01/01/2011

O coração & outros frutos amargos (terceiro livro de crónicas)


       Amanhã encontro-te. Não sei onde mas encontro-te: no automóvel ao meu lado no sinal vermelho, no correio por causa de uma encomenda, na mesa, acolá, do restaurante onde almoço, numa passagem de peões, na sala de espera do dentista, seja onde for encontro-te. Não deves ter mudado muito, nenhum de nós, mesmo que tenha mudado muito, mudou muito: qualquer coisa, uma expressão, em gesto e reconheço-te logo, reconheces-me logo apesar de pintares o cabelo, apesar de eu ter engordado, noto-te a cicatriz pequenina na sobrancelha, notas-me a aliança que não queria que notasses e não conseguirei tirar a tempo, eu a esconder o dedo
       (como se esconde um dedo?)
       apesar de escondido o dedo tão ali, a aliança enorme, percebo que reparaste na aliança embora finjas não haver dado por ela, percebo a pergunta sem pergunta
       - Casaste?
       escondo mais o dedo, tento, com os outros dedos, fazer escorregar a aliança para dentro da algibeira e não consigo, o anel que trazes
       (um anel grande)
       impede-me de me certificar se tu aliança ou se tu não aliança, percebes a minha pergunta sem pergunta
       - Casaste?
       e não respondes, não me tratas por tu, tratas-me por você, estamos ambos de pé nesses coisos onde se metem moedas para estacionar o carro, cada um de nós segura uma moeda entre o indicador e o polegar, ainda que esteja à tua frente dou-te a minha vez, digo
       - Faça favor
       (esquisito o você, não?)
       o coiso não te aceita a moeda que atravessa duodenos metálicos e tomba no janelico lá em baixo, tento por ti, os intestinos soluçam, digerem a moeda, um quadrado de papel com horas impressas surge num segundo janelico à esquerda do janelico que recusava a moeda, fitas-me com admiração pela minha competência com coisos e moedas, verificas o papel para verificar seja o que for, para evitares olhar-me, aproveito para meter a minha moeda e apanhar o meu papel, por instantes
       (demasiados instantes)
       verificamos os papéis respectivos, sorris-me
       (talvez não bem um sorriso mas como explicar de outra maneira?)
       sorrio-te
       (é óbvio que não bem um sorriso mas como explicar de outra maneira?)
       sacodes o papel adiante de mim
       - Obrigada Carlos
       e de novo o sorriso não bem um sorriso a que respondo com um sorriso não bem um sorriso
       (como explicar de outra maneira?)
       apetece-me dizer-te que não mudaste muito, que não mudaste nada, no instante que ia dizer-te que não mudaste muito, não mudaste nada, dizes-me
       - Não mudaste muito
       corriges
       - Não mudaste nada
       O teu papel a acenar, o meu papel quieto, o teu papel
       (não tu)
       evidentemente que não tu, o teu papel
       - Gostei de ver-te
       o meu papel quieto, o meu papel calado, o teu papel a voltar-me as costas, a afastar-se, o meu papel
       - Luísa
       e quieto, calado, na mão da aliança e calado, nunca conheci um papel tão calado, só quando, ao procurar-te, não te achei, é que o papel
       - Sabia que nos havíamos de encontrar
       é que o papel
       - Fica-te bem o cabelo assim claro
       é que o papel com vontade de conversar contigo, pedir-te o número do telefone, escrevê-lo na agenda na letra L, a seguir a Laboratório e a Licínio, é que o papel
       (o idiota)
       -Talvez não acredites mas tenho pensado tanto em ti
       é que o papel
       (o estúpido)
       - Apesar de tudo fomos felizes não fomos?
       o cretino do papel
       (não eu)
       a perder-te, a saber que te perdia, a saber que te perdia se calhar para sempre, a saber que te perdia de certeza para sempre, é que o papel
       (o camelo)

a trotar em vão até à esquina, a conseguir tirar a aliança, já não tenho aliança, já não sou casado, é que o papel
       - Espera
       enquanto cai no chão e ele que não pense, não se iluda, não tenha a fantasia que vou apanhá-lo, quero lá saber da bodega do papel, fica para aí no chão, não me aborreças que é para ver se aprendes que quando eu amanhã
       que no caso de eu amanhã ou para o ano ou nunca encontrar a Luísa não tens o direito de me atraiçoar, não tens o direito de me deixar ficar mal, de impedir-me de voltar a ter
       (válido até às 14 e 25)
       o que há tantos anos esperava.

António Lobo Antunes

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