28/10/2010

Qual sol, qual carapuça... (A minha andorinha)




Quando Deus deixou de procrastinar, arranjou coragem e foi fazer Portugal. Mas, mal tinha começado a fazer as compras essenciais, estoirou o orçamento todo no clima. Daí ter ficado tão pouca massa para as outras coisas de que o país precisava urgentemente. É, tornou tudo na secção Casa e Jardim. À parte os sucedâneos do clima (a paisagem, a comidinha, a namoriquice),ficámos bastante mal servidos, e isto dá-nos cobertura para os mais extensos queixumes, que agradecemos amargamente enquanto lhes ululamos. Não há no mundo outra terra em que as caras melancólicas dos habitantes sejam tão maus espelhos da luz e do calor que têm.
Alguma razão há-de ter tido o Criador. É que o clima está lá em cima, fora do nosso alcance. Podemos estragar e vender tudo o que está cá em baixo – e estragamos e vendemos, ai nanas! - , mas ao ceuzinho e ao solinho não chegamos. E assim, no meio do negrume circundante, assistimos, a 12, 13, e 14 de Março, a três dias de perfeita Primavera. É, aliás, um fenómeno conhecido dos meteorologistas: em Portugal, as estações do ano apresentam sempre um trailer antes de estrearem. E algumas reposições também.
No terceiro desses dias, eram duas muito bonitas da tarde e deslizávamos junto ao mar em direcção ao Estoril, o meu motorista de táxi e eu. Estragando o bendito silêncio da contemplação, caí na asneira de dizer que estava um dia de Primavera. «É? É?», respondeu o condutor. «Está bem, está… Vamos ver quanto tempo é que dura esta maravilha…» E, não fosse eu interpretar mal a atitude do homem, carregou no escárnio – repugnância, até – quando pronunciou «esta maravilha».
No dia seguinte, o clima lá voltou à programação habitual, e aposto que o marmanjo tem andado a ver se caça uma chamada minha, doido para me esfregar na cara um longo «Está a ver?! Está a ver? Eu não dizia? É que o pessoal que não anda nesta vida vê um dia mais ou menos bonito e, pronto, julga logo que a coisa está resolvida. Mas não está, meu amigo, não está…Longe disso. Longe disso, meu amigo…! Era bom, era…» É espantoso o pouco que consola esta repentina amizade que nos é oferecida por quem nos esclarece.
Esta atitude, tão portuguesa que até chateia mais do que é costume, tem tanto de estúpida como de grandiosa. É estúpida porque nos impede de gozar o que Deus nos deu. O sol de três dias de nada vale se depois vai chover outra vez. Para quê? Para um gajo habituar-se ao calorzinho e amargá-las mais ainda quando voltar à realidade? Para os portugueses, a realidade é um exclusivo da miséria, e tudo o que não seja completamente miserável é mera ilusão.
Não vale a pena dizer que a beleza daqueles três dias não é negada pela fealdade dos seguintes. Quer dizer, eu disse, mas arrependi-me, porque o motorista retorquiu com a bomba atómica do Ó…! Como quem diz, «cantas muito bem mas não me alegras». E ser acusado de querer alegrar um compatriota só não é punível com pena de morte porque ninguém é desentristecível.
Mas, por trás da imbecilidade automutiladora do «vamos ver quanto dura…», há uma ambição gloriosa. É que, para estes portugueses retintos, só o que é eterno pode ter valor. Entretanto, vão-se bebendo uns canecos, como também Platão bebia. Este ódio ao temporário é nada menos que um ódio à própria vida. A vida, como aqueles três dias de sol, também acaba passado um bocadinho. Entre as pregas do pescoço encarniçado daquele motorista havia ânsias recalcadas de imortalidade.
Outros povos (o brasileiro, por excelência) conseguem de vez em quando, viver cada momento como se fosse o único. O português também. Só que, por morbidez e teimosia, logo haveria de ser o da morte. O clima em si nada pode contra nós. Deus não pensou quando nos comprou o melhor que havia. Com os poucos tostões que Lhe restavam, regateou-nos uma mentalidade em que está sempre a chover ou um frio de rachar ou um calor que não se pode. Pouco admira que, quando nos disse «Enjoy!» em hebraico, a gente tenha percebido «Enjoem!».

Miguel Esteves Cardoso

27/10/2010

"Regresso" ao passado...

Se eu não te amar mais...


Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento

António Lobo Antunes

26/10/2010

O elevador de Santa Justa



Podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre Eiffel. Faz a experiência. Por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.

Podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
Lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
Noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a Rua Augusta,
e em Lisboa é o único a subir na vertical.

No Tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
Com o Cesário dorme a última varina, a mais robusta.
Não é para desoras o elevador de santa justa,
arrefece-lhe o esqueleto de metal,
mas tens o dia todo à luz do dia. Não faz mal.

Vasco Graça Moura

25/10/2010

Já não se vê...


Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

Eugénio de Andrade

24/10/2010

Outra voz...




Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,
na arca das lãs que só voltaria abrir no inverno.

Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto ― a outra voz.

Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais que o silêncio ― essa outra voz.


Maria do Rosário Pedreira

23/10/2010

Por onde andam os deuses?

O Estrela e a mulher... (Rua)



Como de costume, às oito, o sol começou a entrar pelo quarto dentro. Mas já não pôde, à semelhança das mais vezes, descer do peitoril da janela, inundar o soalho, subir à cama, devorar pouco a pouco a colcha branca, incendiar um naco do cobertor vermelho, e acabar por bater-lhes em cheio nas meninas dos olhos. Hoje um e logo a seguir o outro, tinham partido. Discretamente, disseram adeus àquelas quatro paredes, voltaram costas à realidade, e fecharam-se num recolhimento tão íntimo e tão persistente, que só mesmo no fundo duma sepultura. Deram-lha, então. Justamente os oito dias que durou essa mudança foram toldados. Perdido por terras distantes, nessa semana triste, o astro-rei esqueceu-se dos seus dois velhos amigos. Vinha agora bater-lhes novamente à porta. Infelizmente já não moravam ali.
- E novos ainda!... – ponderou, filosoficamente, a Berta.
- Ela sessenta e cinco, e ele sessenta e oito – precisou o Mamede, aferidor da Câmara.
- Exactamente… - confirmou o dono da casa.
Era na loja do Guerra, sapateiro. O Mamede viera saber dumas meias solas nas botas de caça; a Berta já lá estava a ver se os sapatos do homem podiam ser gaspeados; de maneira que sem darem conta encontraram-se a falar do acontecimento da semana – a morte do Estrela e da mulher.
A princípio, o que diziam avolumava apenas a sombra dos ausentes.
- Coitados!... Sem filhos, de mais a mais…
Mas pouco a pouco os mortos foram ressuscitados em cada palavra pronunciada. O poder mágico do verbo ia-os avivando nas lembranças apagadas, e todos eles, que nunca tinham pensado sequer que conheciam o Estrela e a mulher, se puseram a seguir-lhes, fascinados, os passos no mundo. Milagrosamente, viam-nos reais e palpáveis, a retomar a vida habitual, ali, no Largo da Graça.
Começou o Estrela por abrir a porta da barbearia. Era barbeiro, o Estrela. Acabavam justamente de bater as onze. Nunca saía do quarto antes. E o Amadeu, o alfaiate, que com a rosa dos alfinetes ao peito, a fita métrica ao pescoço, e uma letra vencida no bolso mourejava desde manhã cedo, não podia engolir serenamente semelhante ultraje. (…)
(…) O Estrela, esse, vestia a bata e chegava-se à porta.
- Então Deus nos dê muito bons dias!
Cumprimentava ao mesmo tempo o mundo e o seu grande amigalhaço, o Gil, latoeiro e vizinho.
- Vamos a ele, ou quê?
- Tem de ser…
Era o mata-bicho sacramental. Bastava-lhes dobrar a esquina. O Moreira parece que mandava fabricar aquela aguardente no céu. Um sinal, apenas, e os cálices apareciam cheios e perfumados sobre o balcão.
- À nossa!
- Cá vai…
Pagavam, saíam, e o taberneiro, com açúcar na urina, arrasado de bronquite, e guardado como um carneiro pela mulher, desabafava sozinho:
- Que estômagos! Que saúde! Que naturezas! Porcaria de mundo! (…)
(…)- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Barba?
- Barba e cabelo.
O violão, encostado à parede, pôs-se a mirar um canto do espelho.
- Pelos vistos, o senhor Estrela ainda lhe puxa pelo bordão!...
- Pouco. Só para matar saudades…Bons tempos! Tudo passa…
E o ano de 1896, o ano áureo do Estrela, começou a nascer na tarde morna.
- Custou-me a brincadeira oito dias à sombra. O malandro do sacristão! Era compadre dum polícia…Mas valeu a pena. O largo do Romal pareça o Terreiro do Paço. Talvez até mais bonito…
Quê?! O senhor Estrela conhecia o Terreiro do Paço?! A sério?! O Lucas, que nunca saíra da terra, parecia que estava diante dum milagre.
O Estrela teve um riso aberto de iluminado.
- Olha, olha, o Terreiro do Paço! Hã, ó Aninhas?
A D. Aninhas engrunhou-se um pouco, olhou um nadinha de lado, e começou a rir-se lá por dentro.
O Terreiro do Paço, a Mouraria, Cacilhas…Fechei o quiosque, e de comboio por aí a baixo foi o fim do mundo!
No rosto de ambos nem tudo agora eram sessenta e tantos de idade. Havia também a marca duma carícia funda da vida.
Mas a quê? A que tinham ido os dois a Lisboa?
Olharam-se ternamente, numa maliciosa cumplicidade.
- Hom’essa! (…)
(…)- Passear?!!!
- Pois!
Caladas, as moscas dançavam na sala cheia de quietude, espanto e silêncio. (…)
(…)- Passear!... – murmurou o Lucas, a remoer um pensamento fundo, de oficial de diligências.
- Olarilas! Por sinal que nos perdemos…Lembras-te, Aninhas?
- Se lembro!...
- Foi na rua… na rua… Ora deixa-me pensar… Rua do…
Mas a cabeça de ambos, nos últimos tempos, atraiçoava-os miseravelmente. Que, de resto, não era admiração nenhuma…já lá ia um par de anos…Mil novecentos e seis… Ou não? (…)
(…) Quantos dias nos demorámos ainda lá?
- Três…E se tínhamos ficado mais um, víamos o rei…
- É verdade!
- Qual?
Olharam-se ambos, numa ajuda mútua.
- Devia ser o D. Carlos… Ora em mil novecentos…
O ruído dos rodízios do relógio quebrou a data ao meio. As cinco horas vieram logo a seguir. (…)
(…) Bom homem, este Lucas! – disse por fim o Estrela, sem grande convicção.
- É…É… - repetiu, como um eco, a mulher.
A tarde caía docemente. O Estrela pegou no violão, sentou-se, e tirou dele um acorde que encheu a praça. Depois carregou a fundo na inspiração.

Se estou melhor das maleitas,
Se estou melhor das maleitas…

- Este bordão novo não presta. Ou então é do cavalete…
- Experimenta outro…
A voz dela, mansa, submissa, parecia ainda sair da loja fechada e triste.
Da sapataria via-se o largo inteiro; e, sem querer, olharam todos na direcção do 43.
- Uma verdadeira santa! – disse melancolicamente o Mamede. – Uma mulher assim faz a felicidade dum homem…
- Lá isso… - confessou, de consciência carregada, a Berta, que punha a alma negra ao marido. – Era o que o seu Manuel dissesse. Ninguém lhe conheceu outro querer. E a prova é que, apenas ele fechou os olhos, fechou os dela também. Não tinham mais que ver neste mundo.

Miguel Torga

22/10/2010

Tu e eu, meu amor...


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.
Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Manuel da Fonseca

21/10/2010

Coração sem imagens



Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu inventei-te.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

20/10/2010

Se terminar este Poema...



Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.


Maria do Rosário Pedreira

19/10/2010

Como nós... (crónicas)




De forma que espero por ti cá em baixo, ao pé dos correios do Estoril, ou passeio nas Arcadas sem olhar para o mar, desatento do jardim do Casino, indiferente aos turistas alemães cor de lagosta de viveiro e aos chapéus de palha com cerejas de baquelite das americanas idosas. Encosto-me a um murozito de pedra, o sol escorre por mim como um fio de glicerina e ponho-me a pensar no teu cabelo loiro, nos teus gestos, na tua boca, na tua maneira de falar enquanto um cão me vem cheirar as pernas porque com a idade me vou assemelhando a uma árvore antiga, a um olmo, a uma nespereira, a um tronco de ossos tristes com raízes no vento, e dos galhos das mãos nas algibeiras brotam as folhinhas de uma primavera antiga, tão antiga que se confunde com os retratos da sala no tempo em que a esperança era um país do tamanho da minha família com fronteiras de tias jovens e de beijos suspensos.
Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fica, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao domingo, espero por ti, filha, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti.
António Lobo Antunes

18/10/2010

Melodia


Este é o orvalho dos teus olhos.

Esta é a rosa dos teus vales.

O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.

Tu estás no meio,

entre a dor e o espanto da treva.

Arrancas-te ao mundo e és a perfumada

distância do mundo.

Chego sem saber, à beira dos séculos.

Despenho-me nos teus lagos quando para ti

canta o cisne mais triste.

O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas

nuvens.

Esta é a canção do teu amor.

Esta é a voz onde vive a tua canção.

As tuas lágrimas passam pela minha terra

a caminho do mar.


José Agostinho Baptista

17/10/2010

A noite é uma ausência nua...


A noite é uma ausência nua
tão pura, tão profunda, tão solene,
que só o lembrar-me das coisas
é um acto de violência.
A cada esquina do escuro
espantalhos de silêncio,
com longos braços de mãos frias,
e urros suspeitados de susto gutural, aguardam.
E pelas guaritas do céu,
as estrelas fiscalizam a submissão universal
com o olho gigante dos polícias.
Em torno das casas
negros morcegos rondam
batendo asas de pano,
só sendo também ausência me poderei aguentar.
Vou dormir.

Vergílio Ferreira

16/10/2010

Nostalgias...

canção




Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade

15/10/2010

Porque é que este sonho absurdo...


Porque é que este sonho absurdo

a que chamam realidade

não me obedece como os outros

que trago na cabeça?


Eis a grande raiva!

Misturem-na com rosas

e chamem-lhe vida.


José Gomes Ferreira

14/10/2010

Não quero viver sem ti...



Não quero viver sem ti
mais nenhum tempo.
Nem sequer um segundo
do teu sono.
Encostar-me toda a ti
eu não invento.
Tu és a minha vida
o tempo todo.

Maria Teresa Horta

12/10/2010

O homem que não é ninguém... (Lisboa contada pelos dedos)


O rio está virado e a chuva cai a cântaros. É um dia repetitivo, sem remanso, sulcado de pequenos trechos de amargura, de minúsculas teias de angústia. Percorri com humildade o meu caminho diário, desempenhei com aplicação as tarefas que me foram destinadas, cigarro pendurado no beiço, olhos ardidos, por muitas letras lidas e escritas, e penso, agora, na utilidade inútil em que se transformam as palavras que escrevo. Quem me lê? Quem nos lê? Para quem escrevemos estas frases pensadas com rapidez, sinais e signos de ideias que malbaratamos?
E aí está, sobre a minha banca de trabalho onde se atafulham folhas normalizadas, papéis delidos, canetas, recados, preocupações e avisos – e aí está a fotografia. A fotografia é a de um homem que meia Lisboa conhece, que meia Lisboa negligencia, que meia Lisboa finge ignorar, por incúria, por indiferença. Talvez por egoísmo. Isso: egoísmo. Se há uma biografia para o egoísmo, há, certamente há, uma biologia do egoísmo; do nosso egoísmo colectivo.
O homem coberto de mantas de holandilha, sujo, imundo, sórdido, asqueroso, passeia o seu autismo numa caminhada apressada, sem tino nem destino. Por debaixo das mantas sujas um corpo que se entrevê esquelético, um sexo pendente que em vão procura tapar, pés com pústulas, mãos que parecem providas de grifos, cabelos enormes, desgrenhados. Olho a fotografia e penso: se vocês fazem questão de saber, também eu, durante uma semana, tentei descobrir ou adivinhar o passado, o presente e o futuro do homem que caminha sem parar, apossado de uma demência inquieta. Um homem infausto num tempo inclemente. Abordei-o meia dúzia de vezes. Ofereci-lhe dinheiro; até pão, adquirido na padaria do Celeiro, ali mesmo na Rua 1º de Dezembro, no final das Escadinhas do Duque. Nem me olhou, fê-lo de forma subtil, de soslaio, enviesada. Falei-lhe falas banais, impelido por uma solidariedade que a rotina da profissão e as marcas do tempo jamais conseguiram fazer recuar em mim. Estacou, primeiro; recomeçou a andar, logo-logo. Uma grave apreensão emergiu, de sobreleve, no rosto esquálido. Estacou de novo; virou-se para trás, examinou o homem grisalho, céptico e rugoso que se lhe dirigia. Disse-me:
- Eu não sou ninguém.
Não o disse assim, exactamente assim. A articulação sintáctica foi outra; mas o objectivo final era comunicar-me uma afirmação fantomática: eu não sou ninguém. Nem aflita, sequer, era a afirmação. Os olhos estavam amassados e as pálpebras pandas. Pessoas estugaram o passo, caminhando para os seus objectivos irretorquíveis e certos. Pessoas cujo nome também eu não sabia, cujas vidas eram também um enigma para mim, cujas missões e destinos teriam de estar assinalados por ausências, amores, encontros e desencontros. Insisti, preso a velhas reminiscências:
- Mas você tem um nome.
Mais uma afirmativa do que uma interrogação.
Recomeçou a passeata à toa, eu atrás dele, no varejo de uma história possível. Não há histórias possíveis. Todas as histórias são impossíveis desde o momento em que se possam contar. Parou de novo. Virou-se-me e chegou-se-me tão de perto que lhe senti o bafo morno, a respiração arfante:
- Não sou ninguém. Não tenho nome. Nunca tive nome. Quer dar-me um nome? Porque é que não me dá um nome? O seu, por exemplo?...
Tive vontade de lhe dizer que levo um ror de anos a tentar comunicar com os outros. Nada. Ninguém me liga nenhuma, porque eu, afinal, também não sou ninguém, e porque as palavras que escrevo, por incompetentes e inócuas, não encontram destinatários certos. Mas nada disso falei. Tive vontade de lhe dizer que, apesar de as minhas palavras se não repercutirem em nada, em alguém, em ninguém – eu tento, tento sempre, sempre tenho tentado. Estávamos em silêncio, os dois, cada vez mais perto um do outro e, simultaneamente, cada vez mais afastados um do outro. Na minha profissão aprendi a servir-me de qualificativos para os homens. Sei lá quais!; a este homem andrajoso e imundo que adjectivo aplicar?
Acaso este: só. Ah!, como eu só, como vocês, só; como vocês – todos sós. Sós, solitários, imundos de solidão e andrajosos a ratear ternuras. Um homem só é um homem deserdado. De repente, ele sorriu. Um sorriso claro, iluminado e lento como um ritual. E rematou:
- Tenho de ir à vida…


Baptista-Bastos

11/10/2010

Fado...




Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.


A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

Estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.

Maria do Rosário Pedreira

09/10/2010

...São assim as mais pequenas histórias



[…} São assim as mais pequenas histórias do mundo. Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite – e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, nem das aves negras nos meus braços de mármore, nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo – das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre o que valeu a pena ( o mais eram os gestos que não cabiam nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse eu deixar de escrever esta manhã, o dia treme na linha dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, mas ouço-te a respirar no meu poema. Nunca te esqueci – é este um amor maior que atravessa a vida e resiste à cicatriz do tempo. O que ontem me disseste agora o ouço, como se nada tivesse interrompido a magia do instante em que as nossas bocas se aguardavam na distância de um beijo e o olhar tocava o corpo antes da mão. Se hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja lombada acariciei todos os dias que durou a tua ausência como uma nesga de sol acaricia um rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os lençóis da cama imaculados – e ainda o cão deitado à porta, à tua espera, como na véspera de partires. Porque os anos não contam para quem assim ama.


Maria do Rosário Pedreira

08/10/2010

Senhora, partem tão tristes...



Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo-Branco

Como quem escreve com sentimentos



Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo

Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar.
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar
e tê-la-á levado estranha ventania

Daqueles traços fisionómicos de pedra
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada



Ruy Belo

07/10/2010

Valsa das viúvas da pastelaria Bénard



Cada qual de cão ao colo
damos de comer ao cão
chá e migalhas de bolo
pão-de-ló de Alfezeirão.

Arejamos com o leque
calores dos 60 anos
pérolas de pechisbeque
brincos de prata ciganos.

Lá em casa convivemos
com os estalos da mobília
tristes silêncios serenos
doçuras de chá de tília.

Réstias de sol nas janelas
de cortinas desbotadas
candelabros de três velas
retratos das afilhadas.

A crueldade do espelho
vem mostrar-nos de manhã
ruínas de um corpo velho
num casaquinho de lã.

E à cabeceira da cama
o riso do falecido
garante qu'inda nos ama
por trás da placa de vidro.

Ai felicidade perdida
porque a mágoa não tem fundo
o cão ladra contra a vida
nós ladramos contra o mundo.

António Lobo Antunes

Adágio

06/10/2010

Mãe, vou-me embora...






Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.


Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.


Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.


Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

05/10/2010

Muito penhorado e à disposição de vossas excelências (A minha andorinha)


Embora esteja habituado a ser preso e, graças ao bom humor da polícia que me tem tocado, até recorde com agrado algumas detenções mais espectaculares, ainda não consegui habituar-me à componente invasiva que às vezes compreende. A facilidade com que nos entram pela casa adentro, sem danificar portas ou janelas, nunca deixa de me espantar. Será o senhorio que colabora ou terão a mãe de todas as chaves-mestras? Nunca me disseram.
Acordar com o quarto cheio de agentes, meirinhos e o ocasional juiz, todos a competir para ver quem consegue fazer a voz mais grossa, é sempre rude para um menino criado a chá, torradas e palavras mimadas. Mas está bem. Toma-se banho; veste-se uma camisa fresca e tem-se um carro à porta de casa, mais eficaz e veloz do que qualquer táxi: como eles são a polícia, respira-se conforto e segurança, por muito perigosas que sejam as manobras e velocidades com que nos transportam para o tribunal.
Convenci-me que estas invasões eram ossos do ofício de escrever em jornais e arreliar profissionalmente as gentes e, verdade se diga, até usava com vaidade este triste emblema, por ser prova do meu carácter destemido, incorruptível, irreverente e – não me neguem o acesso à palavrita – malandro.
Mal sabia eu, todo armado em veterano e vítima da luta das forças do Mal contra a liberdade da expressão, que me faltava ainda passar por outra experiência, também ela associada aos escritores e heróis da minha adolescência; ao pé da qual o ser-se meramente invadido e preso mais se parece com levar com uma multa de estacionamento.
Eu não estava preparado. E, mesmo passadas duas semanas desde o horrível episódio, ainda não estou. Perdoar-me-ão se as letras estiverem um bocado tremidas enquanto relato a aventura de ser, mais do que invadido, pior que preso: penhorado. Que é como quem diz comprado e vendido; escolhido e regateado; pesado e mexido; apalpado e grosseiramente apreçado.
O motivo não interessa muito: era uma dívida antiga de estacionamento, invocada por uma garagem aqui vizinha, que eu não só não reconheci como não paguei, claro. Referia-se esta conta a um Mercedes SLK 230 que eu já não tinha e que ainda hoje choro, cuja retoma foi tema de uma crónica minha e cuja data de publicação é a prova que eu já não tinha Mercedes nenhum, de espécie alguma, para lá estacionar durante os meses que a simpática garagem me quis cobrar. E conseguiu cobrar, com juros fanáticos – pois penhorando-me.
Acordámos nessa bela manhã com uma díspar e estranha multidão já dentro de casa. Não era a do costume: a multidão amiga, constituída pela decência de um juiz e agentes da autoridade, ansiosos apenas por me apresentar à Justiça da qual eu teimo, por sistema, em fugir.
Esta era uma maralha com um brilho guloso e triunfante nos olhos. Havia um polícia alto, daqueles que se encostam às paredes e olham para o chão, um pouco envergonhados com a situação. Chefiava a delegação uma advogada tão mal dormida como eu, a inclinar sob a tara bruta dos documentos que abraçava. Acompanhava-o um expedito e curioso funcionário, de olhar arguto, com porte e faro de premiado perdigueiro de electrodomésticos. Estes, mesmo atendendo às vis intenções, ainda se aceitariam de bom grado no nosso ninho e lar.
O que me apanhou desprevenido e me fez vacilar a marcha foi a presença casual dos garagistas; um dos quais de fato-macaco, profusamente decorado com as nódoas que são as medalhas da profissão lubrificadora. Traduzindo para palavras caras a minha fundamental interrogação humana, acerca de que merda, ao certo,, vinha a ser esta; foi-me dito que a comparência dos garagistas, como representantes da entidade credora, era não só legítima como exigida.
Tenho de dizer já que, sendo gente simpática e bem portuguesa, se comportaram, ao contrário de mim, como senhores. Terão de imaginar, se fizerem favor, o espectáculo desta trupe, de bota grossa, a passear pela minha sala para compreender porque perdi a cabeça. Estão avaliando a qualidade do televisor («É um Trinitron dos últimos!», assobia um) e o número de woofers das colunas; detêm-se com curiosidade diante da mesa de mistura de karaoke (não perguntem!), deslizando com desprezo um dos cursores; passam com os dedos pelos móveis, para mais bem se inteirarem da qualidade e da conservação das madeiras; agora fitam intensamente o valor dos dois gatos persas que, ignorantes e traidores, se lhes roçam na sarja dos fatos-macaco; sempre absortos por complexas contas de cabeça, enquanto multiplicam a estimativa dos milhares de livros e cedês por um preço espúrio e inconfessável, certamente relacionado com a Feira da Ladra, que lhes vem não sei de que educação.
Este espectáculo de ver o meu dómus transformado em loja de segunda mão para garagistas, com todo o recheio à disposição, para arrematarem ao preço que lhes apetecesse atribuir-lhe, foi de mais para a minha condição habitual de eremita.
Chocado com a maneira abjecta com que o Agostinho, sobretudo, mas também a outra persa, a Marieta, aderiram imediatamente à causa dos que tinham a faca e o queijo na mão, num frenesi colaboracionista que desmentia anos de despesas e carinhos, cheguei a dizê-los campeões, para lhes inflacionar o preço conjunto (na verdade, duzentos contos), a ver se os levavam mas era já dali para fora e não se falasse mais na dívida. Que eu e a minha mulher ficaríamos bem só com o Casimiro (dois contos) porque, sendo um Félix ordinário de Alfama e naturalmente avesso às fardas e a qualquer espécie de autoridade, tinha-se mantido escondido, petrificado de medo e leal.
Que fiz eu então? Primeiro, perdi a cabeça. Depois, caindo em mim, fiz o que faz qualquer homem adulto, com a maturidade de quase cinquenta anos: fui chamar a minha mãe.
A minha mãe pôs logo ordem naquele casbá. Tentou afastar os garagistas: «Isto é um circo?» «Porque é que não está a trabalhar?» e, imortalmente, «Isto não é uma garagem!». E, diante tal fúria, eles bem que teriam preferido correr dali para longe. Mas logo a advogada, também ela com uma paciência de santa para com a minha alevantada e furiosa família, explicou que os garagistas tinham de ficar.
Entrando na sala, perguntou logo ao avaliador, que estava sentado a avaliar furiosamente a alta fidelidade (registando-a, com grande lata, diante de um Nakamichi topo de gama, como «midi stereo tipo Sony») se era costume ele ficar sentado quando entrava uma senhora. Levantou-se imediatamente o pobre moço.
A minha mãe pediu-lhe logo explicações: « O que é que está a escrever? Quem é que lhe deu licença para estar a mexer nas coisas do meu filho?». O avaliador, amedrontado (uma reacção comum), lá começou a explicar, o melhor que podia. «Não, não!», interrompeu a Mrs. Esteves Cardoso, «Em inglês, se não se importa!».
E não é que o pobre homem, um modelo de boa educação e de terror infindo, desatou mesmo a relatar-lhe as complexidades das leis da penhora em inglês? É. E que a minha mãe, insatisfeita com a proficiência do pobre homem na língua de Byron, se põe a corrigir cada erro, como se fosse ela, e não ele, a dar a explicação?
Foi bonito de se ver, sim senhor, e não pouco me consolou, não senhora.
Tendo registado tudo o que de mais atraente havia em nossa casa, sempre atribuindo valores insultuosamente baixos (deve ser «consumer paradise» escolher o que se quer e poder fixar o preço que apetece pagar), preparavam-se já para começar a carregar a camioneta.
A memória recente da minha figura orates, gritando «Levem tudo! Tomem mais isto! Há cerveja estrangeira no frigorífico! Querem que eu dispa já estas calças de ganga?», ainda pairava no ar. A minha mãe, habituada a estes números, pediu-me para ir fazer um gin-tónico e vir aqui para o meu escritório ler um livro ou qualquer coisa. Eu, intransigente, fui. E ela lá aceitou pagar a dívida fictícia, por julgar que saía muito mais barato do que estar a comprar tudo outra vez.
Quando finalmente emergi do escritório, duas horas e três gin-tónicos mais tarde, já se tinham ido todos embora. Tinha permanecido tudo – até os sacanas dos gatos, esticados em coma, exaustos depois de tanta agitação e incerteza perante o futuro.
Não me venham por isso dizer que não é desgraça ser pobre; não me façam uma coisa dessas; porque é. Não tem graça nenhuma sabermos que as nossas coisinhas afinal não nos pertencem e que, se ainda aqui estão, é em exposição, devidamente mantidas, à espera dos próximos garagistas que por aqui aparecerem à procura de umas pechinchas e de uma visita guiada à casa de um pobre escritor desgraçado.


Miguel Esteves Cardoso

04/10/2010

Sem título e bastante breve



tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero construir
um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar

dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-se acerca
da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


Al Berto

03/10/2010

Plateia



Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.


Miguel Torga

02/10/2010

Aquele que o meu coração ama



Aquele que o meu coração ama
ergueu-se do meu leito e nele esqueceu
as repetidas promessas de um regresso
em que aos meus olhos ensinaria
a única maneira de esconder
o prenúncio de invisíveis desertos

aquele que o meu coração ama
afogou em noites de leite e mel
o rasto dos oásis que
teciam a sede do desejo no meu peito
e bebeu neles as horas de um destino que
me acenava de muito longe

aquele que o meu coração ama
partiu às cegas sem descobrir
as húmidas palavras que se espalham
à sombra dos ciprestes
contando os minutos que faltam
para a vertigem do corpo onde o aguardo

Alice Vieira

01/10/2010

Dia Mundial da Música

Sim, sei bem



Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Fernando Pessoa