09/11/2010

Se a morte vier e for de noite...



Se a morte vier e for de noite, e tu estiveres
deitado a ler e a vires chegar, se o seu rosto
for branco e as suas mãos geladas, e ela
as estender para ti e te chamar pelo nome;

se o quarto subitamente arrefecer e os teus
olhos se encherem de neblina, e o ar cada
vez mais raro nos pulmões te deixar o coração
como uma ferida; e então uma voz estranha

te implorar que recordes a tua vida do avesso e
alcances de novo o paraíso materno, que é o
único naufrágio de que ninguém quer ser salvo,

acorda-me, porque quero ir no teu lugar. A luz
do mundo nunca esqueceu as tuas mãos, nem
os teus olhos experimentaram jamais a paisagem
de um quarto vazio pela manhã. Porém, se me

faltares, sei que não voltarei a amar ninguém e
a vida que negar acabará por derrotar-me. Por
isso, deixa que a morte consinta que, por uma vez,

seja meu o teu nome e me arraste nos seus braços de
cera para longe dessa cama – onde já não existe mais
nenhum romance senão o livro com que te deitas sempre.

Maria do Rosário Pedreira

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