30/12/2012

POEMA DE AGRADECIMENTO À CORJA

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.


JOAQUIM PESSOA

27/12/2012

Passados





não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.


gil t. sousa

10/12/2012




A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

09/12/2012


...
Morrer devia ser assim


Boiar estendido numa nuvem
com a cabeça encostada no silêncio
a olhar para o céu,
sempre mais longe,

sempre mais longe,
sempre cada vez mais longe...
(Perto já não é céu.)

Morrer devia ser assim...

Milhões e milhões de mortos
deitados nas nuvens
com asas partidas nos olhos
numa leveza sem rumo
de penas de frio...

Morrer devia ser assim.

José Gomes Ferreira

01/12/2012

Estás sempre aqui...





Estás sempre aqui
na beira do meu corpo
na ponta dos meus dedos
quando te desejo
quando de descrevo
quando te vislumbro
mesmo sem te ver
e quando te desejo

mesmo sem te ter

E por cada poema que começo
e não sei terminar
puxo-te para a beira da minha cama
bem para o meio
do meu devaneio
e num frémito que não domino
volteio a palavra por decifrar
o verso que não rima
remoo nos dedos o gosto da tua pele
que a minha desatina
que me ficou quando pela tua boca passou...

...e com passo desajeitado
deixo o verso calado
sublevar-se
ausentar-se
dessa forma imaculada
e vir manchar minha pele alva e pura
tremendemente louca
de uma secura
urgente e desajeitada
e num repente
num bater de asa
muito antes que o galo cante alvorada

sais do meu poema
libertas-te do peso do meu verso
e cais na minha pele
absorto e liberto
tremendemente incerto
alma nua e ausente
mas amorosamente delicado
e delicadamente amoroso
como toda a paixão
que se serve quente...
 
São Reis

29/11/2012

Exercício



Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
...


...com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice

28/11/2012

Sem título

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.

Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

Bertold Brecht

26/11/2012

Amor...


A
M
O
R
Uma a uma
As letras
Caem,
Lágrimas,
No rosto do papel.
 
Luísa Dacosta

19/11/2012

Diz o meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com
a suavidade
de uma confidência
 para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Mia Couto

18/11/2012

Sempre foi tarde mesmo quando ainda era muito cedo

 



a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer

eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era muito cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol

e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos

e qualquer outra estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro de águas perdidas

por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou

vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as suas mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas

vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um
o amor que lhe compete.



(Alice Vieira, Pelas Mãos e Pelos Olhos Eu Juro)

16/11/2012

Amor sem razão



Meu amor quem disse
ao pé de ti o medo
ou pôs a ausência daquilo que
faço
se longe de ti impeço o começo
ou junto de ti me ergo e renasço
já nada é razão
quando esta é segredo
ou quando a razão é corpo e desfaz-se
razão do teu sono
por entre os meus dedos
razão do teu hálito
por entre os meus braços
 
Maria Teresa Horta

13/11/2012

Lisboa e Tejo e Tudo...

 
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
(...)
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavoro...
samente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Álvaro de Campos

06/11/2012

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

04/11/2012

esperar por ti


esperar por ti agora quando já todos me explicaram
como está completamente gasto o tempo das esperas
com telefonemas fora de hora recados fortuitos e
sinais desajustados
pode parecer daquelas coisas que fazíamos
quando há muitos anos as pessoas
olhavam para nós e repetiam meu deus
onde é que o mundo vai parar
(havia uma velha no jardim da parada
que dizia isto todas as manhãs mal nos via chegar
e tu murmuravas havemos
de convidá-la para o nosso casamento
e ríamos muito e tínhamos a certeza
de que viver era isso)

não importa hoje temos
outras maneiras de fugir e de resto
já morreram todos os que então
furiosamente nos vigiavam
embora possa ainda
haver quem nos reconheça e se espante
e invente presságios e vozes de oráculos
oumuito simplesmente destinos banais
adivinhados nas folhas do chá
e em surdina nos avise
que as rugas lavradas pelo tempo tornaram
demasiado inóspito o lugar
onde nos encontramos

mas eu já percorri muitos lugares em chamas
e esperar por ti agora é apenas
mais um longo corredor de mamórias regressadas
que se atravessa entre os nossos corpos
pelo meio de retratos desfocados com o sena ao fundo
e discos de vinil com velhas canções
que nunca partilhámos com mais ninguém

— até chegar ao lugar do amor subitamente desocupado
pronunciando devagar cada sílaba do nome
com que de mim nascias

Alice Vieira

21/10/2012

Não o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

12/10/2012

"Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece".

Maria do Rosário Pedreira

10/10/2012

"lembro-me da minha mão
pousada sobre a tua e esse instante está debaixo
da palavra solidão".

(josé luís peixoto)

03/10/2012

?

Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
...
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!

Fernanda de Castro

27/09/2012


 REVOLUÇÃO E MULHERES


1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.


2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná -lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre d.ois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer uin borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.


3. PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.


4. SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.


5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso. — Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.


6. PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

7. REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro 1975


Maria Velho da Costa

06/09/2012

ABSOLVIÇÃO

 


 Incendeiam-me ainda os beijos que me não deste
E cegam-se os acenos que me não fizeste
Da janela irreal onde o teu vulto
Era uma alucinação dos meus sentidos.
Mas, decorrida a vida, e oculto
Nestes versos doridos,
A saber que não sabes que te amei
E cantei,
E nem mesmo imaginas quem eu sou
E como é solitária e dói a minha humanidade,
Em vez de te acusar
E me culpar
Maldigo o arbítrio da fatalidade
Que cruelmente nos desencontrou.

Miguel Torga

04/09/2012

?

"(...)Amo-te, aconteça o que acontecer. Amo-te por causa de ti. Não é apesar de ti. É por causa de ti. Não há outra razão. Nem podia haver uma razão mais simples.
Por muito que te custe ouvir (apesar de eu saber que não só não te custa nada como gostas de ouvir), digo-te: é tão grande o meu amor por ti que até consigo amar-te sem dar por isso.
Já viste? "

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público'

24/08/2012

Falei de ti...




Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.


Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.


Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.
Fernando Assis Pacheco

15/08/2012

Na hora de pôr a mesa...



 Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. Depois a minha irmã mais velha
casou-se. Depois a minha irmã mais nova
...
casou-se. Depois, o meu pai morreu. Hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto.

24/07/2012

O Amor tudo mata quando morre...



Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"

09/07/2012

Ninguém me venha dar vida...

Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
... que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1947)'
Ver mais

07/07/2012

?

Para te amar ensaiei os meus lábios...
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
... Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!

Pedro Homem de Mello, in "Segredo"
fotografia: diografic

02/07/2012



Fraldiqueiros
Coitarados!
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento senti-
                                                                  [mental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.

Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos, 
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas. 
Têm sempre rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.

Fraldiqueiros. . .
Vai levar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»

O golpe do coitadinho (não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém
                                                                          [nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...

Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico!
                                       [de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma
                                                       [de saxofone
e tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido
,
Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?



Alexandre O´Neill

30/06/2012

Desperto...




Desperto...
Sem querer ir,
Nem ficar,
Sem agrado por acordar.
... Por dentro um vazio,
Negro como breu.
Desprovido de máscara
E cansado de ser eu,
Decido só o corpo levantar.
Fica a mente deitada em casa.
Mando o canastro passear.
Espreito-o pela janela.
Deambula errante.
Percorre-me o ser
Por um instante,
Amarga consolação.
Não vou estar só neste dia,
Terei por companhia, a solidão.


 Luís Contumélias ln: "Soltas”

26/06/2012

A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa


Quando se vê, já são seis horas.
Quando se vê, ja é sexta feira.
Quando se vê, já terminou o ano.
Quando se vê, ja se passaram 50 anos!
E agora é tarde demais para ser aprovado.
Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inutil das horas.
Dessa forma eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido á falta de tempo, a unica falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais."

(Mário Quintana)

20/06/2012

E de novo a armadilha dos abraços...



E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos

Rosa Lobato de Faria





18/06/2012

O teu riso...

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
... a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.

Pablo Neruda

08/06/2012

Amor e seu tempo...



Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prémio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe.

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida.. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

04/06/2012

Um dia...



Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.



Sophia de Mello Breyner Andresen 

01/06/2012



já não é hoje ?
não é aquioje?

já foi ontem?
será amanhã?

já quandonde foi?
quandonde será?

eu queria um jàzinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá.

29/05/2012

As facas


AS FACAS

Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas.
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Manuel Alegre

21/04/2012

Nesta curva...

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neil

10/04/2012

Eu quero morrer no mar...

Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.

E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois de amor meu amor
que quero morrer no mar.

António Lobo Antun

31/03/2012

Os frescos...


Nunca acertou em nada, nem no filho que fez, umas ocasiões acompanhado, outras sem ninguém, a atrasar-se no pagamento dos quartos. A propósito de filhos o meu na Venezuela. Nunca escreveu. Para onde? Realmente do que este país precisa é de um governo forte, desde que o Salazar morreu não parámos de cair
- Estou muito doente
disse ele. Não emagrecera, pelo contrário, os remédios inchavam-no e, se não fosse o sorriso, não o reconhecia. O cabelo caíra-lhe e as mãos tornaram-se transparentes, hesitantes, de gestos custosos. Caminhava devagar, inclinado para a esquerda, ajudava um dos braços com o outro.
- E tu?
perguntou-me numa voz difícil, de sílabas alongadas, vindas de longe. E depois havia o problema do dinheiro, o subsídio não dava para os exames, as análises:
- Há três meses que não pago a renda da casa, qualquer dia despejam-me e se me despejarem para onde é que eu vou?
Não conseguia trabalhar, passava a maior parte do tempo deitado, fixando o tecto
- Já conheço o tecto de cor
e o sorriso de volta, sem alegria alguma, numa espécie de tique. Isto no corredor do hospital, no meio das pessoas. Cadeiras de rodas, macas, um homem com um olho tapado. Um sujeito esquelético numa maca, indiferente, com um balão de soro a pingar. Chovia nas janelas e as luzes, em lugar de brancas, cinzentas. Fevereiro não é um mês alegre. Vinha à consulta
- Saber como está a máquina, percebes?
(mais um sorriso)
na esperança que, mudando os comprimidos, a coisa melhore. A coisa era ele e não me cheirava que fosse melhorar. Isto de fatinho completo e gravata, com um cachecol a pingar-lhe do pescoço. Não lhe falei na mulher, é sempre má ideia falar nas mulheres: separações, divórcios, problemas, explicações embaraçadas, mentiras evasivas. Não trazia aliança, a que lhe conheci chamava-se Regina, trabalhava num infantário, não cuidava assim muito do aspecto. Mas a tentação foi mais forte
- A Regina?
ele, após uma pausa comprida
- A Regina
ele, após outra pausa comprida
- Voltou para Santarém de vez em quando telefona
e o facto de, de vez em quando, telefonar, animou-me um bocadinho: telefonar de vez em quando sempre é melhor que nada.
- Mas continuamos casados, que diferença me faz?
e o meu ânimo baixou de novo. A Regina em Santarém
- Com um tipo qualquer
informou ele, e tornou a sorrir:
- Eu a precisar dela e arranja um tipo qualquer
enquanto uma rapariga de bata passava por nós, a estalar os saltos dos sapatos no chão. Fitou-a a meia bandeira
- Olha, uma coisa assim fazia-me jeito
e aproveitou um novo sorriso para tossir um bocado.
- E tu?
interessou-se ele a guardar os restos da tosse no lenço.
- O costume, esclareci eu, umas ocasiões acompanhado outras sem ninguém. Por exemplo, agora, sem ninguém.
Olhámos um para o outro, olhámos para o chão, interroguei-o, do chão
- Lembras-te como nós éramos?
conseguiu dar-me uma cotovelada cúmplice na barriga
- Frescos
namoradas, complicações, sarilhos, uma colecta na rapaziada para um abortozinho discreto, famílias ameaçadoras, maçadas. Concordei
- Frescos
porém a época da frescura acabou depressa, empregos mal pagos, umas escritas ao serão na tentativa de equilibrar as contas, encontros melancólicos na cervejaria para recordar a frescura
- E a pedicura?
- E a da loja de móveis?
- E a que estava por conta de um gajo estabelecido?
todas desaparecidas, esfumadas no ar, ausentes, sobrava uma balconista de quando em quando, não sobrava nada.
- O que é que sobra agora?
segredei eu e ele
- Sobra isto
inchado, sem cabelo, a inclinar-se para a esquerda e, no entanto, uma luzinha na cara
- Tivemos a nossa dose não tivemos?
e tivemos a nossa dose, é verdade, umas bebedeiras, umas pensões baratas, Estrela das Avenidas, Hospedaria Nova Iorque, Pensão Estrela Polar, a polícia a expulsar-nos de tempos a tempos
- Andor, andor
a minha mãe
- Nem um bocadinho de juízo ao menos
o meu pai
- Do que este país precisa é de um governo forte
a afastar o cachorro com a bengala sem acertar no bicho. Nunca acertou em nada, nem no filho que fez, umas ocasiões acompanhado, outras sem ninguém, a atrasar-se no pagamento dos quartos. A propósito de filhos o meu na Venezuela. Nunca escreveu. Para onde? Realmente do que este país precisa é de um governo forte, desde que o Salazar morreu não parámos de cair. E agora ele e eu no hospital, um muito doente, o outro com uma mancha no pulmão, e o médico
- É preciso vigiar isso
a comparar radiografias
- Não pára de crescer, a mancha
a falar-me em operações com voz grave.
- Vive-se perfeitamente com um pulmão a menos
garantia
tenho pacientes assim com uma vida normal. E fomos frescos antigamente, pensar nisso consola. Consola? Ele a examinar-me
- Estás mais magro tu
a continuar
- Falta-te carne nas costas
a concluir
- Até danças no fato.
Se calhar danço no fato, não sei, mas quem repara? A rapariga de bata, a estalar os saltos dos sapatos, com certeza que não. Na Hospedaria Nova Iorque dormi uma tarde com uma italiana. Feia mas italiana. Pensava pedir-lhe dinheiro e foi ela quem me pediu a mim. Amoleci, tive pena, fiquei a zero. Ele:
- Lembras-te da italiana feia que te deixou os bolsos carecas?
Com o Salazar vivo nada disto acontecia, havia termos, educação. Ele, a estender-me a mão transparente
- Vou-me chegando para a consulta e eu vou-me chegando para a mancha, que remédio, envergonhado do meu fato, subitamente tão largo, envergonhado da italiana feia. Talvez o encontre, à saída, na paragem do autocarro, agarrados, como náufragos, ao varão. Em todo o caso resta o consolo de termos sido frescos, não é, uns copos, umas miúdas. Quis recordar o nome dele: não me veio. Fernando, João, Manuel? Tanto faz, agora. De qualquer maneira resta a consolação de termos tido algum sucesso no bairro. Chamavam-me o Brilhantinas, possuía uma cicatriz na bochecha. Talvez haja por lá alguém que ainda se lembre de mim. O Brilhantinas e o Cabeça de Goraz. Os frescos. Aí vão eles, coitados, com um resto de pinoquice nos olhos.

António Lobo Antunes

28/03/2012

Não posso...

Não posso
adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.

António Ramos Rosa

26/03/2012

Requiem por mim...

 Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim.
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei.
E caísse de pé, num desafio
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga