29/07/2010

Se as minhas mãos pudessem desfolhar


Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.


Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.


Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!


Frederico Garcia Lorca

Quando eu morrer...



Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.


Maria do Rosário Pedreira

28/07/2010

E de novo, Lisboa...


E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?

Alexandre O´Neill

27/07/2010

À Mulher



A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher


Ary dos Santos

A velhice


Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.

Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam, de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. (…). Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos polares. (…)

Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito. (…).

Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.


António Lobo Antunes

26/07/2010

Que de Mim?



Em quê de mim, as diferentes
coisas que vejo, me tocam?
Em quê de ser eu provocam
excitações tão frementes?

Que coisa de mim se enleia,
que permanência me afirma,
que sentido faz sentir-ma
no espaço que me rodeia?

Que linhas de força estranha
me prolongam na paisagem,
me tornam, à sua imagem
mar ou céu, vale ou montanha?


Que fluidez dissolvente
os meus olhos humedece
quando o Sol desaparece
nas angústias do poente?

Que de mim também se afoga
nesse horizonte distante,
murmúrio de agonizante
que em tons roxos se interroga?

Que de mim chove na chuva,
e se abre nos tons da aurora?
Que de mim nas flores se inflora
e nas tardes se enviúva?


Ó estrelas do céu sem fim!
Ó vagas do mar sem fundo!
Será tudo mesmo assim?
Eu e vós, partes do mundo?
Ou o mundo, parte de mim?

António Gedeão

22/07/2010

Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

20/07/2010

Sombra


De olheiras roxas, roxas, quase pretas,
De olhos límpidos, doces, languescentes,
Lagos em calma, pálidos, dormentes
Onde se debruçassem violetas...

De mãos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento não baloiça em noites quentes...
Nocturno de Chopin... risos dolentes...
Versos tristes em sonhos de Poetas...

Beijo doce de aromas perturbantes...
Rosal bendito que dá rosas... Dantes
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!...

Ah, cinzas mortas! Ah, luz que se apaga!
Vou sendo, em ti, agora, a sombra vaga
D’alguém que dobra a curva duma estrada...”

Florbela Espanca

17/07/2010

As pequenas palavras


De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.

Rosa Lobato de Faria

12/07/2010

fado para um amor ausente



Meu amor disse que eu tinha
Uns olhos como gaivotas
E uma boca onde começa
O mar de todas as rotas

Assim falou meu amor
Assim falou ele um dia
E desde então fico à espera
Que seja como dizia

Sei que ele um dia virá
Assim muito de repente
Como se o mar e o vento
Nascessem dentro da gente

Manuel Alegre

Um céu e nada mais...



Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

Ana Luísa Amaral

10/07/2010

Caminheiro da Paz


À memória do Dr.Cannavial
meu ilustre Mestre e Amigo


O Mestre partiu.
Partiu o meu guia,
Aquele que só buscava
Paz-Harmonia.

Em sua vida dolorosa,
neste mundo de abrolhos,
soube enfrentar os escolhos
na Caminhada para a Paz.

Olhar luminoso, cabeça erguida,
ele seguia, o guia,
olhos fitos no Além,
sofrendo calado,
espalhando o Bem.

Ele partiu,
o Mestre-de-Todos-os-livros.
Do outro lado da vida,
onde a estrada é mais larga
e mais luminosa,
seus olhos cansados
encontrarão, de novo, a Luz.

E sobre nós, que o amámos
e o venerámos,
espalhará a sua bênção.

«Na mão de Deus: na sua mão direita
descansou ao final seu coração» (a).
a) A. Quental

St.António, 15/11/91

Magda-Flor
"Cantares da Cigarra"

09/07/2010

Lembrança



Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!

Miguel Torga

08/07/2010

Maria Matos (e "coisas" do passado...)


(...) Há no meu quarto um vélho contador de embutidos em cujas gavetas pequeninas eu guardo, desde há muito tempo, lembranças que me são queridas, memórias de tudo quanto, ainda que por momentos, encantou o meu espírito ou me impressionou o coração.Gosto de conversar com o meu vélho móvel e, às vezes, naquêle cantinho cheio de intimidade onde êle dormita, fico a idealizar qual teria sido a sua situação anterior; quem o teria possuído, que mãos viriam abri-lo diàriamente, para nêle guardarem, o quê?!(...) Não sei. É de confiança o meu vélho contador, e por mais que alguém o interrogue, jámais quebrará o seu impenetrável mutismo.Às tardes, quando o sol desmaia num longo beijo, suave como um queixume de amor, nessa hora estranha de inefável melancolia, em que até as rosas parecem empalidecer de saüdade, ou à noite, altas horas, quando tudo dorme e só o palpitar do meu coração enche a casa silenciosa, gosto de abrir as suas gavetas pequeninas, e, devotamente, mergulhar os dedos nas mil recordações que ali guardo; de entre eles, uma há, que me merece a mais indulgente ternura: É uma vélha Ilustração Portuguesa e, sempre que a folheio, o meu olhar detem-se comovido, na contemplação do retrato que, isolado, a meio de uma página, recorta modestamente a sua linha escura.É tão feiosinho, Santo Deus! E, vejam lá! por isso mesmo lhe quero e as lágrimas me vêm aos olhos sempre que o contemplo!É que êsse retrato, em que uma rapariguinha vestida de luto, numa atitude acanhada, de olhos baixos, esboça timidamente um sorriso triste...êsse retrato...é o meu.Que infinidade de recordações êle desperta no meu coração!Acabava eu de prestar as minhas provas de exame do 2º ano do Curso de Arte de Representar no Conservatório Real de Lisboa.No pátio do vélho casarão dos Caetanos, aguardava-nos o fotógrafo do Século para reproduzir na Ilustração o bando gentil de futuras actrizinhas que, buliçosas e despreocupadas, chilreavam como pardalitos em tarde de primavera.Parece-me ainda estar a ouvir a voz amiga de Henrique Lopes de Mendonça, que fizera parte do júri, e que, pegando-me na mão, me dizia com solenidade cómica: «venha. A caminho da Imortalidade!» Eu sorria, confusa, enleada, feliz, cheia de amor pela carreira que resolutamente abraçara...
Agôsto de 1935
Maria Matos

03/07/2010

As sem razões do Amor



Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

02/07/2010

Poentes de Inverno



Quando a brasa do sol, ao fim da tarde,
Mergulha atrás dos montes lentamente,
Tudo parece que se inflama e arde,
Febril, na rubra irradiação do poente.

Frouxos os nervos, o ânimo cobarde,
Como num sonho que esmorece, a gente
Fica-se a olhar o Sol, ao fim da tarde
Té que a tristeza em lágrimas rebente.

Tristezas, lágrimas! Meu Deus, quem há-de,
Quando ao longe se pôs, da mocidade,
O Sol que nos doirava a alma e o rosto,

Olhar sem mágoa os trágicos poentes...
Porque choras, velhice? - É porque sentes
Que não volta a nascer o teu sol-posto!

Conde de Monsaraz