23/10/2010

O Estrela e a mulher... (Rua)



Como de costume, às oito, o sol começou a entrar pelo quarto dentro. Mas já não pôde, à semelhança das mais vezes, descer do peitoril da janela, inundar o soalho, subir à cama, devorar pouco a pouco a colcha branca, incendiar um naco do cobertor vermelho, e acabar por bater-lhes em cheio nas meninas dos olhos. Hoje um e logo a seguir o outro, tinham partido. Discretamente, disseram adeus àquelas quatro paredes, voltaram costas à realidade, e fecharam-se num recolhimento tão íntimo e tão persistente, que só mesmo no fundo duma sepultura. Deram-lha, então. Justamente os oito dias que durou essa mudança foram toldados. Perdido por terras distantes, nessa semana triste, o astro-rei esqueceu-se dos seus dois velhos amigos. Vinha agora bater-lhes novamente à porta. Infelizmente já não moravam ali.
- E novos ainda!... – ponderou, filosoficamente, a Berta.
- Ela sessenta e cinco, e ele sessenta e oito – precisou o Mamede, aferidor da Câmara.
- Exactamente… - confirmou o dono da casa.
Era na loja do Guerra, sapateiro. O Mamede viera saber dumas meias solas nas botas de caça; a Berta já lá estava a ver se os sapatos do homem podiam ser gaspeados; de maneira que sem darem conta encontraram-se a falar do acontecimento da semana – a morte do Estrela e da mulher.
A princípio, o que diziam avolumava apenas a sombra dos ausentes.
- Coitados!... Sem filhos, de mais a mais…
Mas pouco a pouco os mortos foram ressuscitados em cada palavra pronunciada. O poder mágico do verbo ia-os avivando nas lembranças apagadas, e todos eles, que nunca tinham pensado sequer que conheciam o Estrela e a mulher, se puseram a seguir-lhes, fascinados, os passos no mundo. Milagrosamente, viam-nos reais e palpáveis, a retomar a vida habitual, ali, no Largo da Graça.
Começou o Estrela por abrir a porta da barbearia. Era barbeiro, o Estrela. Acabavam justamente de bater as onze. Nunca saía do quarto antes. E o Amadeu, o alfaiate, que com a rosa dos alfinetes ao peito, a fita métrica ao pescoço, e uma letra vencida no bolso mourejava desde manhã cedo, não podia engolir serenamente semelhante ultraje. (…)
(…) O Estrela, esse, vestia a bata e chegava-se à porta.
- Então Deus nos dê muito bons dias!
Cumprimentava ao mesmo tempo o mundo e o seu grande amigalhaço, o Gil, latoeiro e vizinho.
- Vamos a ele, ou quê?
- Tem de ser…
Era o mata-bicho sacramental. Bastava-lhes dobrar a esquina. O Moreira parece que mandava fabricar aquela aguardente no céu. Um sinal, apenas, e os cálices apareciam cheios e perfumados sobre o balcão.
- À nossa!
- Cá vai…
Pagavam, saíam, e o taberneiro, com açúcar na urina, arrasado de bronquite, e guardado como um carneiro pela mulher, desabafava sozinho:
- Que estômagos! Que saúde! Que naturezas! Porcaria de mundo! (…)
(…)- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Barba?
- Barba e cabelo.
O violão, encostado à parede, pôs-se a mirar um canto do espelho.
- Pelos vistos, o senhor Estrela ainda lhe puxa pelo bordão!...
- Pouco. Só para matar saudades…Bons tempos! Tudo passa…
E o ano de 1896, o ano áureo do Estrela, começou a nascer na tarde morna.
- Custou-me a brincadeira oito dias à sombra. O malandro do sacristão! Era compadre dum polícia…Mas valeu a pena. O largo do Romal pareça o Terreiro do Paço. Talvez até mais bonito…
Quê?! O senhor Estrela conhecia o Terreiro do Paço?! A sério?! O Lucas, que nunca saíra da terra, parecia que estava diante dum milagre.
O Estrela teve um riso aberto de iluminado.
- Olha, olha, o Terreiro do Paço! Hã, ó Aninhas?
A D. Aninhas engrunhou-se um pouco, olhou um nadinha de lado, e começou a rir-se lá por dentro.
O Terreiro do Paço, a Mouraria, Cacilhas…Fechei o quiosque, e de comboio por aí a baixo foi o fim do mundo!
No rosto de ambos nem tudo agora eram sessenta e tantos de idade. Havia também a marca duma carícia funda da vida.
Mas a quê? A que tinham ido os dois a Lisboa?
Olharam-se ternamente, numa maliciosa cumplicidade.
- Hom’essa! (…)
(…)- Passear?!!!
- Pois!
Caladas, as moscas dançavam na sala cheia de quietude, espanto e silêncio. (…)
(…)- Passear!... – murmurou o Lucas, a remoer um pensamento fundo, de oficial de diligências.
- Olarilas! Por sinal que nos perdemos…Lembras-te, Aninhas?
- Se lembro!...
- Foi na rua… na rua… Ora deixa-me pensar… Rua do…
Mas a cabeça de ambos, nos últimos tempos, atraiçoava-os miseravelmente. Que, de resto, não era admiração nenhuma…já lá ia um par de anos…Mil novecentos e seis… Ou não? (…)
(…) Quantos dias nos demorámos ainda lá?
- Três…E se tínhamos ficado mais um, víamos o rei…
- É verdade!
- Qual?
Olharam-se ambos, numa ajuda mútua.
- Devia ser o D. Carlos… Ora em mil novecentos…
O ruído dos rodízios do relógio quebrou a data ao meio. As cinco horas vieram logo a seguir. (…)
(…) Bom homem, este Lucas! – disse por fim o Estrela, sem grande convicção.
- É…É… - repetiu, como um eco, a mulher.
A tarde caía docemente. O Estrela pegou no violão, sentou-se, e tirou dele um acorde que encheu a praça. Depois carregou a fundo na inspiração.

Se estou melhor das maleitas,
Se estou melhor das maleitas…

- Este bordão novo não presta. Ou então é do cavalete…
- Experimenta outro…
A voz dela, mansa, submissa, parecia ainda sair da loja fechada e triste.
Da sapataria via-se o largo inteiro; e, sem querer, olharam todos na direcção do 43.
- Uma verdadeira santa! – disse melancolicamente o Mamede. – Uma mulher assim faz a felicidade dum homem…
- Lá isso… - confessou, de consciência carregada, a Berta, que punha a alma negra ao marido. – Era o que o seu Manuel dissesse. Ninguém lhe conheceu outro querer. E a prova é que, apenas ele fechou os olhos, fechou os dela também. Não tinham mais que ver neste mundo.

Miguel Torga

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