04/03/2011

Catorze Letras (efeito borboleta e outras histórias)

No momento em que V perdeu o controlo do Renault Laguna, na A1, perto da saída para Leiria, N estava a assinar, na FNAC do Centro Comercial Colombo, dezenas de exemplares do seu último livro de auto – ajuda: Aquela Súbita Luz. Enquanto R assiste, num camarote VIP, aos últimos minutos de um jogo do Manchester United com o Arsenal, em Old Trafford, B entra numa carruagem de metro, na estação do Colégio Militar, a tempo de ver alguns elementos da claque No Name Boys que desenroscam lâmpadas, gritam obscenidades e exibem, com esgares simiescos, as suas tatuagens e barras de ferro. No pátio da prisão, junto ao gradeamento, D olha para a Lua, em quarto decrescente no céu do fim da tarde, e imagina como estará G tantos anos depois (longe dali, muito longe dali, G coze batatas para o jantar, com os olhos parados na água que ferve, sem saber porque lhe vieram de repente à cabeça versos japoneses, um haiku que fala da neve e de árvores com pétalas vermelhas iluminadas pelo luar, poema dito há tantos anos por uma boca – os lábios finos de D, entreabertos – que as encruzilhadas da vida foram afastando). Sobre o Pacífico, num voo para Tóquio, A tenta dormir mas não consegue porque os passageiros do lado, um casal de holandeses reformados, falam animadamente sobre uma nova fadista que ouviram ao vivo em Roterdão, 15 dias antes, e que está ali, nas páginas da revista oferecidas pela Japan Airlines, chama-se H e ao vê-la em pose, junto à Casa dos Bicos, numa fotografia cheia de filtros dourados, A reconhece-a e não consegue conter a tristeza, muito menos as lágrimas. Quando a voz de H parece que se deixa cair, a meio de uma canção, num requebro que leva ao êxtase o público do Coliseu, P telefona a T e a melancolia das guitarras espalha-se pela casa, chegando como que em surdina ao terraço onde E, abraçado à garrafa de gin, decifra as constelações sobre o mar de Lagos. Perdido nos seus sonhos de grandeza, M não tem a lucidez suficiente para compreender que o seu Sistema, o tratado filosófico a que dedicou a vida inteira, nunca será mais do que é agora: um aglomerado de ideias dispersas, sem centro nem circunferência, espalhadas por rascunhos que ninguém compreende (nem compreenderá). É C quem lhe diz a verdade, olhos nos olhos, depois de o salvar do desespero e do excesso de comprimidos. Na sombra, X conta os minutos, junto ao telefone que não chegará a tocar.

V, N, R, B, D, G, A, H, P, T, E, M, C, X. Só eu os conheço a todos. Só eu distingo, visto de cima, o esquema que formam. Apareceram sem que os chamasse e quis transformá-los em literatura. Catorze letras, catorze incógnitas, código escrito a dissolver-se numa aflita mancha de palavras.


José Mário Silva

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