11/06/2011

Não abras as gavetas onde a memória se arrumou



Há muito que perdi a caligrafia despenteada
das cartas adolescentes que te escrevia   e onde
dava o teu nome a tudo o que seria
pensava eu    eterno

 depois o tempo veio ensinar-me
outras maneiras de nomear o mundo e os objectos que
delimitavam as fronteiras do quarto
e de tudo o que era
pensava eu    indestrutível

e fui deixando a marca da minha língua
em lençóis e lugares que se desfizeram
ao primeiro rumor de tempestade

salvei apenas
uma palavra

que uma noite te há-de encontrar entre
os muros de todas as cidades que
apenas os nossos nomes

saberão responder    porque
nelas nascemos e desaparecemos     e ninguém mais
terá a senha que a elas conduz

uma palavra única    transparente     volátil
que te prenda definitivamente ao rumor
das madrugadas que em ti a minha sede
há-de    para sempre    prolongar

como se fosse junho
e tu voltasses

Alice Vieira

Sem comentários:

Enviar um comentário