09/10/2010

...São assim as mais pequenas histórias



[…} São assim as mais pequenas histórias do mundo. Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite – e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, nem das aves negras nos meus braços de mármore, nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo – das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre o que valeu a pena ( o mais eram os gestos que não cabiam nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse eu deixar de escrever esta manhã, o dia treme na linha dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, mas ouço-te a respirar no meu poema. Nunca te esqueci – é este um amor maior que atravessa a vida e resiste à cicatriz do tempo. O que ontem me disseste agora o ouço, como se nada tivesse interrompido a magia do instante em que as nossas bocas se aguardavam na distância de um beijo e o olhar tocava o corpo antes da mão. Se hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja lombada acariciei todos os dias que durou a tua ausência como uma nesga de sol acaricia um rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os lençóis da cama imaculados – e ainda o cão deitado à porta, à tua espera, como na véspera de partires. Porque os anos não contam para quem assim ama.


Maria do Rosário Pedreira

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