31/08/2010

Amigo, a que vieste?



Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.

Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?

Pedro Tamen

30/08/2010

Dez réis de esperança


Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

29/08/2010

Poema Quotidiano



É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro.

Ruy Belo

28/08/2010

À Memória de Ruy Belo


Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

1978
Eugénio de Andrade




27/08/2010

Dizem que a paixão o conheceu



dizem que a paixão o
conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos
escuros
senta-se no estremecer da noite
enumera
o que lhe sobejou do adolescente
rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem
permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do
sono

pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho
do medo

dizem que vive na transparência do
sonho
à beira-mar envelheceu
vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma
alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer
entre os vivos

Al Berto

26/08/2010

Chegaste...



com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.


Yvette Centeno

25/08/2010

Saudade Só






Hoje vieste ver-me
a troco de um pensamento
que não se esconde
na ressonância adormecida
num olimpo.

Vieste e trazias
um ramo de palavras cintilantes,
flores que pacientemente
escorrem entre o alfa e o omega
como um perfume de tempo.

Hoje a tua visita
apareceu à janela do tempo
que a paisagem do nosso olhar
incendeia num vespertino silêncio.

De corpo cansado
das pedras que colhi
na paisagem transparente erguida
adormeci na pausa
tão perfeitamente adormecida
do nosso paraíso
que tarda a acontecer.

Hoje vieste ver-me
E, sem ter de tocar
no mármore da paixão,
contigo fui devagar
ver o tempo passado para nele escrever
o tempo do amor
voz da nossa idade
que nossos olhos cantam
no canto do nosso olhar.

Carlos Melo Santos

24/08/2010

A minha saudade tem o mar aprisionado


A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,

amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria

23/08/2010

Não partas já...


Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira

22/08/2010

Tu...



enlouqueces-me maravilhas-me atrapalhas-me apaixonas-me cegas-me confundes-me.

Tu inspiras-me.
Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu ...

Quero tanto de ti e tão próximo que anseio que fosses o ar, o chão, as paredes tudo.

Tudo.Que tudo o que tocasse fossem os teus braços.

Que tudo o que sentisse fossem os teus lábios.
Como quando fecho os olhos e tudo o que não vejo és tu.
Como quando não durmo e tudo o que sonho és tu.
Contigo não consigo respirar. Sem ti não consigo viver.

Quero estar tão dentro de ti que nem a luz do dia exista para mim.
Quero abraçar-te tanto que todo o mundo colapse
e desapareça num pequeno ponto entre os meus braços.

Toca-me com as tuas mãos.
Faz-me desaparecer com a tua pele.
Sufoca-me na tua língu
Arrasta-me pelo ar com o teu perfume.
Mata-me de vez.

Tu
Se fosses chuva, do céu só cairiam pérolas ...
E até o chão gritaria de prazer.

Maria Teresa Horta

21/08/2010

Quero ir para um lar... (A Minha Andorinha)



Sexta – feira passada, ao descer os distintos degraus do átrio do famoso e fabuloso Hotel Palácio Estoril, tropecei nas sandálias Dr. Scholl que orgulhosa mas contrariadamente calçava e espalhei-me ao comprido.
Ao estatelar-me, com a minha centena bem pesada de quilos, ouvi um assobio no ouvido, mais precisamente um silvo de baixa pressão arterial, não desaparecido com a melodia do Lá Vai o Comboio, que me cantarolava, em versão «tinnitus», o refrão «Lá se Vai A Tua Pinta Toda (Oh Figlioglio Mio)».
Para uma queda aparatosa – as folhas do Daily Telegraph e do Le Monde a esvoaçarem em entente cordial; as Rotrings lançadas como setas; as cigarrilhas em formação acrobática – só se recomenda um grande, grande hotel.
Não sei de onde, apareceu um grumete com estudos de neurologia que me amparou o crânio, salvando o meu ganha-pão que, graças a ele, ainda consegue escrever esta crónica. Não fossem aquelas mãozinhas amigas e cirúrgicas e o embate dos meus miolos com o belo mármore do Hotel Palácio teria acabado 5-0 a favor do mármore.
Estendido ao comprido naquele átrio maravilhoso que acolheu Graham Greene, Kim Philby e tantos outros bêbados ilustres, voltei à consciência com a voz maviosa e salvífica do Senhor Diogo, o melhor concierge do mundo inteiro (o que ele não sabe não vale a pena saber) que quase me ia convencendo, muito solidária e terapeuticamente, que quem não tropeçasse naqueles degraus tinha um problema qualquer.
Isto sendo evidente – com degraus tão doces e perdoadores – que eu tinha sido o primeiríssimo palerma, em 75 anos de actividade frenética, a conseguir cair daquela simpática rapaziada abaixo.
Veio um senhor com um copo de água (do Luso, de garrafa). Propôs-se chamar um médico de renome, a cinco minutos. E eu ali estendido, como uma torre de Babel caída, ferido em toda a minha dignidade, a murmurar piadolas de tostão e meio.
Estava rodeado por médicos melhores do que médicos – o lendário porteiro que me conhece desde os cinco anos; o barman que me tinha servido os dois impecáveis gin-tónicos; a nata daquele grande hotel. Senti-me tão bem que – juro – dei aquela queda embaraçosa como uma ascensão aos céus. Por mim ficaria ali caído até hoje, tal era a qualidade do serviço.
Telefonaram imediatamente para a minha mulher – a Enfermeira Pinheiro – e, passando três minutos, lá estava o amor da minha vida.
É que saudáveis são sempre bem recebidos – é fácil. Agora quarentões de peso, com gosto pelo Bombay e corações frágeis, que se estampam num átrio sem aviso algum e com desplante absoluto – é mais raro aturarem-se. Obrigado, Hotel Palácio do Estoril: agora compreendo, em profundidade, todos os elogios!
No dia seguinte à minha queda aparatosa – eu culpo as sandálias nazis do Dr. Scholl, que deve ter sido coleguinha do Dr. Mengel – ouvi a minha mulher a falar com uma das melhores amigas dela, a Carla. É casada com um dos meus melhores amigos – o Carlos Quevedo, que praticamente inventou o gin-tónico e tanto se empenha na criação que não há dia em que não beba seis ou sete para confirmar que a fórmula está correcta – e, tal como a minha mulher, nasceu década e meia depois de nós, só para ser mais bonita e jovem. Coisas de mulheres…Bem-vindas que sejam.
«O Miguel, coitadinho, foi-se abaixo das canetas ontem…»
«Cala-te que o Carlos passou o dia inteiro agarrado ao joelho. Dói-lhe muito. Ele diz que foi do râguebi que jogou em miúdo no célebre FINAS de Buenos Aires («Fucking Toffee-Nosed Argy Snobs») mas o médico disse que ele que chamasse o que quisesse à maleita mas a classe médica preferia chamar “reumatismo, meu velho”…»
A estes relatos das nossas maleitas – ambas de notórios lutadores da Pátria, com assinatura reconhecida no notário e rejeitada pela Visa e tudo – seguiu-se um alegre (quiçá despojado até) cacarejar, próprio de moçoilas de bilha à cabeça e ancas gingonas que, airosas e coradinhas, de peitos sobranceiros e empertigados, bisbilhotam na fonte mas que, todavia, fizeram uma promessa de imitar o falar das galinhas e, nesse compromisso, quando se trata de gozar com os vetustos maridos, nunca falham; Deus as abençoe por isso ao menos.
«Temos que metê-los num lar!», disse uma. É a grande anedota daquela amizade. Garante o riso. A Vodafone factura. E nós, encolhendo a barriga e impondo respeito aos nossos gatos – que ainda assinalam a nossa existência, por serem persas bem-educados -, engolimos e fazemos sorrisos amarelos cujas matizes nem Matisse sonhava quando concebeu os vitrais de Vence.
Pois bem. Como dizem os americanos nos filmes rascas, «it’s pay-back time». Depois da minha aparatosa queda no átrio do Hotel Palácio, sou eu que digo que quero ir para um lar. Sempre adorei a palavra «lar». É uma das vantagens de não ser de esquerda.
Quero ir para um lar. Mas não é um lar desses que há para aí, que ainda sou muito novo. Nem cinquenta anos tenho. Não, quero um lar moderno e muito baby boomer, com um retrato do grande Benjamin Spock, meu supremo educador, à entrada.
Para mais, mal tinha deixado de ser filho do meu pai e tinha conseguido ser o meu próprio MEC, eis que me vejo, diante o êxito televisivo das minhas tão amadas filhas, o «pai das gémeas». «Deve estar muito orgulhoso», dizem-me nas tabacarias. E estou. Mas quando lembro que eu próprio já escrevi umas coisas e, embora não me vanglorie, também tenho uma razão ou outra para piar fininho, as pessoas distraem-se e dizem «Pois, pois… mas tenho outro cliente para atender… as suas gémeas são muito goras!»
E eu penso mas não digo: «Lá isso são. Mas sabe que os meus genes… É que eu próprio não sou um monstro… Tenho olhos azuis; sou alto; dizem que tenhobom ar…» Mas ninguém me ouve já. Porque já não digo. Até porque, a semana passada, me espalhei ao comprido no átrio do Hotel Palácio do Estoril e, com essa queda, caíram-me quaisquer peneiras que me restavam. Nem Graham Greene, depois de vinte «sidecars», foi incapaz de negociar aqueles quatro ou cinco inocentes degraus…
A vergonha é boa conselheira e eu, já que não posso pôr mais os pés no Palácio, quero ir para um lar.
Haverá – escusado será dizer – centenas de enfermeiras de salto alto e farda branquíssima e engomada. Não exclusivamente escandinavas, note-se. Pretende-se uma representação justa da ONU. Quero duas do Mali; onze italianas; seis singapurenses; nove da Costa do Marfim; quatro canadianas (mas só uma «canadiana» para chegar ao bar); dezassete japonesas, uma dúzia de russas rebeldes e outra de irlandesas sardentas e, para economizar, quatro brasileiras (duas mineirinhas e duas baianas) e noventa e oito dos outros PALOP. Têm é de ser altas. Não; nem isso. Não têm de ser altas. Até podem ser muito baixinhas. Têm é de ser boas enfermeiras. Isso é essencial. E não se pense que só quero novinhas. Não. Quero «Matrons» inglesas; avozinhas norueguesas de carrapito e baton de cieiro mas bem redondinhas com tabuleiros de respeito – sejam de dry martinis ou peitorais.
Quero todo o meu país representado. Uma Saudade da Beira Alta; uma Magnífica do Algarve; uma Noémia do Minho; uma Adelaide de Sesimbra; uma Maria de Lurdes de Trás-os-Montes; uma Natividade do Baixo Alentejo. Todas engomadinhas, tão branquinhas e resplandescentes que tirar os óculos escuros seria abraçar a cegueira de Borges. As mini-saias não são importantes – mas isto é dito de forma peremptória, para perceber-se que são absolutamente indispensáveis.
Quero ir para um lar, já! E quero levar os meus amigos de idade: o Pájó; o Carlos, o Pedro Ayres; o Luís Coimbra; os Chicos Sande e Castro e Vasconcelos; o Alberto Castro Nunes; o António Braga; o João Miguel e o Joaquim; o Manuel Falcão; o Manuel Rosa; o Rui Reininho; os cunhados Álvaro e o Zé e – sobretudo – os que ainda têm a mania que são putos, como o meu irmão Paulo, o Fernendo Cruz, o Pedro Rolo Duarte, o Manuel Serrão, o Rui Zink, o Paulo Portas, o Jó Gavazzo, o Gonçalo Ribeiro Teles, o David Ferreira, o João Pereira Coutinho e o meu sobrinho-neto Diogo que, apesar de só ter quatro anitos, já lhe pesam…Hi hi, são precisamente estes os que mais necessitam dos cuidados em que estou a pensar. As minhas amigas Luísa, Graça, Filomena e Catarina ainda são muito novas, até porque dariam enfermeiras ideais.
As minhas filhas nasceram com setecentos gramas e trinta centímetros e passaram os primeiros três meses em incubadoras. Este lar seria uma incubadora ao contrário: uma lenta, lentíssima antecâmara para a morte.
Os inquilinos seriam igualmente prematuros – com pouco menos de 50 anos – para a morte. Haveria um bar impecável, copiado do Bemelsmans Bar do Hotel Carlyle na Madison. Aberto 24 horas. O bar do Shining de Kubrick era fictício, mas era à mesma muito bom.
O nome do Lar poderia ser «Liber Pater», porque tem uma ressonância séria e até patriótica, já que os ignorantes julgariam tratar-se de «Pátria Livre» ou «Livros do Pai». Só nós saberíamos que é o nome do deus romano do divertimento, do vinho, da luxúria sexual – e do teatro.
Haveria visitas conjugais dia sim, dia não – para que as nossas jovens mulheres pudessem colher os doces frutos e, feitas ineses, porem-se em sossego. A nós também não nos saberia mal. Com bom champagne e o room service do Ritz Four Seasons de Lisboa.
Haveria um canal «T1» de banda larga; todas as televisões de cartão, cabo e satélite; uma tabacaria da Cubatabaco em parceria com a Fábrica Estrela de São Miguel e uma loja de jornais e revistas que cobrisse o mundo inteiro e tivesse sempre tudo. Cinemas e (para os foleiros) bilhares.
O refeitório seria gerido diariamente. Um dia seria o Porto de Santa Maria; terça era o Gambrinus; quarta o peixinho divinal do Solar dos Leitões; quinta o Aleixo da Campanhã; sexta o Tromba Rija de Leiria; sábado o Sacas da Zambujeira do Mar; domingo o Fialho de Évora; segunda-feira o Pedro dos Leitões da Mealhada; terça o Fortaleza do Guincho; quarta o João Padeiro; quinta o Pap’Açorda; sexta a Bica do Sapato; sábado a Marítima de Xabregas; domingo a Flor da Rosa de Estremoz; segunda-feira o Galito; terça-feira a Marisqueira Ramiro; quarta-feira o Vila Lisa da Mexilhoeira Grande; quinta o Beira-Mar da Cascais; sexta o English Bar…
Não sei, nas palavras imortais de tantos motoristas de táxi de Lisboa, se estão a ver onde eu «istou a querer chigar…»
A minha espalhafatosa queda às augustas portas do Hotel Palácio do Estoril (só senti, como leitor de Óscar Wilde Coward, a falta dos «sais de cheiro» que eu pensara obrigatórios em estabelecimentos daquele luxo) convenceu-me. Se já não me aguento nos calcanhares; se tropeço nas sandálias mais ortopédicas; se o forte vem tão facilmente abaixo; então que se faça vingar a troça sábia da minha jovem mulher com a jovem mulher amiga dela e que me instalem – imediatamente – num lar.
Com três letras apenas se escreve a palavra «lar». «Mãe» também – mas «mãe» é claramente um substantivo. «Lar» até parece um verbinho, de tão jeitosinho que é.
Conjuguemo-lo alegremente, amigos meus:
Eu (já estou) lá,
Tu lás-de ir lá parar;
Ele lá (irá ter);
Nós lamos (já para aí vamos andando, sem delongas);
Vós lais de lá aparecer (aparecereis);
e…Eles também lão tardam (vêm já amanhã!).
Quero ir para o meu Lar. Preparem o meu Lar, se fizerem favor. Recrutem o pessoal necessário. A acrescentar às enfermeiras (ia-me esquecendo) há uma junta médica dos melhores especialistas portugueses e, caso insistam muito para entrar, um ou outro americano. Atenção à importância da unidade permanente de transplantes figadais, trabalhando em estrita sintonia com o serviço de bar.
E as enfermeiras? Já mencionei enfermeiras? Peço desculpa mas é que estou num lar e tenho tendência a repetir-me…Frisei bem a importância do Mali e das ilhas Faroé? Ah, as Faroé não? São importantíssimas; altas e de queixo levantado, mas com um aroma permanente a arenque fumado…


Miguel Esteves Cardoso

Outra


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto

20/08/2010

Quero-te para além das coisas justas...


Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandezas.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.

Joaquim Pessoa

19/08/2010

Um cigarro (Pedras Lavradas)



- Trazes tabaco? –
perguntou, mesmo antes de a mulher pousar o cesto.
- Não.
- Então desaparece-me da vista!
- Ó homem! – choramingou ela.
- já te disse!
- Corri tudo, valha-me Deus…Cheguei a ir a Sabrosa…
- Andúvia!
- Come o caldo, ao menos…
A pobre da Leonor, a enxugar as lágrimas ao avental, voltou pelo mesmo caminho, e o Leopoldo continuou a destroçar a mata. Mas que teria ele? Que fúria era aquela? Não é que o machado lhe parecia uma arma nas mãos?! Até os pinheiros gemiam doutra maneira!
- Não queres? – monologava ele, quando algum resistia mais. – Eu digo-te já!
E o cutelo fendia o ar numa parábola, e vinha enterrar-se na polpa branca do desgraçado.
- E agora?
Cortado pelo cerne, o pau tinha uma pequena ilusão libertadora, hesitava um momento, e acabava por acompanhar a rama na sua queda desamparada e dramática.
- Que raio terei eu?
Há trinta anos que era lenhador. Mas nunca pusera ódio nos golpes. Derrubava, mas com amor.
- Eh, valente! Chama-se a isto tê-los no sítio! Tem paciência…
Passava a mão calosa pela carcódia do bicho, num afago verdadeiro, e dava-lhe então o golpe de misericórdia.
Hoje, porém, qual ternura nem meia ternura!
- Ah, sim?! Estás-te a fazer fino?
E, sem tomar fôlego, atirava-se às dentadas ao toco do infeliz.
Suava como um odre. E a resina derretida colava-lhe as mãos ao cabo da ferramenta.
- Porca de vida!
No chão, o último vencido acabara de morrer. As palpitações do seu coração, uma a uma, tinham-se apagado, primeiro no tronco, depois nos ramos, por último nas agulhas: jazia finalmente inerte como os outros irmãos, e abraçado a eles.
- Porca de vida!
Ficou-se a olhar a mortandade. Um emaranhado de corpos esguios, mutilados no pé, com as chagas ainda a sangrar.
Guerras, parvoíces, e o resultado era não haver tabaco, nem medida na destruição.
Há dois anos já que era uma razia por toda a parte. Dantes cortava-se um castanheiro, uma faia, um carvalho ou meia-dúzia de pinheiros para o madeiramento da casa de Fulano ou de Sicrano, e mediam-se os paus, calculava-se-lhes a idade e botavam-se abaixo só nas luas, quando a seiva estava de feição. Agora…
Por mais empedernida e dura que se tivesse a alma, não se podia ficar insensível àquela devastação. Tudo servia. O que não dava madeira dava sulipas, o que não dava sulipas dava toros para as minas, e o resto lenha. Antigamente ficava sempre uma mata duma mata cortada. Agora…
Moveu os olhos com lentidão. Nada! Um cemitério. De pé, como um espantalho, apenas um pinheirito aleijado a que pendurara o casaco. Poupara-o para aquele fim, e os irmãos maiores, ao passar na sua fúria, tinham-no desfigurado ainda mais, levando-lhe a crista e bocados da pele.
- Um panorama bonito, não há dúvida!
Cuspiu. Sentia a boca mais grossa do que uma cortiça. E então uma vontade de fumar!
Adiantou-se, olhou friamente a nova vítima, encostou-lhe o machado, e foi beber.
Guardara a garrafa no bolso da vestia, e o vinho quente soube-lhe mal.
- Há dias excomungados!
Voltou e retomou o trabalho. Perdia na empreitada. Oh, se perdia! Muita sorte se conseguisse pagar as despesas na loja. Havia de ser sempre o mesmo desgraçado, o mesmo miserável! Há trinta anos a matar o corpo, e cada vez mais pobre. Olha que roupa! Que calças! Que camisa! Parecia a veiga de Fermentões. Cada polegada, cada remendo.
- Deus o ajude!
Voltou-se rápido como o vento.
- Tem um cigarro que me dê?
- Não gasto.
Quem era, imperturbável, continuou a trotar no burro, até se perder na curva. Depois um grande silêncio e uma grande solidão cobriram tudo.
Ou da aragem, ou do pavor, o pinheiro para que se dirigiu oscilava como um vime.
- Não tremas!
Mas é bom de dizer!... Apenas lhe largou o primeiro golpe, o coitado pôs-se a chorar como uma criança. Era da fúria com que o cortava.
- Muito boa tarde! – ouviu do caminho.
- Fuma?
- Fumava, fumava…
Acabou de liquidar o desgraçado, que se torceu no ar, cambaleou, e se espapaçou no chão como um sapo.
- Não, assim não posso!
Foi vestir o casaco, pôs o machado ao ombro, e meteu pelos montes fora. Fosse o que Deus quisesse!
Atravessou um vale de tojo molar, galgou um cerro de giesta branca, saltou dois muros, passou um ribeiro, e ninguém! Ah! mas quem porfia mata caça!
Não era dos sítios. Judeu errante, corria o país à procura de serviço. Chegava a uma terra, arranjava uma empreitada, alugava um cortelho, metia lá a mulher, e começava a faina. Por isso não conhecia ninguém.
Uma povoação ao longe fumegava. Seria Francelos ou Samodães?
Apressou o passo, cortou à esquerda e meteu por uma rapada. Talvez do lado de lá do outeiro…
Que doidice! Que penitência aquela!
Realmente, na outra encosta, numa leirinha de milho painço, que parecia uma fita verde no surrobeco do carqueijal, andava alguém. Andava alguém, e fumava! Os olhos ávidos e maravilhados identificaram as ondas azuladas do fumo que saíam da boca do cavador, e se perdiam no azul imenso do céu.
Cautelosa e criminosamente, aproximou-se.
- Ora então muito boas tardes!
- Venha com Deus!
O fumador não se assustou. Ergueu-se de cima da enxada e tirou o chapéu. Nos beiços secos e gretados, a ponta da pirisca a brilhar.
- Vossemecê é homem para me dar um cigarro?
- Sou, sim senhor!
Meteu a mão ao bolso do colete, tirou o maço e estendeu-lho.
- Faça favor!
Depois chegou-lhe lume. Aproximou a cara da cara dele, e o Leopoldo teve a sensação de que lhe chupava o próprio hálito.
Calado, o lenhador sorveu sofregamente uma, duas, três vezes, a inundar-se de paz. Por fim, saciado, pousou o machado no chão, num gesto de alívio, sentou-se, e agradeceu:
- Não sabe o favor que me fez! Se me nega o cigarro, éramos dois desgraçados!
O outro sorriu levemente, puxou por sua vez uma fumaça, e respondeu, meio envergonhado:
- Eu sei o que isso é. Ontem, também maluco de vício, quase que enterrei a mulher aqui nesta mesma leira. Se não foge a tempo…
Mas eram agora dois homens pacificados, bons, naturais e fraternos como a paisagem. E nessa mansidão se separaram.

Miguel Torga

18/08/2010

Como se ama o calor e a luz querida...


Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,

Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo

De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas .

Gonçalves Dias

17/08/2010

Não te amo...


Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!


Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett

16/08/2010

Não posso adiar o amor...



Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

15/08/2010

Porque é que este sonho absurdo


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira

14/08/2010

Regresso à fuga



a noite de escuros voos apanhou-me
com a cabeça acesa numa teia de tinta
é sempre uma mentira existir
fora daquilo que está no fundo de mim
abro
o livro das visões
e uma cidade são todas as cidades trituradas
na memória calcinada do homem nómada

canto
ó resplandecentes águas ó murmúrio quieto
das areias
um pulso que se abre e estremece violento
ó dor da árvore ó surdo ruído do coração
onde a seiva das bocas brilha derramando-se
sobre o corpo
que na asa do migrante pássaro navega
ávido de mundo e desolação.

11/08/2010

Madrugada




Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...

Adolfo Casais Monteiro

10/08/2010

Serenata


Permite que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles

09/08/2010

Dorme, meu amor...



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega ― o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor ―

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres, mas nada temas; as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me ― eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega ― a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei no caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos ― a noite é um poema
que conheço de cor e vou contar-to até adormeceres.


Maria do Rosário Pedreira

07/08/2010

Que música escutas tão atentamente...



Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

05/08/2010

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi



Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

Maria do Rosário Pedreira

04/08/2010

Um mar rodeia o mundo de quem está só...



Um mar rodeia o mundo de quem está só.
É o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais triste para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.

Nuno Júdice

03/08/2010

A vida é o dia de hoje...



"A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!"

João de Deus

01/08/2010

A cidade é um chão de palavras pisadas



A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra duma luz que não há.

Ary dos Santos