21/11/2010

Maria Irene (crónicas)




Não pensava em si. Há séculos que não pensava em si. No fundo da minha alma estava livre de si. As coisas corriam mais ou menos
       (dá azar dizer que correm bem)
       a gente nunca sabe porque o mal é traiçoeiro mas acho que tenho tido saúde, não encontro razões de queixa do trabalho
       não é o que se espera mas vamos andando
       em casa as pessoas interessadas em mim, carinhosas, graças a Deus nas férias há dinheiro suficiente para sair de Lisboa
       (alugamos um apartamentozito no Algarve e este ano pode ser que vamos a Espanha, estava um prospecto na caixa do correio e não é caro)
       substituímos o mosaico do chão, a minha prima teve um bebé em março. De tempos a tempos passa-me uma coisa pela cabeça e escrevo um poema. Ali, na gaveta, ficou um caderno inteiro quase cheio de versos. Há quem ache que devia publicá-los mas não sei, na minha opinião são demasiado íntimos, faço-os para mim. Você não entra em nenhum deles, descanse. Não por pudor: por não pensar em si.
       À parte isso tenho mais cinco anos e afiançam-me que não mudei: o cabelo continua castanho, não dou por rugas no espelho. Talvez me canse um bocadinho a subir as escadas ao fim do dia, a seguir ao emprego, de vez em quando acordo a meio da noite: não com um sonho ou uma dor ou isso, acordo sem razão. Demoro a compreender onde estou e mal compreendo adormeço de novo. A minha prima aconselha-me a não me ralar, de modo que não me ralo assim muito. Agora, existe um vaso de zínias junto à varanda. Como eu costumo dizer é uma companhia, e desde que o gato desapareceu sabe-se lá onde havia ignoro o quê que faltava. Desde que as zínias chegaram não falta quase nada. E, pelo menos, as flores não metem as unhas no sofá nem estragam os tapetes. De quarta-feira a quarta-feira o regador e pronto.É pena que não me saltem para o colo.
       Por consequência
       (em imensas ocasiões o meu pai começava uma frase dessa maneira, sobretudo quando ia falar de política. Alargava na poltrona, subia os óculos para a testa, murmurava na direcção do tecto
       - Por consequência
e jurava que, com o governo que temos, num abrir e fechar de olhos
       expressão sua
       ficamos todos de tanga
       idem)
       por consequência não me assiste o direito
       (outra expressão dele:
       - Não te assiste o direito de me aborreceres)
       de lamentar-me seja do que for. E não me lamento. Aconteceram episódios tristes, claro, embora não me afectassem por aí além: o aneurisma da dona Ângela rebentou, a minha tia gastou uns dias aflita com uma inflamação na perna. Apesar das injecções no Posto demorou a curar. Coxeia um bocadinho, porém animada: o médico jura que para a semana, se lhe apetecer, até pode entrar na meia maratona. A minha prima gosta dele por ser o médico mais bem disposto que conhece. Esse é que meias maratonas nem sonhar: traz uma bengala derivado a uma queda em pequeno que lhe entortou o joelho. Na sala de espera percebe-se que é ele pela bota ortopédica a bater com força no chão. No outro pé usa um sapato normalíssimo, de forma que se olharmos só para baixo julga-se que o doutor é dois.
       Há outros episódios que podia mencionar porém, no essencial, devo ter contado mais ou menos tudo. Principalmente, que não pensava em si, que há muito tempo não pensava em si, que no fundo da minha alma estava livre de si. Julgava eu. Ontem, por acaso, passei na rua Dr. Taborda Viana derivado a um problema de facturas da empresa e vi-a entrar para um automóvel com uma criança ao colo. Está mais magra, levava um casaco castanho que não conheço, mudou de penteado e, no entanto, notei-a logo. A gente cuida que enterrou os sentimentos e enterra uma ova. Não a imaginava com um filho. Não a imaginava com aquela permanente. Você não deu por mim, colocou a criança nesses bancos para crianças que se encaixam nos bancos de trás dos carros e foi-se embora. Fiquei ali parado até que o meu colega disse
       - É para hoje?
       Veio-me a tentação de lhe falar de si e calei-me a tempo. Para quê? Já foi há cinco anos, não é? Despedimo-nos a bem na pastelaria, a seguir a você guardar o lenço e jurar-me que não ia chorar. Isto com dois riscos a descerem-lhe das bochechas, exactamente iguais aos que o meu colega, distraído como sempre, não viu, conforme não me viu limpar a cara à manga. Felizmente saímos da rua Dr. Taborda Viana com o problema das facturas resolvido.

António Lobo Antunes

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