12/02/2012

Para quê sonhar?

Antes de partires já cá não estavas por isso, sinceramente, nem posso dizer que dou pela tua falta. Aliás, sei que não preciso de ti, tenho a certeza porque a vida continua e, se queres saber a verdade, tenho saído com os meus amigos, tenho-me divertido à grande.

Por isso mesmo, não vale a pena deixares-me mensagens imbecis no telemóvel, até porque sempre que o fazes reconheço a tua voz entorpecida, aquela voz de quem já bebeu de mais. Este e-mail é só para te dizer que podes vir buscar o resto das tuas coisas quando quiseres, está tudo no quarto lá de dentro.

Aproveita e deixa a chave, se fazes favor. Ah, e se nos encontrarmos por aí, na noite, não vale a pena dirigir-me a palavra. É melhor assim. Afastou a cadeira e olhou para o ecrã do computador.

Era exactamente aquilo que lhe queria dizer, mas não conseguia enviar o e-mail, como se de repente os dedos tivessem ficado presos. «Que idiota que eu sou!» a mensagem seguiu, levantou-se da mesa e foi servir um copo de vinho tinto. O telemóvel tocava e não quis saber quem era.

Bebeu o vinho com tragos pequeninos, os olhos colados na janela, lá fora pessoas que se moviam com rapidez. Era mais uma página fechada, mais um vazio que se instalava dentro de si. Mais um erro. E por mais que representasse que estava bem, por mais que dissesse a todos que a vida era assim, tudo acabava, era normal, aquilo que sentia era bem diferente.

Mais do que a falta dele, era aquele medo terrível de que o futuro fosse apenas isso, uma sucessão de erros. Uma solidão que persistia quando estava acompanhada e quando ficava só. Ninguém lhe dissera que ia ser tão difícil. E ali a olhar Lisboa, uma única ideia não a abandonava: para quê sonhar?

Luísa Castel – Branco

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