30/01/2011

Em defesa das avós


       Dei comigo há dias a assistir a um programa, destinado ao público feminino, onde se fazia, mais uma vez, a recorrente afirmação de que não há melhor infantário nem escola infantil do que a casa dos avós. Confesso que acho estranho que, num tempo em que as avós são cada vez mais novas, e cada vez mais activas, não se ergam vozes feministas a contrariar essa peregrina ideia de avó-fada-do-lar.

Parece que ser mulher, com todos os seus direitos, e no pleno gozo das suas capacidades, tem prazo de validade.
       Ficar em casa a tratar de marido e filhos – isso nunca.
       Ficar em casa a tratar de marido e netos – parece quase um dever.
      Claro que não estou a falar destes terríveis tempos de crise que atravessamos, em que é preciso cortar despesas e a casa da avó é mais barata que um infantário. Mas isso é uma solução de recurso, uma emergência.
       Mas quem falava naquele programa, não falava de crise.
       Falava do melhor para as crianças. Em todos os tempos.
       Como se sabe, nem sequer é o melhor para as crianças que, desde pequeninas, precisam de regras, de aprender a viver com os outros, e de entenderem que não são o centro do Mundo.
       E se não é o melhor para as crianças, muito menos o é para as avós.
       Que, tal como as mães, trabalham.
       Que, tal como as mães, contribuem para fazer progredir este país.
       Quando se diz que as mães trabalham fora de casa, toda a gente acha normal e louvável, pois claro!, já lá vai o tempo de ser doméstica!
       Mas quando uma avó explica que não pode, por muito que os ame de paixão, ficar com os netos em casa, porque sai às 8 da manhã e só volta às 8 da noite, ou porque tem um trabalho para entregar, todos olham para ela como se estivessem diante de uma aberração da natureza.
       E era aí que eu gostava de ver as feministas saírem em sua defesa. Mas não saem.
       Se calhar porque também elas precisam de alguém a quem deixar as crianças
.
Alice Vieira (escritora)
“Jornal de Notícias”
Janeiro de 2011

25/01/2011

O Amor bate na porta


Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não posso compreender...

Carlos Drummond de Andrade

23/01/2011

Um pouco de Ternura


Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.

Baptista Bastos

21/01/2011

Desavinda ...




Desordenada comigo
oponho o corpo ao destino
como quem veste o vestido e o despe em desatino

Desavinda com o sossego
ponho a nudez onde acendo
o grito do meu prazer
que ora prendo ora desvendo

Maria Teresa Horta

19/01/2011

Canção com lágrimas e sol

Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.
Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol: o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.
Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão de Maio
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.
Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.
Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa viúva (com lágrimas com lágrimas).
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Manuel Alegre

18/01/2011

ARY dos SANTOS (18 Janeiro de 1984)

    " Não parava. Nunca parou. Não há memória de o Ary vez alguma ter parado. A não ser agora: por motivos de força maior. "

19 de Janeiro de 1984
Baptista Bastos

SONATA DE OUTONO (escrito dois dias antes da sua morte)

Inverno não é índa mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Poeta distraído, cão sem dono
Até na própria cama em que me deito

Inverno não é índa mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Mesmo eu de mim próprio me abandono
Se o rigor que me devo não respeito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Morro de pé
Mas morro devagar
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

Não me deixo ficar
Não pode ser
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer

A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

José Carlos Ary Dos Santos

16/01/2011

Sinais que no amor se adiantam...


No teu olhar se esfuma e desvanece
A cidade onde o corpo por enquanto é preciso.
É quando a outra face do luar aparece
E o balir das ovelhas tem o som do meu riso.
Para tapar meu seio já nenhum astro tece
A roupa com que outrora saí do paraíso.
O pudor é da terra. Só por isso anoitece
E a nudez dos amantes é não darem por isso.
A semente do filho que em nós amadurece
Trouxe-a no bico a pomba que o seu reino prepara.
Por isso na cidade já ninguém nos
conhece
Pois que ambos trazemos esse filho na cara.

Natália Correia

15/01/2011

Um beijo...


Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prémio e meu castigo,
baptismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....

Olavo Bilac

11/01/2011

Presença



Cheio da tua ausência,
Nem sinto a solidão.
Vida, mulher ou mãe,
Feminina saudade,
Enche-me a paz que tem
A morte, a viuvez e a orfandade.


Negativo do amor,
E sua face ainda,
O já não ser amado
È uma pena suspensa
Que liga eternamente o condenado
Ao juiz da sentença.


Triste convívio, basta-me, contudo
Todo de luto, mudo,
Cumpro os deveres humanos,
Limpo o suor da testa,
E atravesso os anos
Fiel ao desespero que me resta.

Miguel Torga

09/01/2011

Não te demores...


Não te demores – o sol anda a deitar-se sem pudor
em todos os telhados, e a luz esmorece, e o luto
da noite alonga a espera. Eu não me deito sem ti
mais nenhum dia: as memórias que se recortam nas sombras
são fantasmas perversos que caminham em círculos
como cães que perseguem a cauda enlouquecidos
ou aves encurraladas na boca escura de um túnel.

Não te demores – a solidão não se adaptou à geometria
da casa e o tecto já não resiste ao peso da tua ausência.
Se me traíste, que mo mandes dizer ainda hoje;tínhamos
combinado que iria eu à frente, por ter trato com os anjos
e melhor memória para os detalhes de qualquer longitude.
(Há um bilhete escondido no fundo de um bolso que diz
isto, tem as palavras partidas ao meio como costelas
no esqueleto da página dobrada, mas a tinta é permanente
como a promessa que fizemos um ao outro nesse dia).

Vem então buscar-me – eu já não tenho mais nenhum
espelho contigo dentro e a saudade pôs o frio à minha porta.
Sem o teu corpo, de que me vale a roupa? Se já não podes
escutar-me, de que me serve escrever? Pedi-te tanto
que guardasses os meus versos do pó que o vento espalhasse
pela casa quando eu partisse e que dissesses ao mundo inteiro
que tudo o que escrevi foi, afinal, uma longa carta a pedir
que me amasses. Mas tu nunca me amaste e eu devia sabê-lo:
o coração que batia de noite desalmado nesse corpo-cansaço
embriagou-me sempre com os perfumes mais ocultos da terra.

Maria do Rosário Pedreira

06/01/2011

Carta a João Gaspar Simões


(…) O sino da minha aldeia, Gaspar Simões, é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de S. Carlos, hoje do Directório, e a casa em que nasci foi aquela onde mais tarde (no segundo andar, eu nasci no quarto) haveria de instalar-se o Directório Republicano. (Nota: a casa estava condenada a ser notável, mas oxalá o 4º andar dê melhor resultado que o 2º).
 (…)


Fernando Pessoa

05/01/2011

Não te amo...



Não te amo, quero-te: o amor vem d’alma.
E eu n’alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

Almeida Garret

03/01/2011

Nada me pertenceu... (O canto do vento nos ciprestes)



(…) Todas as coisas que a casa guardou quando partiste não
me pertenceram; porque, ao tocar-lhes nos dias mais
cinzentos, sinto que é pelo calor dos teus dedos que ainda
gritam; e mesmo a cama onde só o teu corpo era bem-vindo
nunca chegou a ser inteiramente minha, pois, de contrário,
encontraria nela o meu lugar, e não o teu vazio.
(...)

Maria do Rosário Pedreira

01/01/2011

O coração & outros frutos amargos (terceiro livro de crónicas)


       Amanhã encontro-te. Não sei onde mas encontro-te: no automóvel ao meu lado no sinal vermelho, no correio por causa de uma encomenda, na mesa, acolá, do restaurante onde almoço, numa passagem de peões, na sala de espera do dentista, seja onde for encontro-te. Não deves ter mudado muito, nenhum de nós, mesmo que tenha mudado muito, mudou muito: qualquer coisa, uma expressão, em gesto e reconheço-te logo, reconheces-me logo apesar de pintares o cabelo, apesar de eu ter engordado, noto-te a cicatriz pequenina na sobrancelha, notas-me a aliança que não queria que notasses e não conseguirei tirar a tempo, eu a esconder o dedo
       (como se esconde um dedo?)
       apesar de escondido o dedo tão ali, a aliança enorme, percebo que reparaste na aliança embora finjas não haver dado por ela, percebo a pergunta sem pergunta
       - Casaste?
       escondo mais o dedo, tento, com os outros dedos, fazer escorregar a aliança para dentro da algibeira e não consigo, o anel que trazes
       (um anel grande)
       impede-me de me certificar se tu aliança ou se tu não aliança, percebes a minha pergunta sem pergunta
       - Casaste?
       e não respondes, não me tratas por tu, tratas-me por você, estamos ambos de pé nesses coisos onde se metem moedas para estacionar o carro, cada um de nós segura uma moeda entre o indicador e o polegar, ainda que esteja à tua frente dou-te a minha vez, digo
       - Faça favor
       (esquisito o você, não?)
       o coiso não te aceita a moeda que atravessa duodenos metálicos e tomba no janelico lá em baixo, tento por ti, os intestinos soluçam, digerem a moeda, um quadrado de papel com horas impressas surge num segundo janelico à esquerda do janelico que recusava a moeda, fitas-me com admiração pela minha competência com coisos e moedas, verificas o papel para verificar seja o que for, para evitares olhar-me, aproveito para meter a minha moeda e apanhar o meu papel, por instantes
       (demasiados instantes)
       verificamos os papéis respectivos, sorris-me
       (talvez não bem um sorriso mas como explicar de outra maneira?)
       sorrio-te
       (é óbvio que não bem um sorriso mas como explicar de outra maneira?)
       sacodes o papel adiante de mim
       - Obrigada Carlos
       e de novo o sorriso não bem um sorriso a que respondo com um sorriso não bem um sorriso
       (como explicar de outra maneira?)
       apetece-me dizer-te que não mudaste muito, que não mudaste nada, no instante que ia dizer-te que não mudaste muito, não mudaste nada, dizes-me
       - Não mudaste muito
       corriges
       - Não mudaste nada
       O teu papel a acenar, o meu papel quieto, o teu papel
       (não tu)
       evidentemente que não tu, o teu papel
       - Gostei de ver-te
       o meu papel quieto, o meu papel calado, o teu papel a voltar-me as costas, a afastar-se, o meu papel
       - Luísa
       e quieto, calado, na mão da aliança e calado, nunca conheci um papel tão calado, só quando, ao procurar-te, não te achei, é que o papel
       - Sabia que nos havíamos de encontrar
       é que o papel
       - Fica-te bem o cabelo assim claro
       é que o papel com vontade de conversar contigo, pedir-te o número do telefone, escrevê-lo na agenda na letra L, a seguir a Laboratório e a Licínio, é que o papel
       (o idiota)
       -Talvez não acredites mas tenho pensado tanto em ti
       é que o papel
       (o estúpido)
       - Apesar de tudo fomos felizes não fomos?
       o cretino do papel
       (não eu)
       a perder-te, a saber que te perdia, a saber que te perdia se calhar para sempre, a saber que te perdia de certeza para sempre, é que o papel
       (o camelo)

a trotar em vão até à esquina, a conseguir tirar a aliança, já não tenho aliança, já não sou casado, é que o papel
       - Espera
       enquanto cai no chão e ele que não pense, não se iluda, não tenha a fantasia que vou apanhá-lo, quero lá saber da bodega do papel, fica para aí no chão, não me aborreças que é para ver se aprendes que quando eu amanhã
       que no caso de eu amanhã ou para o ano ou nunca encontrar a Luísa não tens o direito de me atraiçoar, não tens o direito de me deixar ficar mal, de impedir-me de voltar a ter
       (válido até às 14 e 25)
       o que há tantos anos esperava.

António Lobo Antunes