26/02/2011

Tentativa



Uma flor de silêncio
sela a minha boca.

Um peso de chumbo
aprisiona os meus gestos.

Só o voo dos meus olhos
te persegue
e tenta
trazer-te até mim.

Luísa Dacosta

25/02/2011

Fado - candidato a Património Cultural Imaterial da Humanidade





"Quando canto um fado, seja em Lisboa ou Buenos Aires (...), sinto-me alguém que canta sentimentos do Mundo, tão válidos numa taberna do Cais do Sodré como no abrigo de montanha de uma cordilheira nepalesa. Por isso o fado será naturalmente património da humanidade".
Cristina Branco

A ROSA



Tenho uma rosa toda
Aberta na minha mão.
Só uma rosa. À roda
Nem folhas nem espinhos dão.

Tenho uma rosa.
Ter uma rosa
É muito. E tê-la,
Como eu a tenho já,
É vê-la
E bem saber que chão a dá.

Já sensação de rosa, e a tarde
Toda passada como flor
Ao que na rosa arde,
Ao seu tamanho e ao seu amor.

Já minha mão como se rosa
Houvesse sido a recebê-la,
E nada mais do que uma rosa
A própria vida e o revivê-la.

Ali aberta, a sua entrega
É dar-se pelo que fora
E o não saber se o perfumar
A minha vida melhora.
(A rosa que não se nega
Seja por alma do mar!)

Exactamente rosa, toda
Como são rosas que não vêm
Senão vierem para toda a boda
Que uma só vez nossa alma tem.

Vitorino Nemésio

21/02/2011

Onde estás? (para ti do fundo do meu coração)



(…) Ouço as tuas palavras sussurradas nos meus ouvidos, e não estás aqui, ninguém está aqui a não ser eu e a minha solidão. Ah! Doem-me partes do corpo que eu não sabia ter, a alma fugiu-me e nunca mais a vi. Estou tão nua como uma criança acabada de nascer e erro pelos dias, pelas noites, numa enorme confusão entre memórias do que fomos e o que nunca aconteceu e eu sonhei.
Estou tão cansada…(…)

Luísa Castel-Branco

19/02/2011

Um português...

       José e Pilar, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, está nomeado para o Grande Prémio do Cinema Brasileiro na categoria de documentário.
       A esta nomeação junta-se uma outra, de âmbito nacional, para os Prémios Autores 2011 atribuída pela Sociedade Portuguesa de Autores.

Fonte: Jornal Público

16/02/2011

Fidalgos, queques e betinhos...


Os Portugueses têm algo de figadal contra todos os que tenham algo de fidalgal. Como as crianças, confundem muito a fidalguia, que é uma simples condição social, com a aristocracia, que é um sistema político em que o poder pertence aos nobres. E, no entanto, como diria Chesterton, não há mérito automático em ser fidalgo, nem vergonha em pertencer decididamente (como eu) à ralé.

Em Portugal a nossa civilização deve muito a duas classes minoritárias. Ambas são gente simples, com posses reduzidas e educação informal. Refiro-me, obviamente, à plebe e à nobreza. O pretensiosismo dominante, seja proletário ou possidónio, seja triunfalista ou disfarçado, encontra-se nas classes restantes, que constituem a grande maioria da população. Mas um pastor ou um pescador é tão senhor como um fidalgo. Como ele, vê o mundo de uma maneira antiga, em que cada coisa tem o seu lugar, o seu sentido e o seu valor. O pior é o operariado, a pequena, média e alta burguesia: enfim, quase toda a gente. É esta gente que se preocupa com a classe a que pertence. Enquanto o pastor e o visconde se ocupam, os outros preocupam-se. Os primeiros não querem ser o que não são. Os outros adorariam. Os primeiros aceitam o que são, sem vaidade. Os outros têm sempre um bocadinho de vergonha e por isso disfarçam, parecendo vaidosos.

Quem é fidalgo e quem é que quer ser?

Em Portugal existem três classes distintas. Há a classe dos fidalgos – os meninos “bem”. E depois há duas classes falsamente afidalgadas. Há os meninos “queques”, filhos de pais “queques” mas com avós que não. E há os “betinhos”, filhos de pais que, simplesmente, não.

O “menino bem” é aquele que não sabe muito bem em que século começou a fortuna da família. Geralmente é pobre, com a consolação irritante do passado rico. É muito bem-educado e jamais se lembraria de lembrar aos outros que é “bem”. O “queque” sabe perfeitamente que foi o avô ou o bisavô que abriu a fábrica ou a loja que enriqueceu a família. Geralmente é bastante rico. Embora tenha frequentado os colégios correctos, tem sempre um enorme complexo de inferioridade em relação aos “meninos bem”, o que o leva a fazer-se mais do que é. De bom grado trocaria grande parte da sua fortuna pela antiguidade e pelo prestígio de um bom título.

Finalmente, o “betinho” é aquele cujo pai nasceu pobre, indesmentivelmente operário. O betinho procura dar-se, em vão, com queques e meninos bem, mas a sua educação é formal e institucional, não familiar. É o mais rico de todos, mas é também o mais envergonhado. O betinho por excelência é aquele que não suporta a vergonha de um pai nascido entre o povaréu. Evita apresentá-lo aos amigos. Tudo faz para ocultar a sua proximidade genealógica ao vulgacho.

Tanto o queque como o betinho são o resultado de self-made man, homens que se levantaram pelas próprias mãos, quantas vezes rudes e calejadas e tudo o mais. O menino bem, em contrapartida, nem sequer compreende o conceito de self-made man. Porque é que um homem se há-de “fazer a si próprio” quando houve sempre pessoal, criados e caseiros, para se ocupar dessas tarefas desagradáveis?

Distinguem-se em tudo. A falar, por exemplo. O menino bem usa todas as formas de tratamento, desde “a menina” – A menina vai levar o Jorge ou vai sozinha no Volvo? – até ao “Psst, tu que fumas”.

O queque, por ser menos seguro, trata toda a gente por “Você”, incluindo os criados e as crianças (o que não é correcto, mas parece). O betinho, a esse respeito, está em absoluta autogestão. Tenta tratar mal aqueles que considera inferiores (demasiado mal) e bem aqueles que considera superiores (demasiado bem). No fundo é um labrego engraxado que julga sinal de aristocracia dizer os erres como se fossem guês.

O que caracteriza o menino bem é o seu total à vontade no mundo. Nunca se enerva, nunca hesita, nunca está muito preocupado. Haja ou não dinheiro. O menino bem dá-se bem com a pobreza e encara o sobe e desce da sorte com a naturalidade com que aceita a circulação do sangue pelas veias. Por isso dá-se bem com toda a gente. Nada tem a perder ou a ganhar.

Os queques não são assim. Pensam que nasceram para o brilho baço do privilégio. Vivem obcecados pelo dinheiro já que é o dinheiro que lhes permite comprar todos aqueles adereços (relógios Rolex, automóveis Porsche) que consideram indispensáveis ao seu estatuto social. Um menino bem, em contrapartida, nunca usa relógio – porque é que há-de querer saber as horas? O queque só se dá com pessoas “do seu meio”. Enquanto o menino bem tem aquele rapport feudal com caseiros, varinas e pedreiros, que constitui uma forma multissecular de intimidade, o queque aflige-se em “manter as distâncias” com esse gentião, precisamente por serem tão curtas.

O betinho é uma pilha de nervos. Ninguém o respeita. Dá-se quase exclusivamente com outros betinhos, do mesmo ramo de importação de electrodomésticos ou da construção civil. Não gostam de sair da sua zona. Os de Lisboa, por exemplo, só quando há uma emergência é que saem do Restelo. Ao contrário dos queques, evitam falar em dinheiro porque se sentem comprometidos. Esforçam-se mais por serem meninos bem do que os queques, que julgam já serem meninos bem. Andam sempre vestidos pelas lojas mais tradicionais (camisa aos quadradinhos, casaquinho de malha, jeans novinhos e mocassins pretos com correiazinha de prata ou berloques de cabedal), ao passo que os queques compram roupa mais moderna na boutique da moda. Escusado será dizer que os autênticos meninos bem andam sempre mal vestidos, com a camisola velha do pai e as calças coçadas do irmão mais velho. A única diferença é que as camisolas e as calças que têm em casa duram cem anos. Os avós já compram camisas a pensar que hão-de servir aos netos. Aliás, os fidalgos são sempre mais forretas que a escória.

No que toca aos hábitos alimentares, os meninos bem comem sempre em casa. Como as famílias são geralmente muito grandes (de resto, como sucede com o populacho), a comida é quase sempre do tipo rancho, ou sempre servida com muito puré de batata.

Os queques estão sempre a almoçar e a jantar fora, em grupos grandes com muitos rapazes e raparigas a exclamar: “Ai, já não há pachorra para o quiche lorraine!” Aqui se denunciam as suas verdadeiras origens sociais. Para um menino bem, comer fora é uma espécie de solução de emergência, quando não dá jeito comer em casa. Para um queque é um prazer.

Nas casas bem, a qualquer hora do dia, há sempre uma refeição a ser servida a um número altamente variável de crianças, primos, criadas, motoristas, tias, etc.

Nas casas queques as refeições variam conforme os convidados. Nas bem são sempre rigorosamente iguais. Os queques têm a mania dos restaurantes – conhecem-nos tão bem como os meninos bem conhecem (e odeiam) as cozinheiras. E os betinhos? Os betinhos tentam evitar as refeições o mais possível. Comem sozinhos em casa (os betinhos tendem a ser filhos únicos) ou levam betinhas a jantar. Porquê? Porque têm a paranóia de serem “descobertos” através dos modos de estar à mesa. Mas, na verdade, só são descobertos pelo seu excesso de boas maneiras. Um betinho à mesa está sempre “rijo”, atento, receoso de tirar uma azeitona por causa do terror de não saber lidar com o caroço. Os queques comportam-se como animais, espetando garfos nas mãos estendidas dos outros, soprando pela palhinha para fazer bolinhas no Sprite e atirando os caroços para martirizar o cocker spaniel. Quanto aos meninos bem, encaram as refeições como uma simples necessidade fisiológica. Comem e calam-se. Falam só para dizer “passa a manteiga” ou “Parece que houve uma revolução popular em Lisboa, passa a manteiga”.

Não são, portanto, os fidalgos que dão mau nome à fidalguia – são os queques e betinhos. Estes cultivam ridiculamente os “brasões” e as “quintas”, fingindo que não gostam de falar nisso. Em contrapartida, nas casas fidalgas, os filhos das criadas experimentam os lápis de cera nos retratos a óleo dos antepassados. E ninguém liga...

Miguel Esteves Cardoso

 Os meus Problemas
Fonte: Real Associação da Beira Litoral

14/02/2011

O amor


 Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por  isso,com
a pressão súbtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.

Nuno Júdice

12/02/2011

Quem te deu licença de morrer?

Agora já não lhe batem, nem dá banho ao polegar em nenhuma sopa. Porque é que a sua morte me entristece? Por ele, claro, mas por mim também. Por ele, dado que o Pontinha apreciava viver, mesmo no meio da aflição dos seus dias. Por mim, pelo facto de o meu mundo se ir despovoando. Não me agrada que me roubem o passado, me depenem de recordações, memórias, torradas, panos sujos"

Soube ontem que o Pontinha morreu em agosto. Era pobre demais para que alguém se interessasse por ele, falasse dele. Viva na franja da miséria, com uma reforma ridícula, que tentava melhorar engraxando sapatos, aos domingos, no Campo Grande. Nunca o vi maldisposto, nunca o ouvi queixar-se. Aceitava. Foi ordenança da messe de oficiais em Marimba, cortava-me a comida em bocadinhos de dois por três centímetros, que eu conferia com uma fita métrica, no pretexto do tamanho da minha goela. Um milímetro a mais e soltava um berro

- Pontinha

mostrando-lhe, de dedo apontado, que não cabia. O Pontinha levava aquilo para dentro e procedia a novas medições. No encontro anual da Companhia fazia questão de me preparar o almoço, às vezes mandava-o sentar-se ao meu lado e o Pontinha, impante, designando os outros soldados

- Mijam-se todos de inveja de eu estar aqui à sua beira

a triunfar, radiante de júbilo, torto, feio, feliz. Não usava arma, trazia um pano sujo pendurado do ombro. A higiene não era o forte dele mas, na desgraça em que vivíamos, quem se ralava com isso? Várias vezes lhe ordenei

- Tira o polegar da minha sopa

O Pontinha tirava, chupava-o, perguntava-me

- Já está limpo, não está?

e, sem dar por isso, metia-o lá dentro outra vez. No meio daquela água chilra distinguia-lhe o cuspo, e engolia o polegar, água morna e alguns feijões. À tarde, se estava no aquartelamento, pedia-lhe chá e torradas, mais duras que os meus dentes, com uma leve sombra de manteiga em cima. Quanto ao chá sabia, em partes iguais, a borras de café e a Pontinha. O Pontinha era atirador, mas como a sua coragem se mostrava um bocado vacilante passou para a messe, um casinhoto horrível, diante do pau da bandeira e das trovoadas. O segundo comandante, de quem eu gostava

- Porque é que vocês têm aqui esta coisa?

fitando o Pontinha num desgosto à beira das lágrimas, e no entanto mantivemo-lo firme, com a sua sujidade e os seus dentes mal plantados, porque o Pontinha era tão mau que se tornava esplêndido e dava um vago colorido às nossas tristes existências. Acho que acabámos por ter uma certa ternura por ele

(que palavra tão esquisita na guerra, ternura)

e nos comovia o seu desamparo. Se calhar ele também tinha uma certa ternura por nós e comovia-o o nosso desamparo. Epidemias de cólera, solidão, saudades. Só o Pontinha se me afigurava contente no meio dos seus tachos em desordem: servir os senhores oficiais, que privilégio. E este agosto morreu. Nos encontros da companhia admitia que a mulher lhe dava porrada:

- E tu?

o Pontinha, convicto

- Lá lhe vou batendo também

mas menos que ela, mais desembaraçada no bofetão. Não parecia sofrer com essas lutas, orgulhava-se sinceramente da ferocidade da esposa:

- Não é para graças

exultava ele

- Não é para graças

orgulhoso da sua padeira de Aljubarrota, que lhe ficava com o dinheiro porque o Pontinha sofria de inclinações para o tinto. Na última ocasião não veio, alguém comentou vagamente

- Parece que não está muito bem

e não sei quê nos ossos enfiou-o numa caixa. Agora já não lhe batem, nem dá banho ao polegar em nenhuma sopa. Porque é que a sua morte me entristece? Por ele, claro, mas por mim também. Por ele, dado que o Pontinha apreciava viver, mesmo no meio da aflição dos seus dias. Por mim, pelo facto de o meu mundo se ir despovoando. Não me agrada que me roubem o passado, me depenem de recordações, memórias, torradas, panos sujos. Apetece-me berrar

- Pontinha

e o Pontinha vir a correr, relativamente a correr visto que a pressa não fazia parte das suas características, suspender-se no limiar com o pano sujo, interrogar

- É o lanchinho senhor doutor?

(não me tratava pelo posto, tratava-me por

- Senhor doutor)

e proceder, num imenso chinfrim de metais, à confeção das suas fatias de granito. Apetece-me inquirir

- Enfiaste o dedo na caneca do chá?

escutar de volta

- Quer que prove a ver se tem bastante açúcar?

Uivar-lhe

- Não

com o Pontinha já a sorver um golo, chamar-lhe

- Seu cabrão

e no fundo achar graça a tanto desvelo maternal, tanto cuidado. Há anos anunciou-me

- Você precisa é que vá para sua casa tomar conta de si

e quase estive de acordo com ele. Insistiu

- Não quer que vá para sua casa tomar conta de si?

por uma unha negra não disse

- Quero

e de novo as mangueiras de Marimba, tão lindas, entre a Administração e o posto médico, e de novo a comida cortada em dois por três centímetros, e de novo as imensas noites de Angola na estreiteza de Lisboa. E de novo nós com vinte anos e de novo estrelas desconhecidas, sem fim, a garantirem-nos que éramos eternos, que seríamos eternos eternamente. Alguns cadáveres à nossa volta, claro, mas a gente eternos. Foste-te com uma coisa nos ossos, imagine-se. Com que direito? Se caíres na asneira de me aparecer à frente torno a chamar-te

- Seu cabrão

já que, vendo bem as coisas, não era má ideia estares em minha casa a tomar conta de mim.

- Se eu tomasse conta de você o senhor doutor andava aí como uma rosa

e palavra que me dava jeito andar aí como uma rosa, as pessoas

- Anda aí como uma rosa

e eu

- É que tenho o Pontinha comigo

para os que não possuem a sorte de ter o Pontinha com eles, nem de exigirem

- Dois por três centímetros, Pontinha, nem mais um milímetro

e o Pontinha, de fita métrica, a conferir o rosbife.

António Lobo Antunes






10/02/2011

De tarde...

De tarde viera alguém com flores – lírios,
jacintos, narcisos, despedidas – e a porta ficara
aberta desde então. Agora as traças ciciavam

lá fora numa alegria turva em redor de uma
lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um
livro aberto na mesma página fazia quase um dia.

Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo
que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã
para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que
era sobre o meu que a noite eternamente se abatia.

Maria do Rosário Pedreira

09/02/2011

Há pouco...



Há pouco quis ir lá acima para ver como estavas; se ainda tinhas dores, ou febre – ou medo (porque já estava a escurecer); se querias que te lesse o que vem no jornal sobre as feridas do mundo (mesmo sabendo que esse mundo já não vai ser o teu) ou que te levasse para junto da janela, onde ao cair da noite o vento deixa as dunas desgrenhadas e as aves são como lenços rasgados sobre o mar. A meio da escada, o olhar órfão
da cadela e as flores secas no vaso lembraram-me que era tarde de mais para tudo isso: nesta casa, a partir de agora, os degraus só se podem descer.



Maria do Rosário Pedreira

08/02/2011

Tira-me daqui! (para ti do fundo do coração)

Não me importa para onde, mas tira-me daqui. Finge que sabes para onde me levas. Mas tira-me daqui. Finge que queres levar-me, mas tira-me daqui. É só até descermos as sacadas. É só até à esquina da rua. Depois podes partir, ir à tua vida, não interessa, não tem importância. Mas, por favor, tira-me daqui. Não ouças as perguntas, não queiras saber dos olhares. Só quero mesmo sair a porta e fugir. Tira-me daqui para que eu possa respirar, não vês que morro sufocada? Não vês que minguo na tua frente?

Eu sei que tens pena de mim. Por isso, tira-me daqui. Deixa-me chegar à rua e desatar a correr como uma louca, sem destino, sem futuro. Preciso de sentir o vento na cara, a noite fria a lamber-me o corpo, e só isso. Não te preocupes comigo. Podes ir. Eu não sei para onde vou e o que é que isso interessa? Também não sei porque estou aqui. Vou direita ao rio. Talvez vá direita ao rio, lá em baixo no cais onde termina o casario, e me sente com o casaco a lamber o chão e as lágrimas a lamberem-me o rosto, e o Tejo a lamber as pedras.

Tira-me daqui, por favor. Não me deixes morrer assim, rodeada de gente que me ama mas não sabe quem sou, rodeada de amor cego que esqueceu tudo o que fiz, rodeada por uma enorme memória dos tempos em que eu existia. Tira-me daqui, que mais nada me interessa e não vou pedir-te mais nada, prometo. Quando te voltar a ver, se um dia me cruzar contigo, fingirei que não nos conhecemos, poupando-te o desagrado de me olhares. Também não me reconhecerás. Não sei como serei então. Não sei como é o rosto de quem é livre.


Luísa Castel-Branco

06/02/2011

O'Neill: a húmida ternura


«O O'Neill sabia de vinhos, de saladas, de tabernas onde se comia um bom cozido à portuguesa, de mulheres, de palavras e de amigos. Descobria autores e introduzia-os junto daqueles de quem gostava. Revelou Roger Vaillant a José Cardoso Pires. Indicou Alexandre Vialatte a Carlos de Oliveira. A mim, ofereceu-me Norge, António Machado, Benito Pérez Galdós, leu-me o original do meu primeiro romance, O Secreto Adeus, e disse-me que a prosa melhora quando se molha o aparo da caneta no tinteiro da poesia.

Um amigo generoso, um crítico sarcástico e, amiúde, inclemente. Os que lhe caíam no escárnio, aí! cuidado!, era terrível, temível. Luíz Pacheco sentiu-o no pêlo. Os que acalentava no coração, esses, eram agasalhados com fervor. Carlos de Oliveira, um desses. Zangado, reduzia a subnitrado o objecto da ira. Alexandre Pinheiro Torres, parceiro de infância, embrulhou-se com ele. O'Neill proclamou:
- Durante cinco anos não te vou falar!
Com Cardoso Pires, por motivos fúteis, cortou palavra e o gesto até ao remate final dos dias.
- Não tenho muitos amigos - dizia -, mas os que tenho não os largo da mão.
E assim foi. Contou-os e cantou-os, em belíssimos poemas, afinal, hosanas ao que sobrava dos nefastos dias. Um dos grandes poetas de Lisboa, um dos grandes poetas da amizade e do amor.
Bebia de mais, sofria de ternura - como no-lo disse. Que procurou o Alexandre O'Neill nesse turbilhão incessante que foi a sua curta vida? Morria de viver e vivia para morrer. Decifra-se essa contradição em quase todos os seus poemas.Uma subtil melancolia que se desprende das palavras e se infiltra no corpo de quem lê.
...
Certo dia levou-me e a Murilo Mendes a um restaurante próximo da Igreja de São Mamede. Joaquinzinhos e arroz malandro, tinto espesso, e salada. Chamou o dono da casa e ensinou-o:
- Salada, só com coentros e poejos. Salada sem coentros e sem poejos é para os grilos.
A receita era desconhecida no restaurante: Ficou na ementa para sempre e com a indicação: <>.
Um dia, falei-lhe que só conhecia o livro, Las Duas Casacas, de Galdós. Ia a fala a talhe de foice. Bebemos um pouco mais e a conversa deslizou para outras e desvairadas direcções. Pois é. Três dias depois apareceu-me com dois sacos de plástico com os "Episodios Nacionales", do grande prosador espanhol. E afastou-se, rápido, sem ouvir os meus comovidos agradecimentos.
Vivia com dificuldades, é bom que se diga. Arredondei-lhe a conta ao fim do mês, conseguindo-lhe uma colaboração no Diário Popular, onde então eu trabalhava.
...
Um homem que viveu numa dobadeira de vertigens morreu lentamente. Melhor: foi morrendo devagarinho. Num fim de tarde cheio de chuva toquei-lhe no batente. Pediu-me para não fumar. Era a primeira vez que formulava tal pedido, nas vezes que o visitava, doente, caído, sem riso claro, sem ladinice, mas sempre ornado por uma grandeza e uma integridade admiráveis.
- Anda uma bolha de ar dentro das minhas veias. Ou dou cabo dela ou ela dá conta de mim.
Ele sabia-se de mal de morte. Mas eu sabia, ah!, se sabia!, que ele sofria do mal de viver. Do mal de viver português.»

Baptista-Bastos

05/02/2011

Que de mim?



Em quê de mim, as diferentes
coisas que vejo, me tocam?
Em quê de ser eu provocam
excitações tão frementes?

Que coisa de mim se enleia,
que permanência me afirma,
que sentido faz sentir-ma
no espaço que me rodeia?

Que linhas de força estranha
me prolongam na paisagem,
me tornam, à sua imagem,
mar ou céu, vale ou montanha?

Que fluidez dissolvente
os meus olhos humedece
quando o Sol desaparece
nas angústias do poente?

Que de mim também se afoga
nesse horizonte distante,
murmúrio de agonizante
que em tons roxos se interroga?

Que de mim chove na chuva,
e se abre nos tons da aurora?
Que de mim nas flores se inflora
e nas tardes se enviúva?

Ó estrelas do céu sem fim!
Ó vagas do mar sem fundo!
Será tudo mesmo assim?
Eu e vós, partes do mundo?
Ou o mundo, parte de mim?

António Gedeão

03/02/2011

Além-tédio


Nada me expira já, nada me vive ---
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro