28/10/2010

Qual sol, qual carapuça... (A minha andorinha)




Quando Deus deixou de procrastinar, arranjou coragem e foi fazer Portugal. Mas, mal tinha começado a fazer as compras essenciais, estoirou o orçamento todo no clima. Daí ter ficado tão pouca massa para as outras coisas de que o país precisava urgentemente. É, tornou tudo na secção Casa e Jardim. À parte os sucedâneos do clima (a paisagem, a comidinha, a namoriquice),ficámos bastante mal servidos, e isto dá-nos cobertura para os mais extensos queixumes, que agradecemos amargamente enquanto lhes ululamos. Não há no mundo outra terra em que as caras melancólicas dos habitantes sejam tão maus espelhos da luz e do calor que têm.
Alguma razão há-de ter tido o Criador. É que o clima está lá em cima, fora do nosso alcance. Podemos estragar e vender tudo o que está cá em baixo – e estragamos e vendemos, ai nanas! - , mas ao ceuzinho e ao solinho não chegamos. E assim, no meio do negrume circundante, assistimos, a 12, 13, e 14 de Março, a três dias de perfeita Primavera. É, aliás, um fenómeno conhecido dos meteorologistas: em Portugal, as estações do ano apresentam sempre um trailer antes de estrearem. E algumas reposições também.
No terceiro desses dias, eram duas muito bonitas da tarde e deslizávamos junto ao mar em direcção ao Estoril, o meu motorista de táxi e eu. Estragando o bendito silêncio da contemplação, caí na asneira de dizer que estava um dia de Primavera. «É? É?», respondeu o condutor. «Está bem, está… Vamos ver quanto tempo é que dura esta maravilha…» E, não fosse eu interpretar mal a atitude do homem, carregou no escárnio – repugnância, até – quando pronunciou «esta maravilha».
No dia seguinte, o clima lá voltou à programação habitual, e aposto que o marmanjo tem andado a ver se caça uma chamada minha, doido para me esfregar na cara um longo «Está a ver?! Está a ver? Eu não dizia? É que o pessoal que não anda nesta vida vê um dia mais ou menos bonito e, pronto, julga logo que a coisa está resolvida. Mas não está, meu amigo, não está…Longe disso. Longe disso, meu amigo…! Era bom, era…» É espantoso o pouco que consola esta repentina amizade que nos é oferecida por quem nos esclarece.
Esta atitude, tão portuguesa que até chateia mais do que é costume, tem tanto de estúpida como de grandiosa. É estúpida porque nos impede de gozar o que Deus nos deu. O sol de três dias de nada vale se depois vai chover outra vez. Para quê? Para um gajo habituar-se ao calorzinho e amargá-las mais ainda quando voltar à realidade? Para os portugueses, a realidade é um exclusivo da miséria, e tudo o que não seja completamente miserável é mera ilusão.
Não vale a pena dizer que a beleza daqueles três dias não é negada pela fealdade dos seguintes. Quer dizer, eu disse, mas arrependi-me, porque o motorista retorquiu com a bomba atómica do Ó…! Como quem diz, «cantas muito bem mas não me alegras». E ser acusado de querer alegrar um compatriota só não é punível com pena de morte porque ninguém é desentristecível.
Mas, por trás da imbecilidade automutiladora do «vamos ver quanto dura…», há uma ambição gloriosa. É que, para estes portugueses retintos, só o que é eterno pode ter valor. Entretanto, vão-se bebendo uns canecos, como também Platão bebia. Este ódio ao temporário é nada menos que um ódio à própria vida. A vida, como aqueles três dias de sol, também acaba passado um bocadinho. Entre as pregas do pescoço encarniçado daquele motorista havia ânsias recalcadas de imortalidade.
Outros povos (o brasileiro, por excelência) conseguem de vez em quando, viver cada momento como se fosse o único. O português também. Só que, por morbidez e teimosia, logo haveria de ser o da morte. O clima em si nada pode contra nós. Deus não pensou quando nos comprou o melhor que havia. Com os poucos tostões que Lhe restavam, regateou-nos uma mentalidade em que está sempre a chover ou um frio de rachar ou um calor que não se pode. Pouco admira que, quando nos disse «Enjoy!» em hebraico, a gente tenha percebido «Enjoem!».

Miguel Esteves Cardoso

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