24/10/2010

Outra voz...




Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,
na arca das lãs que só voltaria abrir no inverno.

Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto ― a outra voz.

Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais que o silêncio ― essa outra voz.


Maria do Rosário Pedreira

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