08/02/2011

Tira-me daqui! (para ti do fundo do coração)

Não me importa para onde, mas tira-me daqui. Finge que sabes para onde me levas. Mas tira-me daqui. Finge que queres levar-me, mas tira-me daqui. É só até descermos as sacadas. É só até à esquina da rua. Depois podes partir, ir à tua vida, não interessa, não tem importância. Mas, por favor, tira-me daqui. Não ouças as perguntas, não queiras saber dos olhares. Só quero mesmo sair a porta e fugir. Tira-me daqui para que eu possa respirar, não vês que morro sufocada? Não vês que minguo na tua frente?

Eu sei que tens pena de mim. Por isso, tira-me daqui. Deixa-me chegar à rua e desatar a correr como uma louca, sem destino, sem futuro. Preciso de sentir o vento na cara, a noite fria a lamber-me o corpo, e só isso. Não te preocupes comigo. Podes ir. Eu não sei para onde vou e o que é que isso interessa? Também não sei porque estou aqui. Vou direita ao rio. Talvez vá direita ao rio, lá em baixo no cais onde termina o casario, e me sente com o casaco a lamber o chão e as lágrimas a lamberem-me o rosto, e o Tejo a lamber as pedras.

Tira-me daqui, por favor. Não me deixes morrer assim, rodeada de gente que me ama mas não sabe quem sou, rodeada de amor cego que esqueceu tudo o que fiz, rodeada por uma enorme memória dos tempos em que eu existia. Tira-me daqui, que mais nada me interessa e não vou pedir-te mais nada, prometo. Quando te voltar a ver, se um dia me cruzar contigo, fingirei que não nos conhecemos, poupando-te o desagrado de me olhares. Também não me reconhecerás. Não sei como serei então. Não sei como é o rosto de quem é livre.


Luísa Castel-Branco

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