16/03/2011

As ilusões traídas...


Perguntas-me: de que cor são as ilusões?
E eu respondo-te que as minhas, como o título
de uma canção da moda, foram vermelhas, incendiadas,
ardentemente rubras como as vísceras latejantes
de um animal tombado aos pés de um caçador.
Eu derramei-me nas praças liquefeitas
pelas lágrimas de uma comoção profunda
como quem semeia o céu na terra
e acredita que os homens são naturalmente bons
e jura a pés juntos que o progresso é irreversível
e infinitamente justo para o futuro da humanidade.
Eu atravessei de braço dado o dédalo das ruas
onde as palavras eram certeiras e metálicas
como os gumes das adagas dos berbéres
e acreditei que, no meio de gente assim,
não podia haver mentira nem traição,
sequer remorso ou culpa,
e que pensar de outro modo era muito pior
que a danação do pecado e que a descida aos infernos.
O deus dessas ilusões não tinha rosto nem cheiro,
mas tinha nome e luz própria e vestia a ganga proletária
de todas as crenças que resgatam o homem em vez da alma.
As ilusões nunca tiveram o gosto do poder,
porque eram generosas e inocentes
e porque tinham somente como horizonte e destino
o bem de todos assente no sacrifício de quase todos.
Um dia fechei o livro e deixei secar lá dentro
A última pétala rubra das minhas ilusões vencidas, traídas.
Mas nunca esqueci ou esquecerei a ilusão da felicidade
que esse tempo enganador deixou em tudo o que vivi.


José Jorge Letria

Sem comentários:

Enviar um comentário