10/04/2011

Com os olhos apagados


Há amigos que morrem gelados e magros
Como prisioneiros da mais sórdida das guerras.
Quase que nos imploram,quase que nos exigem
a dádiva de uma morte que ponha fim à dor.
Os braços cruzam-se, as lágrimas adiam-se
e a morte vai cavando os seus sulcos,
fazendo, com vagar de artífice, a sua faina.
As mulheres choram à luz ténue das candeias
e antecipam a morte com as preces,
com as suas promessas de coragem, de firmeza
no momento inequívoco da verdade. É assim a vida,
já o disse. É assim a morte, já o disse.
E o corpo que resiste ao sofrimento
é uma ruína pálida, um escombro, um nada
que se agarra a tudo, sofregamente,
como se a esperança fosse um soro gotejante
a depositar nas veias o que resta de um dia de sol.
Aquele que sofre torna-se metade do que foi,
um terço, uma sombra, um insulto a si próprio,
mas resiste, porque a esperança, dizem,
é sempre a última a morrer, e é também
o mais desnorteante dos sobreviventes,
porque não dá vida, mas finge que a dá.
Um dia o corpo amanhece com os olhos apagados
e só resta um soluço abafado antes de descer o pano.

José Jorge Letria

1 comentário:

  1. Que a esperança se mantenha verde e viva.

    José Jorge Letria, sempre uma escolha acertada.

    L.B.

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