28/02/2012

Quantas vezes




Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas
inteiras. Praias de cinza invadidas
pelo vento. Quantas estações quantas noites
indormidas. Embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado. Na cal frágil
dos meus ossos. Nas hastes do mar
infiltradas no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos.

Casimiro de Brito

22/02/2012

Vegetal e só



É Outono, desprende-te de mim.
Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

Eugénio de Andrade

19/02/2012

Cerejas brancas


De cerejas brancas, de estrelas vermelhas de lábios azuis,
Era a tua voz. Doce, docemente. Inocentemente.
Dizia palavras, dizia palavras... Alucinações.
Monstros e promessas. Magia, segredo. Artes do Diabo.

Reflexos tristes da luz que nos foge, da luz que anda à solta e nos deixa presos.


Ouço a tua voz chamando, chamando...
Ah! nenhum de nós somos os culpados!

Docemente extinta. Inocentemente.
Um círculo da Lua rodeia teus braços,
Um raio de Sol te dirige os passos.
É a tua voz! de menino e moço!

Ah! quanta ternura tem a tua voz,
Quanto beijo que jamais fora dado,
Quanta linda festa que logo interrompida,
Quanto abraço que desejaste dar ...

Ouço a tua voz. É som ou desmaio?
É quebranto? É música? Sai do coração?
Ouço a tua voz, que respeita e ama,
Como irmão mais novo a irmão mais velho.

Diz-me que é inútil. Que essa tua voz
Não é verdadeira, porque sofrerás...
Embora me tragas, sem eu saber como,
Alguma alegria, um pouco de paz!

Queira Deus que tu, irmão meu, encontres
Alguém que ao ouvi-la, quando estiveres só,
Te ame e compreenda, te ouça e adormeça,
Te afirme que tens um lugar no Mundo ...

Raul de Carvalho

15/02/2012

Os lírios...


Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos – perfeitos! -
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.
Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranquila.

Henriqueta Lisboa

12/02/2012

Para quê sonhar?

Antes de partires já cá não estavas por isso, sinceramente, nem posso dizer que dou pela tua falta. Aliás, sei que não preciso de ti, tenho a certeza porque a vida continua e, se queres saber a verdade, tenho saído com os meus amigos, tenho-me divertido à grande.

Por isso mesmo, não vale a pena deixares-me mensagens imbecis no telemóvel, até porque sempre que o fazes reconheço a tua voz entorpecida, aquela voz de quem já bebeu de mais. Este e-mail é só para te dizer que podes vir buscar o resto das tuas coisas quando quiseres, está tudo no quarto lá de dentro.

Aproveita e deixa a chave, se fazes favor. Ah, e se nos encontrarmos por aí, na noite, não vale a pena dirigir-me a palavra. É melhor assim. Afastou a cadeira e olhou para o ecrã do computador.

Era exactamente aquilo que lhe queria dizer, mas não conseguia enviar o e-mail, como se de repente os dedos tivessem ficado presos. «Que idiota que eu sou!» a mensagem seguiu, levantou-se da mesa e foi servir um copo de vinho tinto. O telemóvel tocava e não quis saber quem era.

Bebeu o vinho com tragos pequeninos, os olhos colados na janela, lá fora pessoas que se moviam com rapidez. Era mais uma página fechada, mais um vazio que se instalava dentro de si. Mais um erro. E por mais que representasse que estava bem, por mais que dissesse a todos que a vida era assim, tudo acabava, era normal, aquilo que sentia era bem diferente.

Mais do que a falta dele, era aquele medo terrível de que o futuro fosse apenas isso, uma sucessão de erros. Uma solidão que persistia quando estava acompanhada e quando ficava só. Ninguém lhe dissera que ia ser tão difícil. E ali a olhar Lisboa, uma única ideia não a abandonava: para quê sonhar?

Luísa Castel – Branco

08/02/2012

Poema da Utopia



A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
...
No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

- Fernando Namora (in "Relevos")

06/02/2012

Durmo...

Durmo.
Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo.
Se durmo sem sonhar, desperto
... Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar, nem não sonhar
E nunca despertar."

Fernando Pessoa (in "Cancioneiro")