30/03/2010

Prece



Senhor, deito-me na cama
Coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.

Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro de um inimigo.....
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.

Miguel Torga

29/03/2010

Lisboa perto e longe




Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa -- branca e rota
a blusa de seu povo -- essa gaivota.
Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as águas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.
Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa estão voltadas
contra as mãos desarmadas -- povo armado
de vento revoltado violas astros-- meu povo
que ninguém verá de rastos.
Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das prisões tem velas rios
dentro das mãos navios prisioneiros
ai olhos marinheiros -- mar aberto
-- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto.
Lisboa é uma palavra dolorosa
Lisboa são seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.
Lisboa tem um cravo em cada mão
tem camisas que Abril desabotoa
mas em Maio Lisboa é uma canção
onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguém verá de joelhos.
Lisboa a desditosa a violada
a exilada dentro de Lisboa.
E há um braço que voa há uma espada.
E há uma madrugada azul e triste
Lisboa que não morre e que resiste.
Manuel Alegre

28/03/2010

Praia do Paraíso


Era a primeira vez que nus os nossos corpos
apesar da penumbra à vontade se olhavam
Surpresos de saber que tinham tantos olhos
que podiam ser luz de tantos candelabros
Era a primeira vez cerrados os estores
só rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal, e cheiravas a limos
que tivessem ouvido o canto das cigarras
Havia mais que céu no céu do teu sorriso
madrugava de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo
É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

David Mourão-Ferreira

Milagre


O meu futuro fora aquele instante!
(Leve, subtil, a flor buliu na haste...)
O meu futuro fora aquele instante.
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Com musgo, o pinheiral esteve à espera...
E a flor (tão perto e azul) buliu na haste!
O Inverno do arrabalde? - Primavera!
Com musgo, o pinheiral esteve à espera...
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Então, o olhar da noite fez-se baço;
E a flor, fria talvez, buliu na haste...
- Desertos, lagos, pântanos, cansaço...
O olhar da noite vítrea fez-se baço!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Vergonha?
Estrume sob a flor da minha haste...
Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Vergonha?
Poesia indomável e medonha!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Sangrou demais o meu pecado. Basta!
Buliu demais a flor, dobrando a haste...
Sangrou demais o meu pecado. Basta!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

O vento varreu toda a noite, ardida
E, com o vento, a flor buliu na haste...
Veio chuva depois. Destino, vida...
E o vento varreu toda a noite ardida!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Os homens não me viram e passaram.
E a flor, distante já, buliu na haste...
Os homens não me viram e passaram...
Ó mãos cegas que, um dia, me salvaram!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!
Pedro Homem de Mello

27/03/2010

PONTO DE ORVALHO (António Gedeão)


Nem se chega a saber como
um inusitado sorriso,
um volver de olhos doentes,
um caminhar indeciso
e cego por entre as gentes,
chamam a si, aglutinam,
essa dor que anda suspensa
( e é dor de toda a maneira)
como o vapor se condensa
sobre núcleos de poeira.
É essa angústia latente
boiando no ar parado
como um trovão iminente,
que em muda voz se pressente
num simples olhar trocado.
Essa angústia universal,
esse humano desespero,
revela-se num sinal,
numa ferida natural
que rói com lento exagero.
Não deita sangue nem pus,
não se mede nem se pesa,
não diz, não chora, não reza,
não se explica nem traduz.
A gente chega, respira,
olha, sorri, cumprimenta,
fala do frio que apoquenta
ou do suor que transpira,
e pronto, sem saber como,
inútil, seco, vazio,
cai na penumbra do rio,
emerge, bóia, soçobra,
fácil e desinteressado
como um papel que se dobra
por onde já foi dobrado.

Beijo...


Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo: Vá!
Um beijo é culpa, que se desculpa: Dá?
A borboleta beija a violeta: Vá!
Um beijo é graça, que a mais não passa: Dá? Teme que a tente? É inocente... Vá!
Guardo segredo, não tenha medo... Vê?
Dê-me um beijinho, dê de mansinho, dê!
Como ele é doce! Como ele trouxe, Flor, Paz a meu seio!
Saciar-me veio, Amor! Saciar-me? louco...
Um é tão pouco, Flor!
Deixa, concede que eu mate a sede, Amor!
Talvez te leve o vento em breve, Flor!
A vida foge, a vida é hoje, Amor!
Guardo segredo, não tenhas medo, pois!
Um mais na face, e a mais não passe! Dois...
Oh! dois? piedade! coisas tão boas... Vês?
Quantas pessoas tem a Trindade? Três!
Três é a conta certinho, e justa... Vês?
E que te custa? Não sejas tonta! Três!
Três, sim: não cuides que te desgraças: Vês?
Três são as Graças, três as Virtudes; Três.
As folhas santas que o lírio fecham, Vês?
E não o deixam manchar, são... quantas? Três!
João de Deus

Lisboa revisitada (1923)



Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Fernando Pessoa

24/03/2010

A noite suavemente descia

A noite
Suavemente descia;
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.

E via
Goivos e cravos aos molhos;
Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo, cinzento,
Rendas, veludos puídos,
Perfumes caros entornados,
Rumor de vento em surdina,
Incenso, rezas, brocados;
Penumbra, sinos dobrando;
Velas ardendo;
Guitarras, soluços, pragas,
E eu…devagar morrendo.

O teu rosto moreninho,
Eu achei-o mais formoso,
Mas, sem lágrimas, enxuto;
E o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Estava todo coberto de luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente.
-Era dia!

E os nossos corpos unidos,
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram…e assim ficaram!...


António Botto

"Credo" de Natália Correia



Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantas,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro.Amen.

Natália Correia

22/03/2010

Alem da Morte...



Fecho os olhos num sonho que me leva

Às paragens divinas da Saudade,

Lá onde a noite é apenas claridade

Dando origem talvez a nova treva.

Fecho os olhos e avisto a Eternidade,

Lá onde um sol fantástico se eleva

Num perpétuo fulgor, sem que descreva

Sua órbita de luz na imensidade.

Fecho os olhos e vejo a minha imagem

Anoitecendo os longes da paisagem,

Como a unica sombra que persiste...

Sou eu! Sou eu aquele vulto errando!

Sou eu, além da morte ainda sonhando

Na tua Graça e neste Amor tão triste!...


Anrique Paço D'Arcos


Os Silêncios


Não entendo os silêncios

que tu fazes

Nem aquilo que espreitas

só comigo.


Se escondes a imagem

e a palavra

e adivinhas aquilo

que não digo.


Se te calas

eu oiço e eu invento.

Se tu foges

eu sei não te persigo.


Estendo-te as mãos

dou-te a minha alma

e continuo a querer

ficar contigo.


Maria Tereza Horta




" Subir o Chiado" (3ª parte), Duarte Cannavial







Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo. Sobe o resto da Rua Serpa Pinto e, ao chegar ao Largo Raphael Bordallo Pinheiro, vai estranhar que um prédio de boa qualidade - fazendo esquina com a Travessa da Trindade (por detrás do Hotel Borges) - esteja desocupado. Mantém ainda um letreiro - bastante fanado - com os dizeres Barbosa & Costa. Em 1871 era o Casino Lisbonense - o das Conferências do Casino, que tanta tinta fizeram correr. NO seu interior ainda se podem ver decorações e pinturas que atestam da ambiência requintada que ali se vivia e que tão abalada foi com as Conferências Democráticas.
Mesmo em frente, na outra esquina, em prédio discreto mas de qualidade, sedia o Círculo de Eça de Queiroz. Ideia dinamizada por António Ferro, aí por 1940, congrega 202 sócios, nem mais, nem menos. O número foi escolhido a pensar no nº. de polícia da casa do Príncipe da Grã Ventura nos Campos Elísios, em Paris.
No Largo há que dar uma olhadela à fachada de azulejos do prédio do topo, e ainda às placas toponímicas que recordam os desenhos e as cerâmicas de Bordallo.
Mas o seu destino é o Largo do Caro; local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.
É que foi ele que fez toda essa zona de Lisboa, à sombra da Igreja e do Convento que mandou edificar em 1389 - passam já 600 anos.
Ali foi Nun'Álvares sepultado, e também sua Mãe, a virtuosa Senhora Dona Iria Gonçalves, como se pode ler na lápid da sepultura, hoje guardada na Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, no 1º. andar do prédio que ocupa todo o lado Norte do Largo.
A Igreja do Convento, que Dona Maria I mandou reconstruir - o que ficou só pela intenção - é hoje Museu de Arqueologia, onde, de quando em vez, pode ouvir boa música pelo que resta da Orquestra Sinfónica da RDP.
Ao lado era o Convento onde se acolhia Frei Nuno de Santa Maria. Hoje é o Comando Geral da Guarda Nacional Republicana. Bastante danificado, também, pelo terramoto de 1755, mantém ainda uma bela sala ogival onde o grande Franz Liszt, quando por aqui passou, deliciou lisboetas com a sua virtuosidade pianística. Parece que, então, era aquela a sala com melhor acústica na Capital.
Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu. Depois, para iluminá-lo, passaram-lhe uns fios de electricidade presos no topo. Há poucos meses limparam-no e - Deus seja louvado! - instalaram-lhe torneiras de latão. Só que os tais fios eléctricos permanecem, e agora mais visíveis, pelo contraste com o mármore limpo ...
Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde desfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; vale a pena e são só cinquenta metros.
Ao fazê-lo verá como Siza Vieira tem razão. Mesmo à frente à porta Sul das ruínas da Igreja do Carmo que magnífico caminho se deve fazer para chegar à Rua Garrett!
Mas, antes disso, repare no prédio onde está instalada a Escola Veiga Beirão. Antiga casa apalaçada, foi ali - naqueles terrenos, claro que não naquele prédio - mas foi ali que, em 1920, ficara instalados, por decisão De Dom Dinis, os primeiros Estudos Gerais, que vieram, depois, a originar a Universidade de Coimbra.
Mesmo ao lado fica a Rua do Almirante Pessanha; recorda aquele Manuel Pessagno que o plantador de Naus a haver escolheu para Almirante-Mor do Reino.
É na esquina dessa rua com a Calçada do Sacramento que se situa a igreja da minha Paróquia - a Igreja do Santíssimo Sacramento. Merece uma visita, que mais não seja para ver pintura de Pedro Alexandrino.
Sobe agora para o quase inexistente Largo da Trindade. Tem ali o Teatro que, felizmente, ainda está vivo e logo abaixo, o Gymnásio que estão a refazer. O Giymnásio que, ao seu tempo, com dinheiros do Alves dos Reis, dois dos melhores teatros d Lisboa ... Sic transit gloria Mundi.
Vai chegando, de novo ao Largo do Chiado. Lá está ele, o Poeta Galhofeiro a ditar uma das suas piadas ao passante; quase defronte, à porta d'A Brasileira, Pessoa convida-o a sentar-se ao seu lado. Dali, falando com ele, pode vislumbrar, ao longe, não muito longe, - Camões.
Há que fazer-lhe uma visita! São dois passos. Atravessa o antigo largo das Duas Igrejas (hoje continuação do Chiado) e à sua direita tem a Igreja de Nossa Senhora do Loreto (Igreja dos Italianos, porque construída pela sua Comunidade) e, se lhe pesa algo na consciência, há ali sempre um Sacerdote para proporcionar-lhe o Sacramento da Reconciliação.
Depois de venerar Camões e os seus ilustres acompanhantes, desça um pouco da Rua do Alecrim. Perto, no Largo Barão de Quintela, cumprimente o Homem que mais falou, que mais fez viver o Chiado - Eça de Queiroz.
Volta de novo para o Chiado; a sua cara-metade já está à espera. Ao chegar ao início do Largo te, frente à Igreja Nossa Senhora da Encarnação, igreja-mãe do Bairro Alto - um outro Mundo, como o Chiado.
Foi mesmo à hora! Sua Mulher despedia-se da amiga e são horas do jantar. Decide-se pelo Tavares. Aí fermentou e nasceu a ideia desse famoso grupo que foi o dos Vencidos da Vida. Vencidos que, afinal, nunca deixaram de lutar.
Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto ...
E volte sempre ... há muito, muito mais para ver ...

DUARTE CANNAVIAL (do livro "Chiado meu Amor "1989)

20/03/2010

Bilhete para o Amigo Ausente


Lembrar teus carinhos induz

a ter existido um pomar

intangíveis laranjas de luz

laranjas que apetece roubar.


Teu luar de ontem na cintura

é ainda o vestido que trago

seda imaterial seda pura

de criança afogada no lago.



Os motores que entre nós aceleram

os vazios comboios do sonho

das mulheres que estão à espera

são o único luto que ponho


Natália Correia

" Subir o Chiado " (2ª parte), Duarte Cannavial



O G.L. existe desde 1846. Foram seus fundadores, entre outros, Garrett, Rodrigo da Fonseca, Fontes, Herculano e Eça.
Como se preocupa com a segurança lembro-lhe um pormenor. Naquele fatídico dia 25 de Agosto de 1988, uma das grandes preocupações dos Bombeiros era evitar que o G.L. ardesse. Hoje, passado um ano, ainda o G.L. não tem detectores de incêndio ligados aos Bombeiros! Como pode isso quando, naquela casa, há tantas obras que se não podem perder? Noblesse oblige ... será que a sua acção chegará para colmatar esta lacuna? Queira Deus que sim!
Mas tenha cuidado! Nas suas idas e vindas para o G.L. a sua Mulher pode encantar-se, e não só ela! É que por ali, pela Rua Ivens, as montras exibem também cousas lindas - é a Vista Alegre, é a Atlantis, é a Casa Quintão!
Depois de um bom almoço no G.L., para ajudar à digestão passeie até ao agora Largo da Academia de Belas Artes (antigo Largo da Biblioteca Pública). Vale a pena o passeio - são cem metros - mas dali, através de um portão gradeado, vai ter uma vista soberba sobre a Baixa Pombalina, a Sé e a encosta do Castelo.
O que decerto o vai chatear é que, à volta do busto do Visconde de Valmor - benemérito protector das Artes - exista uma Academia com a parede exterior pintalgada e u edifício da Câmara Municipal de Lisboa, e onde funcionam serviços municipais, em pleno estado de degradação. Vai sentir vontade, necessidade, de fugir dali. Retroceda e retome a subida da Rua Garrett. Faça-o mantendo permanente conversação com a sua Mulher. Nessa parte da subida há a Ourivesaria Aliança e o Eloy de Jesus e as tentações são muitas. Vá falando da tristeza do Café Chiado não ser hoje mais do que o local de atendimento da Império, mas rejubile, ainda assim, porque a Gardénia ainda se mantém tal e qual como o Raul Lino a desenhou.
Depois de, no Picadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand - o que havia de histórias para contar dessa esquina ..
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre a Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires - não quer dizer que nesta igreja - que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147. Foi também nessa Paróquia que ocorreu o baptismo do venerável Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo Primaz e voz possante e disciplinadora no Concílio de Trento.
De tarde está em exposição o Santíssimo Sacramento. O Senhor, que tanta cousa boa lhe tem dado, merece que lhe faça uma visita.
Vê? Vem agora muito mais bem disposto. Disposto até a comprar bilhetes para a Ópera em São Carlos. Desce um pouco da Rua Serpa Pinto e, com sorte, arranjará bons lugares.
Ao sair da bilheteira, ainda sob o pórtico, espere um pouco, tenha um momento de reflexão. Mesmo em frente, no 4º andar, nasceu, a 13 de Junho de 1888, Fernando Pessoa. Pouco mais de um mês depois era, também ele, baptizado na Basílica dos Mártires. Filho daquela paróquia, explicava mais tarde a João Gaspar Simões que o sino da minha aldeia era o sino da Basílica dos Mártires, a dois passos da casa onde nascera, e que daí, sob o pórtico do São Carlos, pode ver ...
Pessoa era frequentador assíduo d'A Brasileira; não estará agora na hora de tomar um café?
Retomando a Rua Serpa Pinto vai encontrar, na esquina, o Paris em Lisboa, que, no início do século era fornecedor de S. M. a Rainha Dona Amélia. Em frente, mais uma tentação - a Livraria Sá da Costa! Basta só pensar naquela magnífica Colecção dos Clássicos ...
Agora que a sua cara-metade encontrou uma amiga que não via há muito tempo, e por isso decidiu ir tomar chá à Bernard, aproveite para tomar o café n'A Brasileira. Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco - cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo - é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n'A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraias ...Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n'O Calcanhar de Aquiles, Herculano com as suas vasilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: Aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo
ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Duarte Cannavial ( do livro "Chiado meu Amor" 1989)

19/03/2010

Distância...



Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim. Não vás para tão longe;
Quero ver se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.
Não vás para tão longe!
Tenho medo do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala! Não vás para tão longe!
Antigamente, era sempre demais o curto espaço que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois, com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
o meu abraço. Não vás para tão longe! Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar e tenho medo! Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...
Céu apagado, negro, pessimista, E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro

18/03/2010

" Subir o Chiado " (1ª parte ), Duarte Cannavial




"Quando vou ao Teatro é
para ver e ser vista!
(Velha amiga da minha Avó)


Dobrou a esquina do Rossio para a Rua do Carmo, e começou a subir o Chiado ...
Subir o Chiado não é só ir à Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n'A Brasileira.
Subir o Chiado , para desfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga, e como creio que todo o Chiado vai voltar a ser muito do que era, vamos subir o Chiado,
Se for no Inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes ilhéus ...), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir uas luvas.
Podem ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada. Ficar-lhe-ia melhor o nome de Liliput, embora Ulisses da História só fosse grande nas obras, porquem frente ai Ciclope, também ele, o Ulisses e seus companheiros, eram liliputianos.
Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Aliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante.
E desse lado - do lado da pedreira - estugue o passo; é que a sua Mulher pode encantar-se com as modas da Ana Salazar ...
Depois, depois o encanto da sua companhia feminina - subir o Chiado deve ser, ou pelo menos é melhor a dois - será pelas utilidades e futilidades domésticas (mas lindas, e por isso caras), que uma série de montras exibem.
è ocasião - se aí tem conta - de ir abastecer-se ao Montepio Geral, ali mesmo ao lado.
Logo acima tinha os Armazéns. Terá, agora, um Centro Comercial. Em frente tinha - e terá de certo - essa magnífica instituição que é o Martins & Costa. Aí não sei qual dos dois vai ser mais perdulário. Desde os frutos exóticos ao salmão e ao espadarte fumado, aos queijos e vinhos, que maravilhas ali há! Aí me abastecia sempre do genuíno Serra para levar à minha Mãe.
Mais uns passos e é a sua vez de ser gentil e, na Perfumaria da Moda, alargue os cordões à bolsa para oferecer à sua companheira o Chanel nº. 3.
Chegou ao topo da Rua do Carmo. Subiu devagar, como se deve subir o Chiado, mas está cansado. Não suba já a Rua Garrett.
Continue em frente. Aquele disco da Maria João Pires que tanto deseja, encontrá-lo-á, com certeza, no Valentim de Carvalho.
Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável, como o foi nas instalações provisõrias das Escadinhas de São Francisco.
Retemperado, e se recorda ainda leituras do Eça, talvez lhe apeteça descer até à Livraria Férin, onde o Mestre recebia o pagamento dos seus artigos para a Revista de Portugal.
Só que entretanto, a sua companheira não resistiu . . . e entrou na Casa Batalha. Podia lá deixar de ser! Mais aliviada ficou a sua bolsa, mas mais decorada ficou a sua cara-metade.
No retorno - porque para baixo não se desce, a Boa-Hora ali está e não é agradável pensar no que lá se passa! - no retorno, porque o Freire Gravador já não existe, tenta-se por entrar no A d'Abreu e, naquela pedra de lápis-lazúlli que trouxe do Brasil, manda gravar as armas da Família. Sim, porque embora vivamos em República, um brasão de armas bem gravado no anelar sempre dá um certo ar ...
Começa, então, a subir a Rua Garrett.
Se, até agora, se preocupou com o ar com que subiu, atente que, daqui por diante, mais terá de preocupar-se ... Isto se, como a amiga da minha Avó, quer ver e ser visto. Se, por outro lado, quer só ver, só desfrutar, aí terá muito mais gozo ... mas não sairá nas páginas da Olá.
Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garrett (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos, um t; o João Baptista dizia que escrevia o nome com dois tt para que, pelo menos, lhe pronunciassem um).
Já abastecida na Ana Salazar, talvez que a sua companheira não se entusiasme pelo Eduardo Martins; se bem que ali, muita cousa boa há para ela e mesmo para si ...
E se a cara-metade não se deixou levar pelos encantos do Eduardo Martins, procure que ela não vá na onda do José Alexandre. É difícil, sei-o bem! Até porque, a si mesmo pode ser impossível resistir; há ali tantas cousas boas .. e lindas!!!
Bem, mas como logo adiante já não existe o Novo Figurino mas sim o Banco Comercial Português, tem aí (se aí tem conta), ocasião para reabastecer novamente a carteira.
Subir o Chiado, sobretudo para quem, agora, tem, no anelar, um anel de brasão, noblesse oblige ...
Por isso, ao passar para o outro lado da rua, vai, à vontade, entrar no Jerónimo Martins. Há mais umas delicatesen para adquirir ...
A sua cara-metade quer mantê-lo desse lado. É que, em frente, a XCasa Pereira oferece demasiados chocolates que não são do melhor para manter a linha ...
Ora aí estamos na esquina das Ruas Garrett e Ivens. Com o seu brasão d'armas no dedo talvez tenha conseguido entrada para o Tauromáquico. Ali, no entanto, não entra quem quer. Ali só quem é tem a porta franqueada. Se conseguiu entrar, tanto melhor. Por detrás do tule das cortinas que maravilhas se vêem E como se come bem!
Se o seu anel de lápis-lazúlli ainda cheira a fresco, se as armas que ostenta não são das desenhadas no tecto do Palácio da Vila, em Sintra, já sei!, não conseguiu entrada.Não se afole! Com um pouco da boa vontade do BCP arranja logo capacidade para a jóia e o mais necessário que lhe proporciona a entrada no Grémio Literário. E esse é mais antigo até - como instituição - do que o Tauromáquico.

Duarte Cannavial (do livro "Chiado meu Amor"1989)

Ausencia


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Tu e Eu



Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia, Aspiram a formar um todo, — em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...
Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho e a selva
— O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva — Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!
Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
— Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,
Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...
António Feijó

09/03/2010

sobre gatos, cães e Mulheres










Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo – mesmo na bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.
Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores. Nos vintes, fica-se com a certeza. Nos trintas, aprende-se a disfarçar. Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se. Nos cinquentas, começa-se a dar graças e Deus que seja assim. Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez. Geralmente as três coisas.
Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha e maravilhosa mãe, cuja superioridade – que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando – tem vindo a revelar-se cada vez mais. As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo. Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade. Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixam treinar. Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos. Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo os vai levar à escravatura vil. Isto não é conversa de engate. Mas é a verdade. E é bonita.


Miguel Esteves Cardoso

06/03/2010

Fado Português




O Fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia e o céu o mar prolongava, na amurada dum veleiro, no peito dum marinheiro que, estando triste, cantava, que, estando triste, cantava. Ai, que lindeza tamanha, meu chão , meu monte, meu vale, de folhas, flores, frutas de oiro, vê se vês terras de Espanha, areias de Portugal, olhar ceguinho de choro. Na boca dum marinheirodo frágil barco veleiro, morrendo a canção magoada, diz o pungir dos desejos do lábio a queimar de beijos que beija o ar, e mais nada, que beija o ar, e mais nada. Mãe, adeus. Adeus, Maria. Guarda bem no teu sentido que aqui te faço uma jura: que ou te levo à sacristia, ou foi Deus que foi servido dar-me no mar sepultura. Ora eis que embora outro dia, quando o vento nem bulia e o céu o mar prolongava, à proa de outro veleiro velava outro marinheiro que, estando triste, cantava, que, estando triste, cantava.


José Régio

Anjo Inútil



Passou um Anjo de rastos

Na serra da minha vida

O sangue dele nos cardos

Ainda hoje tem vida


Rasgou as asas na febre

De me levar mais além

Por esse amor que me teve

Amei-o como a ninguém


Luís de Macedo

05/03/2010

Gato que brincas na rua...











Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa

Reconhecimento à Loucura





Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma de objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
Atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe,
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo perece perfeito,
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira para tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
A quem t’as vier buscar.

Almada Negreiros

Lírio Quebrado





Entreguei ao vento a morte
Para ver se me esquecia
Nem mais som nem movimento
Acalmaram o mau tempo
No deserto em que vivia.

Corri praças roubei flores
Em jardins cheios de gente
Cruzei as rosas com lírios
Numa teia de martírios
Quase leve e transparente.

A chorar a tua ausência
Adivinho a tempestade
Meu amor sem fantasia
Entristece dia a dia
Porque morre de saudade.

Aldina Duarte

04/03/2010

Saudades de mim



Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi…Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte –
Minha dispersão total –
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas…
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas…

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas p’ra se dar…
Ninguém m’as quis apertar…
Tristes mãos longas e lindas…

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?...Ai de mim!...

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outunal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outunal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço…
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço…

Mário de Sá-Carneiro

03/03/2010

Tabacaria


Não sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(E se soubessem quem é, o que saberiam?),Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,E não tivesse mais irmandade com as coisasSenão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da ruaA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitadaDe dentro da minha cabeça,E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.Estou hoje dividido entre a lealdade que devoÀ Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.A aprendizagem que me deram,Desci dela pela janela das traseiras da casa.Fui até ao campo com grandes propósitos.Mas lá encontrei só ervas e árvores,E quando havia gente era igual à outra.Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!Gênio? Neste momentoCem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,E a história não marcará, quem sabe?, nem um,Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.Não, não creio em mim.Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundoNão estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,E quem sabe se realizáveis,Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?O mundo é para quem nasce para o conquistarE não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,Ainda que não more nela;Serei sempre o que não nasceu para isso;Serei sempre só o que tinha qualidades;Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,E ouviu a voz de Deus num poço tapado.Crer em mim? Não, nem em nada.Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardenteO seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.Escravos cardíacos das estrelas,Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;Mas acordamos e ele é opaco,Levantamo-nos e ele é alheio,Saímos de casa e ele é a terra inteira,Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;Come chocolates!Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.Come, pequena suja, come!Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca sereiA caligrafia rápida destes versos,Pórtico partido para o Impossível.Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,Nobre ao menos no gesto largo com que atiroA roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!Meu coração é um balde despejado.Como os que invocam espíritos invocam espíritos invocoA mim mesmo e não encontro nada.Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,Vejo os cães que também existem,E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o raboE que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soubeE o que podia fazer de mim não o fiz.O dominó que vesti era errado.Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.Quando quis tirar a máscara,Estava pegada à cara.Quando a tirei e me vi ao espelho,Já tinha envelhecido.Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.Deitei fora a máscara e dormi no vestiárioComo um cão tolerado pela gerênciaPor ser inofensivoE vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,Calcando aos pés a consciência de estar existindo,Como um tapete em que um bêbado tropeçaOu um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltadaE com o desconforto da alma mal-entendendo.Ele morrerá e eu morrerei.Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,E a língua em que foram escritos os versos.Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como genteContinuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,Sempre uma coisa tão inútil como a outra,Sempre o impossível tão estúpido como o real,Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.Semiergo-me enérgico, convencido, humano,E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-losE saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.Sigo o fumo como uma rota própria,E gozo, num momento sensitivo e competente,A libertação de todas as especulaçõesE a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeiraE continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeiraTalvez fosse feliz.)Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universoReconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928