29/10/2011

Traz-me


Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traz-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares,
- vê que nem te peço ilusão.
Traz-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!


Cecília Meireles

26/10/2011

Oração das Mulheres resolvidas



Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo, que a fonte nunca seque, e que
a nossa sogra nunca se chame Esperança, porque Esperança é a última que
morre...

Que os nossos homens nunca morram viúvos, e que os nossos filhos tenham pais
ricos e mães gostosas!

Que Deus abençoe os homens bonitos,
e os feios se tiver tempo...

Deus...
Eu vos peço sabedoria para entender um homem, amor para perdoá-lo e
paciência pelos seus actos, porque Deus, se eu pedir força, eu bato-lhe até
matá-lo.

Um brinde...
Aos que temos,
aos que tivemos e aos que teremos.

Um brinde também aos namorados que nos conquistaram, aos trouxas que nos
perderam, e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!

Que sempre sobre,
que nunca nos falte,
e que a gente dê conta de todos!
Amén.

P.S.: Os homens são como um bom vinho: todos começam como uvas e é dever da
mulher pisá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa
companhia para o jantar.
Júlio Machado Vaz

24/10/2011

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias

 




Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.
Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.
Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.
Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva.

José Gomes Ferreira

21/10/2011

Novíssimo testamento

 



Não fui eu que envelheci, juro,
foi a esperança que apodreceu em mim,
corpo desenterrado à espera da mortalha da lua
como num macilento soneto ultra-romântico.
A quem devo agradecer o bem e o mal
incomensuráveis
desta vocação versejante que me fulmina?
A ninguém, talvez. Poderei agradecê-la à terra
ou à aflição martirizada de meu pai,
tombado de borco sobre os escombros da vida
quando tinha a idade que eu tenho
ao escrever estes versos destroçados por dentro,
fragilíssimos cristais do infortúnio da noite.
E as palavras de onde me chegam, quantas são,
com que intenção me visitam, com que
propósito me põem na boca tudo aquilo
que eu, por pudor, jurei nunca dizer?
Desconfiem dos poetas pudicos, sempre,
pois foram os únicos que saborearam
a nudez inclemente da morte e nunca a confessaram.
Eu não sei o que é o cansaço, nunca o soube.
Nem morto estarei cansado, porque há
um ódio surdo e lento que maquina em mim
os seus artifícios e engodos e me ensina
a não dar tréguas, a não fazer reféns.
Eu cansei-me de simular a bondade,
igual à dos santos de barro dos altares da pobreza.
O céu em que creio é um charco embaciado
onde as sombras atraiçoam outras sombras
em troca de uma vaga promessa de luz, enganadora.
Eu conheço canalhas que têm nos olhos
o remorso infinito de todas as mortes de Cristo
e que fingem pensar na aflição dos outros
enquanto gravam na pele a palavra poder.
Como posso eu acreditar em quem
não sabe, não pode e não quer acreditar em nada?
Somos estupidamente mortais, desde sempre,
e imaginamo-nos artífices de eternidades,
ensinando aos velhos o caminho do abismo
e aos outros o que sobra da ciência dos livros.
Eu nunca hei-de descer à terra, prometo,
porque tenho medo de sujar o bibe
e de sentir os dedos nodosos da minha mãe
a deixarem-me nas pernas grossos vergões de revolta.
A minha cólera é um incêndio de Verão:
Devasta, enegrece e mata, e depois
vai-se, inocente, como se nada tivesse acontecido.
Hei-de esconder-me no vento do deserto, um dia,
entre as cobras e os escaravelhos, meus irmãos,
espreitando sem pressa a solidão nocturna das raposas.
Quando quiserem saber de mim, não hesitem,
abram o livro na página que eu nunca escreverei.

José Jorge Letria

20/10/2011

Ausência

Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar
uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado
Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noit
e
e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.
Vinicius de Moraes

17/10/2011

As palavras interditas



Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

06/10/2011

A coisa mais injusta...

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um óptimo orgasmo! Não seria perfeito?


Charles Chaplin

03/10/2011

Que coisa distante...

Que coisa distante
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?
Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.
Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.

Fernando Pessoa