15/06/2011

Grito




De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia
cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

 De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóbada inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansasse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluído lentamente
no mais plácido
silêncio
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito da revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

José Fanha

2 comentários:

  1. Olá, Brisa:
    FANHA não só escreve como também "diz" muito bem Poesia!
    Somos um País de Poetas, essa é que é a verdade!
    E... EXCELENTES!
    Não podíamos "acompanhar" os Políticos em tudo o que fazem... fazem MAL e a destempo, normalmente! E a JUSTIÇA, e a Educação, etc, etc...
    Valha-nos "estes momentos" de Fanha, Ary, O'Neill, Pessoa, Mourão-Ferreira e tantos mais!...
    Fica bem, Amiga.
    Abração do
    Rui

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  2. e dizes tu qu eue nao sabes escrever? modéstia!
    por aqui respira-se poesia kis .=)

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