28/11/2011

Insónias. E hoje não há luar...


 


Sempre que venho no caminho para casa, os meus olhos ficam presos num enorme pinheiro em que um dos troncos caiu por terra.
Vejo para lá do muro, o tronco tão largo que eu não o conseguiria abraçar, rachado, caído como um combatente abandonado, alguém que um dia se perdeu para nunca mais voltar.
Apetecia me saltar o muro e tocar naquele tronco. Passar os meus dedos pela fenda enorme que o derrubou, sentir a transformação da madeira que pouco a pouco vai perdendo a cor.
Imagino que em noite de lua cheia, aquele enorme pinheiro e o seu tronco derrubado por terra, ocupando um enorme espaço, deitam sombras estranhas sobre as pedras do muro, a própria estrada.
A natureza fascina-me e vem-me à cabeça Pessoa e as suas palavras.
As minhas paixões também são bucólicas e sempre acreditei que nasci na cidade por algum engano cósmico.
A terra, o pulsar da terra, o perfume da terra molhada, as cores que a vestem consoante as estações, tudo isso está inscrito no meu sangue e eu não sei porquê.
O mesmo se passa com casas. Há tantos anos que pinto, desenho, sonho com casas.
Não gosto de coisas novas e acredito que as casas guardam os segredos de quem lá vivem, e que as lágrimas e os risos que um dia ali viveram vestem agora o soalho e lambem as paredes num mistério que dá a cada lugar a sua identidade.
Leio os anúncios, guardo na minha memória as imagens que mais me marcaram e é como se eu andasse em busca do local de onde vim e que não reconheço mais mas sei que lhe pertenço.
As pessoas gostam do mar, da praia.
Eu gosto de o visitar de Inverno, de lhe sentir e cheiro e a bravura e nada mais.
Mas um muro velho, onde a hera cresce e um portão que deixa antever uma casa é razão suficiente para a minha alma voar e dou comigo a criar vidas que ali viveram, rostos de mulheres colados nas vidraças olhando a estrada com saudade.
Provavelmente pode ter-se saudades do futuro que devia ser, ou do presente que não é e do passado que nunca existiu.
Que digo eu? Que escrevo eu aqui a esta hora da madrugada?
Desalinhos de alma com insónias.
A casa que dorme e finalmente me pertence.
A saudade dos risos dos meus filhos.
A saudade dos meus risos.
Voltei a ser ave nocturna.
Por mim saía por aí a ver as estrelas e só recolhia a casa quando os galos cantassem. Aqui não há galos mas oiço os cães ladrarem no escuro e isso reconforta-me.
Talvez eu tenha em mim recordações de outras vidas e por isso me sinta tão deslocada no papel que tenho que executar nesta encarnação.
Hoje como sempre sou aquela que não encontra caminho, que não sabe ter prazer na companhia de outros que não o meu minúsculo mundo.
E contudo, eu nunca menti.
Mas por mais que explique tudo isto, ninguém me acredita ou entende.
Nada como a porta mágica da televisão para nos tornar reais no imaginário dos outros.
Afinal, a única coisa que é verdadeira é a solidão mesmo quando acompanhada.
 
Luísa Castel-Branco      

26/11/2011

Sem Título


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada .
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles.
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente
o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais,
se puder ser.
Ou até se não puder ser...
Fernando Pessoa

 

13/11/2011

emigrante


Não vou negar meu amor
que não te afasto
e evito
nem me vacilo
e resisto
a negar-me ao teu encontro
que construo e que desisto
Meu amigo
e meu amado
emigrante do que eu sinto

Maria Teresa Horta

10/11/2011

Se um dia a juventude voltasse

um dia a juventude

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição.

Al Berto

07/11/2011

O encontro




Que raio de ideia, ter-te marcado encontro neste sítio, porque diabo não escolhi uma pastelaria, um café, um centro comercial, tudo menos uma esquina que me disseste ser perto do teu emprego para acrescentares, logo a seguir, juras de pontualidade, e eu a acreditar em ti

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover. Começou a chover e não há um toldo onde abrigar-me, eu que não trouxe guarda-chuva, o céu sem nuvens quando saí de casa, previsão de céu sem nuvens para hoje, os camelos da meteorologia deviam ser fuzilados mas infelizmente não estamos em Cuba nem há maneira da máfia napolitana tomar conta da miséria deste país. E, já agora, da minha miséria, feito parvo à tua espera. Encosto-me ao prédio na esperança de me molhar menos mas as varandas, para além de pouco salientes, pingam-me gotas enormes na nuca: amanhã, está-se mesmo a ver, agonizo na cama a aspirinas, de termómetro debaixo do braço e a caixa dos lenços de papel quase vazia. Contar mais corcundas inútil, todos eles em casa, sequinhos, colados às janelas, a verem-me. Chegarás antes de acabar a chuva?
Que raio de ideia, ter-te marcado encontro neste sítio, porque diabo não escolhi uma pastelaria, um café, um centro comercial, tudo menos uma esquina que me disseste ser perto do teu emprego para acrescentares, logo a seguir, juras de pontualidade, e eu a acreditar em ti, combinámos às cinco horas e, desde a um quarto para as cinco, que estou aqui plantado, ora num pé ora no outro, a confundir-te com todas as pessoas que se aproximam, uma mulher ao longe e eu, de imediato
- É ela
de coração aos baldões e mãos suadas, a mulher sempre outra mulher, nem me olha, aliás espanta-me que me tenhas olhado, nunca tive grande sucesso, nunca se apaixonaram por mim, pode ser que uma vez mas tenho dúvidas, chamava-se Carla, trabalhava na recepção de um hotel, o olho esquerdo fugia-lhe e o olho esquerdo afastou-me, pensava que as estrábicas chorassem de maneira diferente mas não, ainda me escreveu, não respondi, ainda me telefonou, não atendi e depois a cidade comeu-a, julgo que continua em qualquer lado, engolida pelo hotel, engolida pelo prédio onde mora com a mãe, engolida pelos anos que devoram tudo, a começar pelo esquecimento. E, depois, tu. Quer dizer quase não nos conhecemos, ficámos em mesas lado a lado na pizaria, a má criação da empregada uniu-nos, o gosto comum pelas lasanhas vegetarianas tornou-se uma ponte entre nós, a falha no verniz do mindinho enterneceu-me, marcámos este encontro para um cinema, despedimo-nos com um passou bem demorado que me soube a beijo, afastaste-te sem olhar para trás, depois de me teres consentido pagar a tua lasanha, cada qual com o seu porta-moedas na mão, guardaste-o, a contragosto, na carteira
- Da próxima sou eu que pago e não admito recusas
a próxima vez que é hoje, espero que jantar depois do cinema, espero que segurar a tua mão que hesita, tiro, não tiro, acaba por ficar, espero que um joelho, espero que uma bochecha no meu ombro, um primeiro beijo tímido, um segundo que se abre em corola, um suspirozinho, dedos exploradores no automóvel, cautelosos, medidos, arrumei o apartamento, deixei a cama feita, comprovei que não era grande espingarda a fazer camas, o lava-loiças limpo, os cinzeiros limpos, o jornal de ontem no balde, música suave, pronta a funcionar, na aparelhagem, basta carregar num botão e caem-te violinos em cima, um amigo meu garante que os violinos amolecem as mulheres, acrescenta
- Não me perguntes porquê mas amolecem
e não tenho motivos para não acreditar no rapaz, três casamentos, três divórcios, experiência, a chuva parece abrandar e eu feito um pinto, se calhar esqueceste-te, se calhar não pensaste mais nisso, nem o teu nome sei, para ser sincero não me lembro muito bem como és, altura média, acho eu, cabelo castanho, acho eu, ou com madeixas, não seria capaz de esclarecer, quem me garante que não te cruzaste já comigo, enquanto eu somava os sete homens carecas, sem te lembrares de como sou igualmente, quem me garante que não estavas à espera que eu sorrisse para me falares e, como não sorri, decidiste, desiludida
- Espera outra pessoa, vou-me embora
e não esperava outra pessoa, que pessoa, esperava-te a ti, espero-te a ti, de maneira que, agora que a chuva parou, vou recomeçar a contar de um a cem e de cem a um, recomeçar a contar automóveis pretos, taxis vazios, homens carecas, mulheres loiras, ambulâncias e corcundas, com um gosto de lasanha vegetariana na boca, seguro de que não terei que me ir embora porque vais chegar.

António Lobo Antunes