04/11/2012

esperar por ti


esperar por ti agora quando já todos me explicaram
como está completamente gasto o tempo das esperas
com telefonemas fora de hora recados fortuitos e
sinais desajustados
pode parecer daquelas coisas que fazíamos
quando há muitos anos as pessoas
olhavam para nós e repetiam meu deus
onde é que o mundo vai parar
(havia uma velha no jardim da parada
que dizia isto todas as manhãs mal nos via chegar
e tu murmuravas havemos
de convidá-la para o nosso casamento
e ríamos muito e tínhamos a certeza
de que viver era isso)

não importa hoje temos
outras maneiras de fugir e de resto
já morreram todos os que então
furiosamente nos vigiavam
embora possa ainda
haver quem nos reconheça e se espante
e invente presságios e vozes de oráculos
oumuito simplesmente destinos banais
adivinhados nas folhas do chá
e em surdina nos avise
que as rugas lavradas pelo tempo tornaram
demasiado inóspito o lugar
onde nos encontramos

mas eu já percorri muitos lugares em chamas
e esperar por ti agora é apenas
mais um longo corredor de mamórias regressadas
que se atravessa entre os nossos corpos
pelo meio de retratos desfocados com o sena ao fundo
e discos de vinil com velhas canções
que nunca partilhámos com mais ninguém

— até chegar ao lugar do amor subitamente desocupado
pronunciando devagar cada sílaba do nome
com que de mim nascias

Alice Vieira

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