09/01/2011

Não te demores...


Não te demores – o sol anda a deitar-se sem pudor
em todos os telhados, e a luz esmorece, e o luto
da noite alonga a espera. Eu não me deito sem ti
mais nenhum dia: as memórias que se recortam nas sombras
são fantasmas perversos que caminham em círculos
como cães que perseguem a cauda enlouquecidos
ou aves encurraladas na boca escura de um túnel.

Não te demores – a solidão não se adaptou à geometria
da casa e o tecto já não resiste ao peso da tua ausência.
Se me traíste, que mo mandes dizer ainda hoje;tínhamos
combinado que iria eu à frente, por ter trato com os anjos
e melhor memória para os detalhes de qualquer longitude.
(Há um bilhete escondido no fundo de um bolso que diz
isto, tem as palavras partidas ao meio como costelas
no esqueleto da página dobrada, mas a tinta é permanente
como a promessa que fizemos um ao outro nesse dia).

Vem então buscar-me – eu já não tenho mais nenhum
espelho contigo dentro e a saudade pôs o frio à minha porta.
Sem o teu corpo, de que me vale a roupa? Se já não podes
escutar-me, de que me serve escrever? Pedi-te tanto
que guardasses os meus versos do pó que o vento espalhasse
pela casa quando eu partisse e que dissesses ao mundo inteiro
que tudo o que escrevi foi, afinal, uma longa carta a pedir
que me amasses. Mas tu nunca me amaste e eu devia sabê-lo:
o coração que batia de noite desalmado nesse corpo-cansaço
embriagou-me sempre com os perfumes mais ocultos da terra.

Maria do Rosário Pedreira

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