28/04/2011

Os perseguidos da solidão (Lisboa contada pelos dedos)


Um sopro tépido vindo do rio. As janelas abertas e a varanda com o estore meio-corrido. O interior da casa envolto em penumbra. Um odor discreto a flores. Um odor antigo a livros. As estantes estão dispostas em ângulos harmoniosos, organizando o jeito ligeiramente ondulado das paredes antigas, e atribuindo à sala conforto e acolhimento. Queria escrever a história de uma quinta-feira que parece domingo. Relatar o que, um tanto à-toa, vai emergindo da memória; coisas antigas e ressurrectas. Desejava, por exemplo, descrever um grito; um grito solto; mas não disponho de palavras que expliquem a natureza própria desse grito. Ou uma cor; por exemplo: a cor da infância. De que cor é a infância?, se é que cada infância não é detentora de uma cor singular para cada pessoa. E os gestos, os movimentos, o som das frases da rapariga longamente, distantemente amada. Como se chamava ela? Suzette? Rosette, Anette? Era assim um nome, talvez francês, afrancesado, com dois tês para dar timbre alto. Sei, recordo agora (ou estou a inventar?) que era loira, olhos garços, caracóis e canudos à maneira da Shirley Temple, já ninguém sabe quem foi a Shirley, e também não é muito importante saber. Já tombaram muitos anos sobre esses anos antiquíssimos. Que foi feito dela, da rapariga loira, olhos garços, cabelos como disse que eram?, que foi feito?

Estiquei-me no «meiple», mergulhei na penumbra da sala, e nada destas recordações em tropel me entristece ou desanima. Envelheci, claro; mas não deixo ao abandono dos acasos as ruas, as faces, as casas que comigo se atravessaram, ou que em mim fizeram história. Já fui acusado de batucar prosa nostálgica. Há um pouco de verdade nessa acusação. Mas até a nostalgia não é o que foi. Antigamente, as coisas permaneciam quase imóveis, o tempo não colidia com essas coisas, um jardim era um jardim e uma avenida era uma avenida. Tudo se complicou, porém. Tudo se distancia rapidamente, por absurdos constrangimentos. Repare-se : Os domingos eram mesmo domingos, dias em que a cidade possuía uma luz calma e diferente, talvez mais ingénua e mais tonta, mas era assim mesmo que os domingos surgiam. Esperávamos o domingo com alvoroço. As idas ao cinema, os passeios fora-de-portas, as tardes enlanguescentes, os homens velhos e sábios conversando gravemente sobre factos só na aparência adormecidos, namorados aguardando namoradas, magalas em grupo atrás de grupos de sopeiras, e também havia bailes nas verbenas, pelos Santos, e o vinho era espesso e bom e servido em canjirões.

Fomos o que fomos – decido-me a escrever agora. E estávamos sob a protecção de um tempo que nos não corroía. Esta nossa cara é outra. Deixou de ser aquela que se perdeu; até nos esquecemos, já, da cara que tivemos. Um homem tem a cara que Deus lhe deu até aos quarenta anos, depois, tem a cara que merece. E se marcasse um número de telefone ao acaso? Talvez me respondesse a voz suspensa de uma mulher também só, e também à espera. Uma mulher que precisa de ser salva de uma solidão mais viva do que o sangue. Os me8s pensamentos caminham, neste instante, por ruas despovoadas e escuras, por casas fechadas com janelas cerradas; surge um largo com uma densa palmeira. Dois garotos brincam. Um deles olha-me como se observasse, pela primeira vez, um ser estranho, uma criatura extraordinária provinda sabe-se lá de onde. Mas o horário é de dobrar as recordações, e resolvo ver um homem numa bicicleta, é Setembro, o homem pedala e a bicicleta descreve círculos no largo, rodeando a palmeira, com os garotos aos gritos; gritos alegres, de júbilo, bem entendido. As casas abrem-se, gente vem para as ruas, a cidade fica cheia de sons e de cores, movem-se volumes brancos, há uma macieira silvestre a tentar estender-se para lá do muro de derrete, uma mulher caminha com os seios soltos e andar imperioso, um cego vende lotaria, um senhor bem-posto passeia três enormes cães.

Um sopro tépido vindo do rio. As janelas abertas e a varanda com o estore meio-corrido. Há um choro em qualquer parte. Braços que se negam a abraços. O telefone toca. E alguém. Do outro lado do fio, a perguntar:

- Quem está lá? Quem está lá?

Será?, será ela?, aquela que aguarda, solitariamente desamparada, que alguém lhe telefone? E, de súbito, respondo na minha voz débil e ferida:

- Sou eu.

Baptista Bastos

27/04/2011

Sou um evadido



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo bem

Fernando Pessoa

25/04/2011

A Salgueiro Maia...




Aquele que na hora da vitória,
respeitou o vencido.
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi « Fiel à palavra dada e à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.

Shofia de Mello Breyner Andersen

23/04/2011

Sem bússola, sem leme...



Cansada, exausta, do labor insano
duma vida incolor, sem fantasia,
vou ver se encontro, noutro meridiano,
a emoção que desejo em cada dia.

Vou procurar, sem lógica, sem plano,
um pouco de aventura, de alegria.
Não mais o miserável quotidiano,
antes o vendaval que a calmaria.

Antes dor... No barco em que navego,
sem bússola, sem leme, louco e cego,
vou procurar inexistentes rotas.

Ó meu veleiro doido, sem governo,
a caminho, talvez, do céu, do inferno,
sobre espumas e asas de gaivotas.


Fernanda de Castro

20/04/2011

Rosa pálida

Rosa pálida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai!, a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos Céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê?... porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zângão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pálida ou corada,
Ou isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.

Ai!, deixa-os, e no meu seio
Vem, querida, sem receio
Vem a frente reclinar.
Que pálida estás, que linda!
Oh!, quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar.

Almeida Garrett

17/04/2011

E por vezes...





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos


E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão – Ferreira

16/04/2011

Palavras minhas



Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Tamen

15/04/2011

Cala-te






Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido….

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
Com a minha sede.

José Gomes Ferreira

12/04/2011

A Vida



Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.
Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam…)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!
Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram…

 João de Deus

10/04/2011

Com os olhos apagados


Há amigos que morrem gelados e magros
Como prisioneiros da mais sórdida das guerras.
Quase que nos imploram,quase que nos exigem
a dádiva de uma morte que ponha fim à dor.
Os braços cruzam-se, as lágrimas adiam-se
e a morte vai cavando os seus sulcos,
fazendo, com vagar de artífice, a sua faina.
As mulheres choram à luz ténue das candeias
e antecipam a morte com as preces,
com as suas promessas de coragem, de firmeza
no momento inequívoco da verdade. É assim a vida,
já o disse. É assim a morte, já o disse.
E o corpo que resiste ao sofrimento
é uma ruína pálida, um escombro, um nada
que se agarra a tudo, sofregamente,
como se a esperança fosse um soro gotejante
a depositar nas veias o que resta de um dia de sol.
Aquele que sofre torna-se metade do que foi,
um terço, uma sombra, um insulto a si próprio,
mas resiste, porque a esperança, dizem,
é sempre a última a morrer, e é também
o mais desnorteante dos sobreviventes,
porque não dá vida, mas finge que a dá.
Um dia o corpo amanhece com os olhos apagados
e só resta um soluço abafado antes de descer o pano.

José Jorge Letria

09/04/2011

A saudade nunca morre


Apareces assim de repente, sem aviso. Por vezes é o teu perfume, alfazema e tabaco, que vem de sítio nenhum. Outras, poderia jurar que sinto o teu respirar no meu ombro, uma sombra que não está lá mas que eu vejo, sei lá, sinto-te por todo o lado, sem descanso, ainda hoje. (…)

(…) Seguramente que tal acontece por pensar em ti com tanta frequência. Por sentir a tua falta dia após dia. Sem descanso.
O que pensarias do que faço? De quem sou?
A saudade não morre, e não se transforma em nada.
É tão-somente saudade do que não te disse, do que não me chegaste a dizer. De tudo o que deveríamos ter vivido, de todas as conversas adiadas porque nunca havia tempo, e depois, partes. (…)
(…)e deixaste-me para aqui neste desassossego de alma, nesta culpa tão profunda do que não fiz e das palavras que não disse. (…)
(…)Se fosse hoje, se eu pudesse voltar atrás por breves minutos, cobriria o teu rosto de afagos e beijos molhados, e dir-te-ia vezes sem conta: Amo-te.
(…)

Luísa Castel - Branco

08/04/2011

Carta (esboço)


Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

07/04/2011

Solidão

Como quem tece um xale
para o frio da alma
invento os teus braços
nos meus ombros,
o verão da tua boca
na minha pele.
No meu Outono, agreste,
invento-te.
E a tua lembrança,
que não foi nem houve,
porque não existes
ou o teu destino é longe
e noutro lugar
atravessa a noite.

Luísa Dacosta

05/04/2011

apesar das rosas

Diz-me a verdade, mesmo que mintas...


Jura que vamos sentarmo-nos lá fora no jardim, o frio a lamber-nos o corpo, eu aninho-me em ti e ouvimos as estrelas e olhamos o silêncio cortado pelo vento nas folhas dos pinheiros.

Diz-me a verdade, mesmo que mintas.

Promete-me que no futuro, estaremos sós os dois, aqui nesta casa, as nossas impressões digitais coladas pelas paredes, fechamos todas as luzes e apenas as labaredas da lareira vão inundar a casa, tons quentes no frio da noite mágica.

Diz-me a verdade, ainda que me mintas.

Diz-me que vamos voltar atrás quando andarmos para a frente, e de novo saborear os nossos corpos, já lá vai tanto tempo que já não tenho o sal da tua pele na minha memória. Não sei se vamos retomar à paixão de há tantos anos atrás ou à acalmia do amor sereno mas tanto me faz, o que quero mesmo a voltar atrás nesse futuro e quando entrar a porta do quarto saborear de antemão o prazer das tuas mãos a tecerem rendas na minha pele.

Diz-me a verdade, nem que me tenhas que mentir, e pintar o céu de outra cor qualquer, e dar-me asas para voar, que eu não aguento mais, aqui sufoco, aqui morro todos os dias mais um pouco.

Diz-me a verdade mesmo que me mintas e eu levar-te-ei nos meus braços quando levantar voo daqui sem sairmos os dois do sofá, da carpete, da cama.

Mas diz-me a verdade. Diz-me toda a verdade coberta pelas mais doces mentiras, essas promessas de futuro, de acalmia, de passeios na praia quando o frio aperta e as gaivotas baixam ao areal.

Diz-me a verdade e promete-me uma noite de sono. Mente e diz-me que vou dormir como um bebé virgem de medos, sem estes terrores nocturnos, sem este acordar diário a teu lado na cama, e contudo, tão só como o primeiro ser do universo.

Diz-me a verdade que não me importo que seja mentira. Já não faz diferença alguma, na verdade o que te peço é que me mintas, mas desta vez não me dês uma das tuas mentiras que me fazem chorar, que me fazem sangrar e me roubam dias de vida.

Não.

Diz-me a verdade da mentira que vamos viver. Diz-me depressa que eu não sei quanto tempo mais consigo respirar aqui!


Luísa Castel – Branco

03/04/2011

Fotografias vagamente desfocadas



Uma névoa esconde o sorriso
do noivo, as lágrimas da irmã,
a chuva de arroz na escadaria.
Ficam só os contornos maiores,
a fachada da catedral com os
vitrais de há muitos séculos.
Na verdade a névoa não esconde,
antes protege. A névoa é um filtro
involuntário, um pudor nascido
do acaso e da imperícia.
Talvez as fotografias vagamente
desfocadas sejam as mais belas,
porque são as mais reais (imitam
a vida e a vida é imperfeita, pouco
nítida).

José Mário Silva

02/04/2011

Eu amo


Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.


Fernando Pessoa