Que é como quem diz comprado e vendido; escolhido e regateado; pesado e mexido; apalpado e grosseiramente apreçado.
O motivo não interessa muito: era uma dívida antiga de estacionamento, invocada por uma garagem aqui vizinha, que eu não só não reconheci como não paguei, claro. Referia-se esta conta a um Mercedes SLK 230 que eu já não tinha e que ainda hoje choro, cuja retoma foi tema de uma crónica minha e cuja data de publicação é a prova que eu já não tinha Mercedes nenhum, de espécie alguma, para lá estacionar durante os meses que a simpática garagem me quis cobrar. E conseguiu cobrar, com juros fanáticos – pois penhorando-me.
Acordámos nessa bela manhã com uma díspar e estranha multidão já dentro de casa. Não era a do costume: a multidão amiga, constituída pela decência de um juiz e agentes da autoridade, ansiosos apenas por me apresentar à Justiça da qual eu teimo, por sistema, em fugir.
Esta era uma maralha com um brilho guloso e triunfante nos olhos. Havia um polícia alto, daqueles que se encostam às paredes e olham para o chão, um pouco envergonhados com a situação. Chefiava a delegação uma advogada tão mal dormida como eu, a inclinar sob a tara bruta dos documentos que abraçava. Acompanhava-o um expedito e curioso funcionário, de olhar arguto, com porte e faro de premiado perdigueiro de electrodomésticos. Estes, mesmo atendendo às vis intenções, ainda se aceitariam de bom grado no nosso ninho e lar.
O que me apanhou desprevenido e me fez vacilar a marcha foi a presença casual dos garagistas; um dos quais de fato-macaco, profusamente decorado com as nódoas que são as medalhas da profissão lubrificadora. Traduzindo para palavras caras a minha fundamental interrogação humana, acerca de que merda, ao certo,, vinha a ser esta; foi-me dito que a comparência dos garagistas, como representantes da entidade credora, era não só legítima como exigida.
Tenho de dizer já que, sendo gente simpática e bem portuguesa, se comportaram, ao contrário de mim, como senhores. Terão de imaginar, se fizerem favor, o espectáculo desta trupe, de bota grossa, a passear pela minha sala para compreender porque perdi a cabeça. Estão avaliando a qualidade do televisor («É um Trinitron dos últimos!», assobia um) e o número de woofers das colunas; detêm-se com curiosidade diante da mesa de mistura de karaoke (não perguntem!), deslizando com desprezo um dos cursores; passam com os dedos pelos móveis, para mais bem se inteirarem da qualidade e da conservação das madeiras; agora fitam intensamente o valor dos dois gatos persas que, ignorantes e traidores, se lhes roçam na sarja dos fatos-macaco; sempre absortos por complexas contas de cabeça, enquanto multiplicam a estimativa dos milhares de livros e cedês por um preço espúrio e inconfessável, certamente relacionado com a Feira da Ladra, que lhes vem não sei de que educação.
Este espectáculo de ver o meu dómus transformado em loja de segunda mão para garagistas, com todo o recheio à disposição, para arrematarem ao preço que lhes apetecesse atribuir-lhe, foi de mais para a minha condição habitual de eremita.
Chocado com a maneira abjecta com que o Agostinho, sobretudo, mas também a outra persa, a Marieta, aderiram imediatamente à causa dos que tinham a faca e o queijo na mão, num frenesi colaboracionista que desmentia anos de despesas e carinhos, cheguei a dizê-los campeões, para lhes inflacionar o preço conjunto (na verdade, duzentos contos), a ver se os levavam mas era já dali para fora e não se falasse mais na dívida. Que eu e a minha mulher ficaríamos bem só com o Casimiro (dois contos) porque, sendo um Félix ordinário de Alfama e naturalmente avesso às fardas e a qualquer espécie de autoridade, tinha-se mantido escondido, petrificado de medo e leal.
Que fiz eu então? Primeiro, perdi a cabeça. Depois, caindo em mim, fiz o que faz qualquer homem adulto, com a maturidade de quase cinquenta anos: fui chamar a minha mãe.
A minha mãe pôs logo ordem naquele casbá. Tentou afastar os garagistas: «Isto é um circo?» «Porque é que não está a trabalhar?» e, imortalmente, «Isto não é uma garagem!». E, diante tal fúria, eles bem que teriam preferido correr dali para longe. Mas logo a advogada, também ela com uma paciência de santa para com a minha alevantada e furiosa família, explicou que os garagistas tinham de ficar.
Entrando na sala, perguntou logo ao avaliador, que estava sentado a avaliar furiosamente a alta fidelidade (registando-a, com grande lata, diante de um Nakamichi topo de gama, como «midi stereo tipo Sony») se era costume ele ficar sentado quando entrava uma senhora. Levantou-se imediatamente o pobre moço.
A minha mãe pediu-lhe logo explicações: « O que é que está a escrever? Quem é que lhe deu licença para estar a mexer nas coisas do meu filho?». O avaliador, amedrontado (uma reacção comum), lá começou a explicar, o melhor que podia. «Não, não!», interrompeu a Mrs. Esteves Cardoso, «Em inglês, se não se importa!».
E não é que o pobre homem, um modelo de boa educação e de terror infindo, desatou mesmo a relatar-lhe as complexidades das leis da penhora em inglês? É. E que a minha mãe, insatisfeita com a proficiência do pobre homem na língua de Byron, se põe a corrigir cada erro, como se fosse ela, e não ele, a dar a explicação?
Foi bonito de se ver, sim senhor, e não pouco me consolou, não senhora.
Tendo registado tudo o que de mais atraente havia em nossa casa, sempre atribuindo valores insultuosamente baixos (deve ser «consumer paradise» escolher o que se quer e poder fixar o preço que apetece pagar), preparavam-se já para começar a carregar a camioneta.
A memória recente da minha figura orates, gritando «Levem tudo! Tomem mais isto! Há cerveja estrangeira no frigorífico! Querem que eu dispa já estas calças de ganga?», ainda pairava no ar. A minha mãe, habituada a estes números, pediu-me para ir fazer um gin-tónico e vir aqui para o meu escritório ler um livro ou qualquer coisa. Eu, intransigente, fui. E ela lá aceitou pagar a dívida fictícia, por julgar que saía muito mais barato do que estar a comprar tudo outra vez.
Quando finalmente emergi do escritório, duas horas e três gin-tónicos mais tarde, já se tinham ido todos embora. Tinha permanecido tudo – até os sacanas dos gatos, esticados em coma, exaustos depois de tanta agitação e incerteza perante o futuro.
Não me venham por isso dizer que não é desgraça ser pobre; não me façam uma coisa dessas; porque é. Não tem graça nenhuma sabermos que as nossas coisinhas afinal não nos pertencem e que, se ainda aqui estão, é em exposição, devidamente mantidas, à espera dos próximos garagistas que por aqui aparecerem à procura de umas pechinchas e de uma visita guiada à casa de um pobre escritor desgraçado.


Miguel Esteves Cardoso

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