31/03/2012

Os frescos...


Nunca acertou em nada, nem no filho que fez, umas ocasiões acompanhado, outras sem ninguém, a atrasar-se no pagamento dos quartos. A propósito de filhos o meu na Venezuela. Nunca escreveu. Para onde? Realmente do que este país precisa é de um governo forte, desde que o Salazar morreu não parámos de cair
- Estou muito doente
disse ele. Não emagrecera, pelo contrário, os remédios inchavam-no e, se não fosse o sorriso, não o reconhecia. O cabelo caíra-lhe e as mãos tornaram-se transparentes, hesitantes, de gestos custosos. Caminhava devagar, inclinado para a esquerda, ajudava um dos braços com o outro.
- E tu?
perguntou-me numa voz difícil, de sílabas alongadas, vindas de longe. E depois havia o problema do dinheiro, o subsídio não dava para os exames, as análises:
- Há três meses que não pago a renda da casa, qualquer dia despejam-me e se me despejarem para onde é que eu vou?
Não conseguia trabalhar, passava a maior parte do tempo deitado, fixando o tecto
- Já conheço o tecto de cor
e o sorriso de volta, sem alegria alguma, numa espécie de tique. Isto no corredor do hospital, no meio das pessoas. Cadeiras de rodas, macas, um homem com um olho tapado. Um sujeito esquelético numa maca, indiferente, com um balão de soro a pingar. Chovia nas janelas e as luzes, em lugar de brancas, cinzentas. Fevereiro não é um mês alegre. Vinha à consulta
- Saber como está a máquina, percebes?
(mais um sorriso)
na esperança que, mudando os comprimidos, a coisa melhore. A coisa era ele e não me cheirava que fosse melhorar. Isto de fatinho completo e gravata, com um cachecol a pingar-lhe do pescoço. Não lhe falei na mulher, é sempre má ideia falar nas mulheres: separações, divórcios, problemas, explicações embaraçadas, mentiras evasivas. Não trazia aliança, a que lhe conheci chamava-se Regina, trabalhava num infantário, não cuidava assim muito do aspecto. Mas a tentação foi mais forte
- A Regina?
ele, após uma pausa comprida
- A Regina
ele, após outra pausa comprida
- Voltou para Santarém de vez em quando telefona
e o facto de, de vez em quando, telefonar, animou-me um bocadinho: telefonar de vez em quando sempre é melhor que nada.
- Mas continuamos casados, que diferença me faz?
e o meu ânimo baixou de novo. A Regina em Santarém
- Com um tipo qualquer
informou ele, e tornou a sorrir:
- Eu a precisar dela e arranja um tipo qualquer
enquanto uma rapariga de bata passava por nós, a estalar os saltos dos sapatos no chão. Fitou-a a meia bandeira
- Olha, uma coisa assim fazia-me jeito
e aproveitou um novo sorriso para tossir um bocado.
- E tu?
interessou-se ele a guardar os restos da tosse no lenço.
- O costume, esclareci eu, umas ocasiões acompanhado outras sem ninguém. Por exemplo, agora, sem ninguém.
Olhámos um para o outro, olhámos para o chão, interroguei-o, do chão
- Lembras-te como nós éramos?
conseguiu dar-me uma cotovelada cúmplice na barriga
- Frescos
namoradas, complicações, sarilhos, uma colecta na rapaziada para um abortozinho discreto, famílias ameaçadoras, maçadas. Concordei
- Frescos
porém a época da frescura acabou depressa, empregos mal pagos, umas escritas ao serão na tentativa de equilibrar as contas, encontros melancólicos na cervejaria para recordar a frescura
- E a pedicura?
- E a da loja de móveis?
- E a que estava por conta de um gajo estabelecido?
todas desaparecidas, esfumadas no ar, ausentes, sobrava uma balconista de quando em quando, não sobrava nada.
- O que é que sobra agora?
segredei eu e ele
- Sobra isto
inchado, sem cabelo, a inclinar-se para a esquerda e, no entanto, uma luzinha na cara
- Tivemos a nossa dose não tivemos?
e tivemos a nossa dose, é verdade, umas bebedeiras, umas pensões baratas, Estrela das Avenidas, Hospedaria Nova Iorque, Pensão Estrela Polar, a polícia a expulsar-nos de tempos a tempos
- Andor, andor
a minha mãe
- Nem um bocadinho de juízo ao menos
o meu pai
- Do que este país precisa é de um governo forte
a afastar o cachorro com a bengala sem acertar no bicho. Nunca acertou em nada, nem no filho que fez, umas ocasiões acompanhado, outras sem ninguém, a atrasar-se no pagamento dos quartos. A propósito de filhos o meu na Venezuela. Nunca escreveu. Para onde? Realmente do que este país precisa é de um governo forte, desde que o Salazar morreu não parámos de cair. E agora ele e eu no hospital, um muito doente, o outro com uma mancha no pulmão, e o médico
- É preciso vigiar isso
a comparar radiografias
- Não pára de crescer, a mancha
a falar-me em operações com voz grave.
- Vive-se perfeitamente com um pulmão a menos
garantia
tenho pacientes assim com uma vida normal. E fomos frescos antigamente, pensar nisso consola. Consola? Ele a examinar-me
- Estás mais magro tu
a continuar
- Falta-te carne nas costas
a concluir
- Até danças no fato.
Se calhar danço no fato, não sei, mas quem repara? A rapariga de bata, a estalar os saltos dos sapatos, com certeza que não. Na Hospedaria Nova Iorque dormi uma tarde com uma italiana. Feia mas italiana. Pensava pedir-lhe dinheiro e foi ela quem me pediu a mim. Amoleci, tive pena, fiquei a zero. Ele:
- Lembras-te da italiana feia que te deixou os bolsos carecas?
Com o Salazar vivo nada disto acontecia, havia termos, educação. Ele, a estender-me a mão transparente
- Vou-me chegando para a consulta e eu vou-me chegando para a mancha, que remédio, envergonhado do meu fato, subitamente tão largo, envergonhado da italiana feia. Talvez o encontre, à saída, na paragem do autocarro, agarrados, como náufragos, ao varão. Em todo o caso resta o consolo de termos sido frescos, não é, uns copos, umas miúdas. Quis recordar o nome dele: não me veio. Fernando, João, Manuel? Tanto faz, agora. De qualquer maneira resta a consolação de termos tido algum sucesso no bairro. Chamavam-me o Brilhantinas, possuía uma cicatriz na bochecha. Talvez haja por lá alguém que ainda se lembre de mim. O Brilhantinas e o Cabeça de Goraz. Os frescos. Aí vão eles, coitados, com um resto de pinoquice nos olhos.

António Lobo Antunes

28/03/2012

Não posso...

Não posso
adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.

António Ramos Rosa

26/03/2012

Requiem por mim...

 Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim.
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei.
E caísse de pé, num desafio
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga

18/03/2012

Poema da Boganvília

Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra a vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supor,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso

António Gedeão

15/03/2012

Tudo o que faço ou medito

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.


Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.

Fernando Pessoa

13/03/2012

Sete luas

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.


Natália Correia

09/03/2012

Andei a ver de ti...

Andei a ver de ti em toda a parte
A marca dos teus pés nos areais
Mandei uma andorinha procurar-te
No silêncio azul das catedrais

Chamei pelo teu nome ás estrelas
E todas o teu nome repetiam
Até as margaridas mais singelas
Nasceram porque já te conheciam

Quem dera meu amor, poder cantar-te
Juntar na minha voz o que vivi
Porque em tudo o que vivo tu és parte
E toda a parte é uma ilusão de ti

Aldina Duarte

06/03/2012

Este lugar...

( …) e, todavia, faltam-me os teus olhos


para aceitar os contornos que o tempo devorou
na sua longa viagem. Porque também a nossa
viagem chegou ao fim – e aquilo que um dia
foi um ramo do mar é hoje apenas
mais um rio em cujas águas turvas se perturba
essa memória perfeita que guardei. (…)

Maria do Rosário Pedreira

05/03/2012

O perfume


O que sou? - O Perfume,
Dizem os homens. - Serei.
Mas o que sou nem eu sei...
Sou uma sombra de lume!
Rasgo a aragem como um gume
De espada: Subi. Voei. Onde passava, deixei
A essência que me resume.
Liberdade, eu me cativo:
Numa renda, um nada, eu vivo
Vida de Sonho e de Verdade!
Passam os dias, e em vão!
- Eu sou a Recordação;
Sou mais, ainda: a Saudade.

António Correia de Oliveira

03/03/2012

Sem título (diário)


Entrei no autocarro e, quando ia a comprar o bilhete, o cobrador mandou-me passar adiante. Obedeci e sentei-me, intrigado. O homem, se calhar, recebera de mim algum favor clínico e queria corresponder assim. O que eu não podia consentir de maneira nenhuma. E resolvi teimar. Só que, mal fiz menção de me erguer, alguém disse a meu lado:

- Hoje é o dia dos velhos…

E fiquei esclarecido.

Coimbra, 25 de Outubro de 1980

Miguel Torga