31/03/2011

Para ti



Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.

Mia Couto

Dá-me a tua mão ...



Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

José Gomes Ferreira

28/03/2011

Migalha de Ventura



Tirem-me a luz que os olhos me alumia,
O ar que me enche os pulmões e o céu que adoro;
Tirem-me esses momentos de alegria,
Tirem-me a voz de pássaro canoro;

Tirem-me a paz do espírito, a harmonia
Da vida, e o mar que canta, quando eu choro
Tirem-me a noite e, ao luar da noite fria,
O sonoro esplendor do céu sonoro;

Tirem-me a glória de viver, o encanto,
A lágrima, o sorriso, a mocidade
Que faz com que eu na vida engane tanto!

Tirem-me o manto, deixem-me desnudo,
Mas não me tirem da alma esta saudade,
Que é meu sangue, meu ser, meu pão, meu tudo!


 Olegário Mariano

Poema para iludir a vida

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora

24/03/2011

Os poderes infernais


O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.

Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.

Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.

O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.

Carlos Drummond de Andrade

Elogio ao amor ...



Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso

Fonte : “Expresso”

23/03/2011

Sem título



vais ver
há-de romper uma noite
em que nem seremos capazes
de reconhecer a nossa própria voz
perguntando pelo nome
que fugiu da nossa boca

e ao estendermos as mãos
sobre a toalha da mesa do jantar
será apenas o cheiro do pão quente
a ficar remotamente entre os dedos
e uma jarra sem flores a tentar decifrar
a ausência de quem nos amava

e um choro a abandonar-nos naquele momento
em que o fim do verão nos explicava tudo

Alice Vieira

21/03/2011

Sem título


Bato à porta da minha solidão,
E ninguém abre!
Na grande noite que me rodeou,
Quem vinha ao meu encontro, desviou
A direcção fraterna da ternura...

[...]

Miguel Torga

18/03/2011

Ausencia...




Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade,

16/03/2011

As ilusões traídas...


Perguntas-me: de que cor são as ilusões?
E eu respondo-te que as minhas, como o título
de uma canção da moda, foram vermelhas, incendiadas,
ardentemente rubras como as vísceras latejantes
de um animal tombado aos pés de um caçador.
Eu derramei-me nas praças liquefeitas
pelas lágrimas de uma comoção profunda
como quem semeia o céu na terra
e acredita que os homens são naturalmente bons
e jura a pés juntos que o progresso é irreversível
e infinitamente justo para o futuro da humanidade.
Eu atravessei de braço dado o dédalo das ruas
onde as palavras eram certeiras e metálicas
como os gumes das adagas dos berbéres
e acreditei que, no meio de gente assim,
não podia haver mentira nem traição,
sequer remorso ou culpa,
e que pensar de outro modo era muito pior
que a danação do pecado e que a descida aos infernos.
O deus dessas ilusões não tinha rosto nem cheiro,
mas tinha nome e luz própria e vestia a ganga proletária
de todas as crenças que resgatam o homem em vez da alma.
As ilusões nunca tiveram o gosto do poder,
porque eram generosas e inocentes
e porque tinham somente como horizonte e destino
o bem de todos assente no sacrifício de quase todos.
Um dia fechei o livro e deixei secar lá dentro
A última pétala rubra das minhas ilusões vencidas, traídas.
Mas nunca esqueci ou esquecerei a ilusão da felicidade
que esse tempo enganador deixou em tudo o que vivi.


José Jorge Letria

12/03/2011

A solidão das mulheres divorciadas



"Aos fins-de-semana, quando não saio com a minha prima Bé, fico em casa a ver televisão. Ver televisão quer dizer regar as plantas da marquise, ler o meu horóscopo nas revistas, desfazer o tricot do domingo anterior, mudar de canal de vinte em vinte segundos a pensar em matar-me. O problema é que assim que me levanto para tomar os lexotans todos de uma vez a minha mãe telefona-me de Alcobaça a saber como estou, oiço-lhe os gritos no atendedor de chamadas (a minha mãe, que tem um medo danado dos telefones, sempre falou aos gritos) e como não é possível a gente suicidar-se e conversar com a mãe ao mesmo tempo desisto das pastilhas e garanto-lhe que estou óptima, que não tenho febre, que fumo no máximo três cigarros por dia, que como bem, que não emagreci

(- De certeza que não emagreceste?)

que para a semana a visito em Alcobaça sem falta e que qualquer dia, palavra, encontro um rapaz como deve ser

(- Não acredito que não haja um rapaz como deve ser no teu emprego, filha)

e me torno a casar, e desligo o telefone com um tal cansaço e uma tal dor de cabeça que a única coisa de que tenho vontade é de um aspegic e silêncio, e deixei de ter ganas de me suicidar visto que uma pessoa não consegue matar-se se estiver maldisposta.

Nos fins-de-semana em que saio com a minha prima Bé, vamos à Loja das Meias e à Escada sonhar com blazers de cachemira

(- Pode ser que com o subsídio de Natal lá chegue)

e casacos compridos, chateamo-nos como duas peruas nos filmes de que os jornais gostam, encontramo-nos num bar com colegas da escola dela que descobriram na semana passada, um restaurante italiano baratíssimo em Alcântara, e já me sucedeu acordar, aos domingos de manhã num apartamento de Campo de Ourique ou do Beato ao lado de professores de Matemática com iogurtes fora do prazo no congelador, um chinelo esquecido no bidé e um cinzeiro de folha a transbordar beatas no soalho, junto de uma chávena de café quebrada. Incapaz de tomar banho num chuveiro em que faltam sabonete e a água para além de se achar ocupado por um montão de jornais velhos, volto a toque de caixa para o Lumiar sem me despedir do barbudo que ressona de queixo na almofada

(- Não acredito que a Bé não conheça um rapaz como deve ser)

com um ombro fora do pijama descosido, e adormeço até que os gritos de Alcobaça me acordam, de coração aos pulos para inquirirem, ansiosos, no atendedor de chamadas, se tenho abusado dos fritos.

Não abuso dos fritos, não abuso do tabaco, não abuso do álcool, não abuso do sexo, não abuso de nada, mãe: oiço crescer o pêlo da alcatifa, mudo de vinte em vinte segundos de canal e leio o meu horóscopo na penúltima página dos magazines femininos, a seguir ao caderno da moda e a um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afectiva. Com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador? Com sapatos vermelhos encontraria chuveiros sem jornais? O meu horóscopo para esta semana, dividido como sempre em três partes, Saúde (cuidado com o fígado!), Finanças (atenção às despesas excessivas!) e Amor, prevê para quarta-feira, no que respeita às paixões, um encontro inesperado que me alterará para sempre a existência. Quarta-feira foi ontem e o encontro inesperado que tive consistiu em esbarrar com o meu ex-marido no metropolitano: deixou crescer o bigode, vinha acompanhado por uma mulata com metade da idade dele e nem sequer me viu. Ter-me-á visto alguma vez? Em todos os canais de televisão só passam novelas brasileiras. Oiço a chuva de Outubro contra os vidros e o casal do andar de cima a gemer ao ritmo da cama. Se me levantar para tomar os lexotans todos a minha mãe vai desatar aos gritos no atendedor de chamadas, de modo que o melhor é ficar quietinha no sofá a olhar as plantas e o retrato do meu sobrinho bebé sem pensar no suicídio. Para quê? Durante seis meses poupo nos almoços (uma bica, um croissant e um pastel de bacalhau comidos em pé ali no Centro) compro o blazer da Escada e uns sapatos vermelhos, a colega que vende ouro no escritório prometeu baixar-me as prestações do anel, e passo o serão sozinha, de blazer, sapatos e cachucho, lindíssima, a mudar de canal e a ouvir o pêlo da alcatifa crescer."

António Lobo Antunes

10/03/2011

Sem título



Agora há uma dor que pousa nas palavras.

Não as digas – um nome basta para
dividir o coração. Se me esqueceste entre

um livro e outro, finge que não sei; despede-te

de mim como uma lâmpada antiga, deixa que

a tua sombra seja a minha única paisagem.


Maria do Rosário Pedreira

09/03/2011

sem título


a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que o percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer

eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era muito cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho do regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol

e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos
e qualquer estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro secreto de águas perdidas

por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou

vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as suas mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas

vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um
o amor que lhe compete

Alice Vieira

07/03/2011

Sei que Deus tem um projecto para mim…(para ti do fundo do meu coração)

Por mais que eu procure o projecto que me é destinado, não o encontro.

Os dias confundem-se com as noites e cada dia é mais difícil do que o anterior. Sinto-me vazia de forças, lágrimas e sentimentos.

Pouco a pouco, a apatia tomou conta de mim. Qualquer movimento é um esforço desumano.

Qualquer pensamento perde-se no nevoeiro que tomou conta da minha cabeça.

Como se fosse algodão - doce, aquele que havia na feira quando eu era pequena.

Os perfumes de outros tempos, de outra vida que tive, esses estão tão presentes como as cores e os sabores.

Como se essa outra vida fosse quase um sonho idílico, sem máculas nem dores.

E ainda que eu saiba que é mentira, que esta tristeza que me veste já existia então, refugio-me nesse sonho por me recuar a viver nesta vida. Talvez nem haja Deus, mas apenas aqueles desenhos que me amedrontavam nas aulas de catequese, a culpabilização que é a nossa segunda pele.

Talvez viver se resuma a isto. O cumprimento das obrigações, os anos que passam e nos vestem o rosto de rugas e o coração de decepções. Talvez aceitar que melhor é impossível devesse ser o suficiente.

Tão logo chego a casa vinda do trabalho, escondo-me na cama.

É o meu casulo. O meu castelo. A minha mortalha também, eu sei.

Aos poucos cortei todos aqueles cordões que me ligavam aos outros. Fechei-me dentro de mim. Não me telefonem, não batam à minha porta. Não falem comigo. Então, porque continuo a sofrer?


Luísa Castel - Branco

04/03/2011

Catorze Letras (efeito borboleta e outras histórias)

No momento em que V perdeu o controlo do Renault Laguna, na A1, perto da saída para Leiria, N estava a assinar, na FNAC do Centro Comercial Colombo, dezenas de exemplares do seu último livro de auto – ajuda: Aquela Súbita Luz. Enquanto R assiste, num camarote VIP, aos últimos minutos de um jogo do Manchester United com o Arsenal, em Old Trafford, B entra numa carruagem de metro, na estação do Colégio Militar, a tempo de ver alguns elementos da claque No Name Boys que desenroscam lâmpadas, gritam obscenidades e exibem, com esgares simiescos, as suas tatuagens e barras de ferro. No pátio da prisão, junto ao gradeamento, D olha para a Lua, em quarto decrescente no céu do fim da tarde, e imagina como estará G tantos anos depois (longe dali, muito longe dali, G coze batatas para o jantar, com os olhos parados na água que ferve, sem saber porque lhe vieram de repente à cabeça versos japoneses, um haiku que fala da neve e de árvores com pétalas vermelhas iluminadas pelo luar, poema dito há tantos anos por uma boca – os lábios finos de D, entreabertos – que as encruzilhadas da vida foram afastando). Sobre o Pacífico, num voo para Tóquio, A tenta dormir mas não consegue porque os passageiros do lado, um casal de holandeses reformados, falam animadamente sobre uma nova fadista que ouviram ao vivo em Roterdão, 15 dias antes, e que está ali, nas páginas da revista oferecidas pela Japan Airlines, chama-se H e ao vê-la em pose, junto à Casa dos Bicos, numa fotografia cheia de filtros dourados, A reconhece-a e não consegue conter a tristeza, muito menos as lágrimas. Quando a voz de H parece que se deixa cair, a meio de uma canção, num requebro que leva ao êxtase o público do Coliseu, P telefona a T e a melancolia das guitarras espalha-se pela casa, chegando como que em surdina ao terraço onde E, abraçado à garrafa de gin, decifra as constelações sobre o mar de Lagos. Perdido nos seus sonhos de grandeza, M não tem a lucidez suficiente para compreender que o seu Sistema, o tratado filosófico a que dedicou a vida inteira, nunca será mais do que é agora: um aglomerado de ideias dispersas, sem centro nem circunferência, espalhadas por rascunhos que ninguém compreende (nem compreenderá). É C quem lhe diz a verdade, olhos nos olhos, depois de o salvar do desespero e do excesso de comprimidos. Na sombra, X conta os minutos, junto ao telefone que não chegará a tocar.

V, N, R, B, D, G, A, H, P, T, E, M, C, X. Só eu os conheço a todos. Só eu distingo, visto de cima, o esquema que formam. Apareceram sem que os chamasse e quis transformá-los em literatura. Catorze letras, catorze incógnitas, código escrito a dissolver-se numa aflita mancha de palavras.


José Mário Silva

Inscrição sobre as ondas



Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.

David Mourão-Ferreira