29/06/2010

Aqui na orla da praia...



Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sonho que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa

A passagem dos dias


Se, com o tempo, perco e encontro o que é
igual e diferente, perdendo o igual no que
é presente e vendo a diferença no passado
da presença, ao tempo dou o mesmo que

penso no que foi pensado sem viver,
vivendo agora o pensamento que não
tive, como vento que por aqui passou
e tudo na mesma deixou: árvore seca

cujo ramo vive, flor amarga num azul
de céu, ribeiro que a margem prende,
ave pousada num fio de silêncio. Assim,

ao tempo restituo o que é dele, e tudo
o que é dele o tempo me dá, igual e
diferente, com o seu fruto amplo e mudo.

Nuno Júdice

Maria Matos (e "coisas" do passado...)




QUEM não me quizer bem, não abra êste livro; não encerra êle primores de literatura ou coisa que mereça a atenção de indiferentes.
É como um cantar singelo e dolente, cantar de quem embala um menino; com êle, com êsse dolente cantar vou embalando as saüdades e as lembranças que trago sempre ao peito.
Quem não me quizer bem, não abra êste livro, não escute o meu cantar.
Só corações amigos terão ouvidos para ouvi-lo e entendê-lo.

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À minha Maria Helena.
A'queles a quem eu estimo e a todos os que me estimaram e que a morte me roubou.
Ao Brasil luminoso e ardente.
A' linda terra das Ilhas, à Madeira e aos Açores.
Aos Montes e aos Rios.
A' s Aves e às Flores.
A tudo que me tem dado um afago ou um sorriso, êste livro escrito com a minh'alma, consagro.
E tu, Maria Helena, que cêdo sentiste tão de perto as minhas penas e as minhas alegrias, os meus triunfos e os meus desalentos, toma-o nas tuas mãos que, para mim, serão sempre pequeninas, e dá-lhe o amoroso abrigo do teu coração.

Agôsto de 1935.


Maria Matos

27/06/2010

Quero dar-te...




Quero dar-te a coisa mais pequenina que houver
bago de arroz
grão de areia
semente de linho
suspiro de pássaro


pedra de sal
som de regato


a coisa mais pequena do mundo
a sombra do meu nome
o peso do meu coração na tua pele.

Rosa Lobato de Faria

26/06/2010

Murmúrios do Mar



«Paga-me um café e conto-te

a minha vida»

O Inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»

José Tolentino Mendonça

«É complicado ...» (citação)


Estarão os portugueses a ficar mais estúpidos ou apenas mais incompetentes? É que ultimamente tenho verificado com desolação que é cada vez maior o número de coisas e tarefas, que são caracterizadas como sendo de grande complexidade.
Pergunta-se a um amigo se ele quer vir beber um café - até há pouco tempo um empreendimento relativamente fácil - e ele responde logo:
«É complicado...»
Vai-se sozinho beber o café, pede-se troco para a máquina dos cigarros e o empregado desde logo confessa a complexidade daquela operação:
«É complicado, amigo...»
Claro que acaba por dar o troco, mas entrega as moedas como se tivesse acabado de resolver o teorema de Fermat, como se exigisse que eu tomasse consciência do grau intenso, quiçá insano da dificuldade do meu pedido.
O tecido vivo da Nação foi envolvido por uma furiosa teia de complicação. Pergunta-se inocentemente se amanhã vai estar bom tempo para a praia e o nosso interlocutor transforma-
se logo num camponês perplexo, caído de pára-quedas no Centro Comercial Colombo, fitando o céu, suando com os nervos e balbuciando: «Está complicado...»
«Achas que compre um bolo para a festa de anos do teu irmão?»
«É complicado...»
«Emprestas-me este CD?»
Ó pá; é complicado...»
Das duas uma: ou as coisas todas do mundo português atingiram finalmente a assustadora complexidade tecnológica da qual tanto nos avisaram os profetas da desgraça, ou foi a nossa inteligência colectiva que foi repentina e tragicamente diminuída; simplificada.
Quando eu era pequenino ou, pensando bem, até ao ano passado, era tudo muito simples:
«Como é que eu chego à Calçada do Combro?»
«É muito simples, amigo...»
Seguiam-se instruções capazes de paralizar o cérebro de um astrofísico: «controla o cruzamento...segue pela rua que não é do eléctrico, sempre à direita...não liga aos sinais...passa o homem das castanhas...mete na terceira; não...quinta à esquerda...até chegar aos semáforos...e depois pergunta...»
Podíamos não dar com a porcaria da rua mas, se é verdade que os extra-terrestres escutam tudo o que dizemos, imagine-se a fama de inteligentes que nós tínhamos! E que agora podemos ter perdido para sempre.
O problema é particularmente grave com o «complicado» porque a palavra acaba por afectar o próprio pensamento, fazendo parecer complexas situações que doutro modo poderiam ser facilmente resolvidas. Por exemplo, estou convencido que a luta contra os incêndios poderia ter sido mais eficaz se cada fogo, fosse ele qual fosse, não tivesse sido logo classificado como «complicado».
Às tantas, afirmar logo à partida que uma coisa é complicada equivale a uma desistência. Quer-se saber como vai o casamento de um amigo e o oco diagnóstico «Aquilo está complicado...» acaba por substituir-se à tentativa de uma explicação.
Por alguma razão o «É complicado...» leva sempre reticências. É para entrar preguiçosamente no reino irritante do «Nem me faças falar...»; do «Escusado será dizer...» e do «Quanto menos se disser sobre este assunto, melhor...»
Já mais de um médico me disse, para se poupar ao esforço de me dar um lamiré acerca de uma situação:
«É complicado; é complicado...»
Os médicos, não sei porquê, repetem sempre o adjectivo; talvez para demonstrar ciência acrescida. Dos mecânicos de automóveis nem se fala.
A única resposta, por enquanto, é tratar o verbo «complicar» como deve ser e retorquir logo:
«Ah sim? E o que é que complicou a situação? Como era ela antes de se complicar? Era melhor? Tem saudades desse tempo? O que é que acha que se pode fazer para descomplicá-la?»
Não é a melhor maneira de atingir a popularidade mas é eficaz.
Quer dizer; é complicado...

Miguel Esteves Cardoso
(A minha andorinha)

24/06/2010

Poema do coração


Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?



António Gedeão

Caminhos

23/06/2010

A ti, Zé...


Dizem que foste tu
a escolher a violência
da tua morte,num acorde perfeito
com os teus versos. Não é verdade:
tu sabias que nenhum inferno
é pessoal, por isso procuravas
um rio onde ardesses
para voltares a nascer longe da terra.
Apenas isso – o resto é merda.

Eugénio de Andrade

22/06/2010

Quando eu for pequeno


Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria

Os silêncios da fala


São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.


Maria Teresa Horta

21/06/2010

Impressão digital


Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos?São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão

20/06/2010

Levanta-te, não chores


Levanta-te, não chores.
Tens de saber que às vezes é difícil
matar o que nos mata,
ir aguçando o gume do cutelo
e movê-lo depois, logo em relâmpago,
até que o monstro seja degolado
e não fique sequer uma gota de sangue,
da cicuta voraz que lhe corria
plas veias tão geladas, sob a pele
que terias beijado quase a medo
em busca de um sabor que fosse o fogo
e o ar e a água,
mas era só veneno adocicado,
daquele que vicia sem parecer viciar
e nos deixa sem cura a vida inteira.

Levanta-te, bem sabes,
desde o tempo dos contos infantis,
que todo o mal procura disfarçar-se
em rostos como aquele,
na perfeição volátil desse abismo
a que chamam beleza e vai ardendo
em lânguidos sorrisos e olhares
feitos de pura seda, seduzindo
espíritos como o teu,
demasiado inocentes ou perversos
para desconfiar da eternidade
ou para resistir à luz fosforescente
que, obedecendo às leis da natureza,
sempre soube atrair até à morte
o alucinado voo das borboletas.

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo
de apertar o gatilho as vezes necessárias
para que tudo morra - os estertores
da tua alma ou do teu corpo
mesmo assim doem menos, acredita,
que o travo turvo dos piores remorsos.
E se vires que é preciso
rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,
os mil e um poemas
que haverias de ler, talvez sem esforço,
à flor daquela face, não hesites,
porque a felicidade tem um preço
e os versos, quaisquer versos, são apenas
a memória infiel deste vento que move
as árvores lá fora enquanto é noite,
mas que às primeiras horas da manhã
deixará elevar-se um nevoeiro
tão espesso e esbranquiçado, que o amor
será nesse momento uma palavra baça
que nada te dirá, a ti ou a ninguém.

Fernando Pinto do Amaral

19/06/2010

Aconteceu-me...



Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.


Almada Negreiros

18/06/2010

Outra boa noite


Boa noite à solidão,
Disse um dia quem me disse
Que a saudade é uma espera.
Dava o tempo e a razão
P’ra que a vida me despisse
A saudade que me dera.

Porque mais do que a vontade,
Mais que a sede dos meus dedos,
De hoje em ti eu me perder,
São os braços da saudade
Que se perdem nos meus medos,
No meu corpo a anoitecer.

Que a cada beijo que a vida
Me fez dar à solidão
Como um amor que não conheço,
Deu-me a voz da despedida
Que é muito mais que a razão
E que a voz de que me esqueço.

“Boa noite, noite fria,”
Digo às horas de amargura
Que se estendem noite fora.
“Boa noite”, disse um dia
Quem sentiu da noite escura
A tristeza desta hora.

Diogo Clemente

Olhando o mar, sonho sem ter de quê



Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, estar em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

Fernando Pessoa

16/06/2010

Aurora Boreal


Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto,
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas,quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão

15/06/2010

Meu corpo, que mais receias?



-Meu corpo, que mais receias?
-Receio quem não escolhi.

-Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos...
Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.


Jorge de Sena

14/06/2010

Poema de um funcionário cansado



A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é
estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num
quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na
gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de
empregado
Sou um funcionário cansado dum dia
exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter
cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente
perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha
vida
isto todas as noites do mundo numa só
noite comprida
num quarto só.

ANTONIO RAMOS ROSA

13/06/2010

É noite de Santo António...










É noite de Santo António
Estalam foguetes no ar,
Põe o manjerico à janela
E vem pra rua dançar.



Santo António, Santo António
Que bonito que tu és
Vou comprar um manjerico
E vou pô-lo a teus pés.

Santo António português
Bem me podias casar
D'um mais um fazias três
Como fez o Salazar.
Há arraial na Mouraria
Santo António vem bailar
Eu seguro-te no Menino
Se me prometes casar.

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É noite de Santo António...

12/06/2010

Amo-te, Lisboa virada ao Tejo



Dizem que um dia alguém cantou…
Que por amores Lisboa se perdeu!
Por amores se perde quem lá voltou.
De amores se perde quem lá nasceu.

Dizem que um dia alguém contou.
Que uma moira cativa no Tejo desceu.
Por amores, Lisboa, a moura libertou,
De amores, por Lisboa, a moira morreu.

Juntaram-se os telhados enfeitiçados,
Apertadinhos os dois e entrelaçados,
Num fado castiço, numa rua de Alfama.

E o Tejo, que é velho, beija a Cidade:
Morre-se de amor em qualquer idade,
Perde-se por Lisboa, quem muito ama!


Rogério Martins Simões

11/06/2010

Consolo na praia


Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez! - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

10/06/2010

A Fé que me obriga a tanto amar-vos


Dai-me ũa lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde sob pena de enojar-vos;
Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos
Fará que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minha alma contemplar-vos;
Que se assim não chegar a contentar-vos,
Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.

E se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida não consente,
Dai-ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva,
Sem saber como vivo, tristemente;
Mas contente estarei com minha sorte.

Luís Vaz de Camões

Traz-me...


Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traz-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares,
- vê que nem te peço ilusão.

Traz-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles

09/06/2010

Chuva - Mariza

Devia morrer-se de outra maneira


Devia morrer-se doutra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

É tarde meu amor...


É tarde meu amor.
Estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido.
Agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono.
Habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…
A solidão tem dias mais cruéis.
Tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo,
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de ser… cantar-te os gestos com ternura,
mas não…
Águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem
estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém.
Na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição.
Apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam.

Al Berto

NOUTROS LUGARES (Jorge de Sena)


Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

07/06/2010

Reportagem



Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...

ANTÓNIO BOTTO

Cala-te




Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido….

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
Com a minha sede.


José Gomes Ferreira

02/06/2010

Homem transportando o cadáver de uma mulher



Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

Almada Negreiros

Canção



Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles