29/11/2012

Exercício



Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
...


...com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice

28/11/2012

Sem título

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.

Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

Bertold Brecht

26/11/2012

Amor...


A
M
O
R
Uma a uma
As letras
Caem,
Lágrimas,
No rosto do papel.
 
Luísa Dacosta

19/11/2012

Diz o meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com
a suavidade
de uma confidência
 para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Mia Couto

18/11/2012

Sempre foi tarde mesmo quando ainda era muito cedo

 



a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer

eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era muito cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol

e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos

e qualquer outra estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro de águas perdidas

por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou

vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as suas mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas

vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um
o amor que lhe compete.



(Alice Vieira, Pelas Mãos e Pelos Olhos Eu Juro)

16/11/2012

Amor sem razão



Meu amor quem disse
ao pé de ti o medo
ou pôs a ausência daquilo que
faço
se longe de ti impeço o começo
ou junto de ti me ergo e renasço
já nada é razão
quando esta é segredo
ou quando a razão é corpo e desfaz-se
razão do teu sono
por entre os meus dedos
razão do teu hálito
por entre os meus braços
 
Maria Teresa Horta

13/11/2012

Lisboa e Tejo e Tudo...

 
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
(...)
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavoro...
samente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Álvaro de Campos

06/11/2012

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

04/11/2012

esperar por ti


esperar por ti agora quando já todos me explicaram
como está completamente gasto o tempo das esperas
com telefonemas fora de hora recados fortuitos e
sinais desajustados
pode parecer daquelas coisas que fazíamos
quando há muitos anos as pessoas
olhavam para nós e repetiam meu deus
onde é que o mundo vai parar
(havia uma velha no jardim da parada
que dizia isto todas as manhãs mal nos via chegar
e tu murmuravas havemos
de convidá-la para o nosso casamento
e ríamos muito e tínhamos a certeza
de que viver era isso)

não importa hoje temos
outras maneiras de fugir e de resto
já morreram todos os que então
furiosamente nos vigiavam
embora possa ainda
haver quem nos reconheça e se espante
e invente presságios e vozes de oráculos
oumuito simplesmente destinos banais
adivinhados nas folhas do chá
e em surdina nos avise
que as rugas lavradas pelo tempo tornaram
demasiado inóspito o lugar
onde nos encontramos

mas eu já percorri muitos lugares em chamas
e esperar por ti agora é apenas
mais um longo corredor de mamórias regressadas
que se atravessa entre os nossos corpos
pelo meio de retratos desfocados com o sena ao fundo
e discos de vinil com velhas canções
que nunca partilhámos com mais ninguém

— até chegar ao lugar do amor subitamente desocupado
pronunciando devagar cada sílaba do nome
com que de mim nascias

Alice Vieira