11/11/2010

Subir o Chiado...(Chiado meu Amor)



«Quando vou ao Teatro é para ver e ser vista!»

(Velha amiga da minha Avó)



Dobrou a esquina do Rossio para a rua do Carmo, e começou a subir o Chiado…
Subir o Chiado não é só ir da Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n’A Brasileira.
Subir o Chiado, para disfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga (…)
(…) Se for no inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes Ilhéus…), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir umas luvas.
Podem até ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada (…)
(…) Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Alliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava a Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante. (…)
(…) Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável (…)
(…) Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garret (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos um “t” (…)
(…) Depois de, no Piccadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand – o que havia de histórias para contar dessa esquina…
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre na Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires – não quer dizer nesta Igraja – que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147 (…)
(…) Não estará agora na hora de tomar um café n’A Brasileira? Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco – cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo – é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n’A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraiais…
Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n’O Calcanhar de Aquiles, publicou uma magnífica caricatura representando, nessa esquina, Herculano com as suas vazilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa ainda está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo (…)
(…) local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.(…)
(…)Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu.(…)
(…) Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde disfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; Vale a pena e são só cinquenta metros. (…)
(…) Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto…
E volte sempre…há muito, muito mais para ver…

Duarte Cannavial

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