28/12/2010

Mensagem ao Relógio da Sé (Aragens da Madeira)




       Respeitado Amigo,

       Escrevo-te duma vila piscatória onde, nestas férias, fundeei por uns dias. Por ter ouvido o “cantar dos galos”, o que nas cidades não se escuta, lembrei-me de ti. Outrora, nesta baía que, dizem, foi “a primeira conhecida”, ouvia com agrado o raro chamamento dos “búzios” que ecoava no vale.
       Agora, não se ouvem búzios; os sons e os ruídos são outros.
       Mas, voltando ao assunto: acaso sabes que os “galos” destas
redondezas não acertaram o passo pela Europa, tal como tu, nos últimos anos? Continuam orgulhosamente sós, cantando às horas que entenderem!
       Dizem os antigos que os galos cantam à uma, cinco e sete horas. A basearmo-nos nisso, seria, quanto a mim, apenas por espírito de rebeldia que, tal como aconteceu hoje, os galos cantaram às quatro horas da madrugada.
       Lembrei-me ao amanhecer que os relógios neste Outono, foram atrasados uma hora. Isso é assunto que interessa, entre outros, aos alunos que não precisarão ir de noite para a escola. Para os galos, suponho, trata-se de uma questão à qual permanecem alheios.
       Tu que já passaste muitos invernos, tens alguma ideia para retardar o cantar dos galos neste Outono?
       Nisto de atrasos, quem nunca pecou que dê a primeira badalada. E, a propósito, já retomaste o “pio”?
       A última vez que te vi ou tentei ver-te, além do mutismo a que me habituaste, estavas pouco visível. Voltaram a iluminar-te?
       Retomando o despertar dos galos, longe de mim a ideia de calá-los. Sugeria, apenas, que atrasassem as cantorias.
       Isto até porque acho imensa graça no emblema dum clube de “galitos” de Aveiro, prestigiado pela actividade náutica no País e respeitado no estrangeiro, que tem como distintivo a figura dum galito, com a pata sobre uma rolha, encimando a legenda: “Não há mordaça para a consciência humana”.
       Sabes, relógio da Sé, não sugiras o que quer que seja a nível oficial, porque os galos a que me refiro, não estão acomodados em “aviários”, mas sim dispersos em capoeiras, vários dos quais até “vêm a terreiro” pela mais simples “galinhice”.
       Aliás, nesta zona, não são apenas as cantorias dos galos que ouvimos pela madrugada: Um fontenário do litoral, que retomou o “pio”, aliás o “fio”, originou esta noite uma festa entre os habitantes da localidade que há dias não ouviam o cantarolar da água a correr nas torneiras. Porém, isso é assunto que, pelo menos, oficialmente, já está resolvido.
       Beija o sol por mim e até breve.
       O teu amigo,
       Victor Caires
       (“Diário de Notícias” 30/9/83)

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