30/11/2010

Dizem que a paixão o conheceu...


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

29/11/2010

Fado para a lua de Lisboa


Ó Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!

Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas...
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.

As rugas do sobressalto,
Ó Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.

Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemunha
dos fogos da Inquisição.

Procissões do Santo Ofício...
Fileiras de condenados...
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados...

Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!

Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E quando te não merecermos
não te acendas nunca mais!

David Mourão-Ferreira

25/11/2010

Receita para fazer um herói...


Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira

24/11/2010

Deita-te aqui...




Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me


também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que


quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,


dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.

Maria do Rosário Pedreira

23/11/2010

Bilhete



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana

21/11/2010

Maria Irene (crónicas)




Não pensava em si. Há séculos que não pensava em si. No fundo da minha alma estava livre de si. As coisas corriam mais ou menos
       (dá azar dizer que correm bem)
       a gente nunca sabe porque o mal é traiçoeiro mas acho que tenho tido saúde, não encontro razões de queixa do trabalho
       não é o que se espera mas vamos andando
       em casa as pessoas interessadas em mim, carinhosas, graças a Deus nas férias há dinheiro suficiente para sair de Lisboa
       (alugamos um apartamentozito no Algarve e este ano pode ser que vamos a Espanha, estava um prospecto na caixa do correio e não é caro)
       substituímos o mosaico do chão, a minha prima teve um bebé em março. De tempos a tempos passa-me uma coisa pela cabeça e escrevo um poema. Ali, na gaveta, ficou um caderno inteiro quase cheio de versos. Há quem ache que devia publicá-los mas não sei, na minha opinião são demasiado íntimos, faço-os para mim. Você não entra em nenhum deles, descanse. Não por pudor: por não pensar em si.
       À parte isso tenho mais cinco anos e afiançam-me que não mudei: o cabelo continua castanho, não dou por rugas no espelho. Talvez me canse um bocadinho a subir as escadas ao fim do dia, a seguir ao emprego, de vez em quando acordo a meio da noite: não com um sonho ou uma dor ou isso, acordo sem razão. Demoro a compreender onde estou e mal compreendo adormeço de novo. A minha prima aconselha-me a não me ralar, de modo que não me ralo assim muito. Agora, existe um vaso de zínias junto à varanda. Como eu costumo dizer é uma companhia, e desde que o gato desapareceu sabe-se lá onde havia ignoro o quê que faltava. Desde que as zínias chegaram não falta quase nada. E, pelo menos, as flores não metem as unhas no sofá nem estragam os tapetes. De quarta-feira a quarta-feira o regador e pronto.É pena que não me saltem para o colo.
       Por consequência
       (em imensas ocasiões o meu pai começava uma frase dessa maneira, sobretudo quando ia falar de política. Alargava na poltrona, subia os óculos para a testa, murmurava na direcção do tecto
       - Por consequência
e jurava que, com o governo que temos, num abrir e fechar de olhos
       expressão sua
       ficamos todos de tanga
       idem)
       por consequência não me assiste o direito
       (outra expressão dele:
       - Não te assiste o direito de me aborreceres)
       de lamentar-me seja do que for. E não me lamento. Aconteceram episódios tristes, claro, embora não me afectassem por aí além: o aneurisma da dona Ângela rebentou, a minha tia gastou uns dias aflita com uma inflamação na perna. Apesar das injecções no Posto demorou a curar. Coxeia um bocadinho, porém animada: o médico jura que para a semana, se lhe apetecer, até pode entrar na meia maratona. A minha prima gosta dele por ser o médico mais bem disposto que conhece. Esse é que meias maratonas nem sonhar: traz uma bengala derivado a uma queda em pequeno que lhe entortou o joelho. Na sala de espera percebe-se que é ele pela bota ortopédica a bater com força no chão. No outro pé usa um sapato normalíssimo, de forma que se olharmos só para baixo julga-se que o doutor é dois.
       Há outros episódios que podia mencionar porém, no essencial, devo ter contado mais ou menos tudo. Principalmente, que não pensava em si, que há muito tempo não pensava em si, que no fundo da minha alma estava livre de si. Julgava eu. Ontem, por acaso, passei na rua Dr. Taborda Viana derivado a um problema de facturas da empresa e vi-a entrar para um automóvel com uma criança ao colo. Está mais magra, levava um casaco castanho que não conheço, mudou de penteado e, no entanto, notei-a logo. A gente cuida que enterrou os sentimentos e enterra uma ova. Não a imaginava com um filho. Não a imaginava com aquela permanente. Você não deu por mim, colocou a criança nesses bancos para crianças que se encaixam nos bancos de trás dos carros e foi-se embora. Fiquei ali parado até que o meu colega disse
       - É para hoje?
       Veio-me a tentação de lhe falar de si e calei-me a tempo. Para quê? Já foi há cinco anos, não é? Despedimo-nos a bem na pastelaria, a seguir a você guardar o lenço e jurar-me que não ia chorar. Isto com dois riscos a descerem-lhe das bochechas, exactamente iguais aos que o meu colega, distraído como sempre, não viu, conforme não me viu limpar a cara à manga. Felizmente saímos da rua Dr. Taborda Viana com o problema das facturas resolvido.

António Lobo Antunes

12/11/2010

A morte...






Havia já anos que a tinhas expulsado,

fechado na cave, procurado esquecer.

Sabias que não estava na música, por isso cantavas;

sabias que não estava no silêncio, por isso te calavas;

sabias que não estava na solidão, por isso estavas só.

Que sucedeu então hoje

Para que te assustasses, como alguém

Que de repente visse, na noite,

Um raio de luz sob a porta do quarto ao lado,

Onde há tanto tempo já ninguém habita?


Eugénio de Andrade

11/11/2010

Subir o Chiado...(Chiado meu Amor)



«Quando vou ao Teatro é para ver e ser vista!»

(Velha amiga da minha Avó)



Dobrou a esquina do Rossio para a rua do Carmo, e começou a subir o Chiado…
Subir o Chiado não é só ir da Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n’A Brasileira.
Subir o Chiado, para disfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga (…)
(…) Se for no inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes Ilhéus…), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir umas luvas.
Podem até ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada (…)
(…) Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Alliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava a Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante. (…)
(…) Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável (…)
(…) Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garret (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos um “t” (…)
(…) Depois de, no Piccadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand – o que havia de histórias para contar dessa esquina…
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre na Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires – não quer dizer nesta Igraja – que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147 (…)
(…) Não estará agora na hora de tomar um café n’A Brasileira? Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco – cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo – é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n’A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraiais…
Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n’O Calcanhar de Aquiles, publicou uma magnífica caricatura representando, nessa esquina, Herculano com as suas vazilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa ainda está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo (…)
(…) local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.(…)
(…)Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu.(…)
(…) Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde disfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; Vale a pena e são só cinquenta metros. (…)
(…) Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto…
E volte sempre…há muito, muito mais para ver…

Duarte Cannavial

09/11/2010

Se a morte vier e for de noite...



Se a morte vier e for de noite, e tu estiveres
deitado a ler e a vires chegar, se o seu rosto
for branco e as suas mãos geladas, e ela
as estender para ti e te chamar pelo nome;

se o quarto subitamente arrefecer e os teus
olhos se encherem de neblina, e o ar cada
vez mais raro nos pulmões te deixar o coração
como uma ferida; e então uma voz estranha

te implorar que recordes a tua vida do avesso e
alcances de novo o paraíso materno, que é o
único naufrágio de que ninguém quer ser salvo,

acorda-me, porque quero ir no teu lugar. A luz
do mundo nunca esqueceu as tuas mãos, nem
os teus olhos experimentaram jamais a paisagem
de um quarto vazio pela manhã. Porém, se me

faltares, sei que não voltarei a amar ninguém e
a vida que negar acabará por derrotar-me. Por
isso, deixa que a morte consinta que, por uma vez,

seja meu o teu nome e me arraste nos seus braços de
cera para longe dessa cama – onde já não existe mais
nenhum romance senão o livro com que te deitas sempre.

Maria do Rosário Pedreira

08/11/2010

Noites de sangue e de silêncio


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.
Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia

07/11/2010

O Amor é o Amor...



O amor é o amor — e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
Sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos —somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?

Alexandre O’Neill

06/11/2010

Carta da árvore triste



(…)
escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devorávamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido

é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola-se-me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou-se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo
cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter-me-ia sido fatal
conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo
sinto a manhã cada segundo mais próxima
ameaçadora e cruel
a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer
arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
inventaria mesmo desculpas plausíveis
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
catástrofes
e na espera duma carta acabaria por me embebedar
beber muito e esperar
esperar
digo tudo isto mas já não te amo
(…)
Al Berto

05/11/2010

Era o último amor...


Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

Luís Filipe Castro Mendes

04/11/2010

Além do corpo...



Mais que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a alma e quero a estrela
e quero o teu prazer e a tua dor
o crepúsculo e a aurora e a caravela
para o amor que fica além do amor.

A alegria e o desastre e o não sei quê
de que fala Camões e é como água
que dos dedos se escapa e só se vê
quando o prazer se torna quase mágoa.

Estar em ti como quem de si se parte
e assim se entrega e dando não se dá
quero perder-me em ti e quero achar-te
como num corpo o corpo que não há.

Manuel Alegre

02/11/2010

Outono...



Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira