30/12/2012

POEMA DE AGRADECIMENTO À CORJA

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.


JOAQUIM PESSOA

27/12/2012

Passados





não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.


gil t. sousa

10/12/2012




A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

09/12/2012


...
Morrer devia ser assim


Boiar estendido numa nuvem
com a cabeça encostada no silêncio
a olhar para o céu,
sempre mais longe,

sempre mais longe,
sempre cada vez mais longe...
(Perto já não é céu.)

Morrer devia ser assim...

Milhões e milhões de mortos
deitados nas nuvens
com asas partidas nos olhos
numa leveza sem rumo
de penas de frio...

Morrer devia ser assim.

José Gomes Ferreira

01/12/2012

Estás sempre aqui...





Estás sempre aqui
na beira do meu corpo
na ponta dos meus dedos
quando te desejo
quando de descrevo
quando te vislumbro
mesmo sem te ver
e quando te desejo

mesmo sem te ter

E por cada poema que começo
e não sei terminar
puxo-te para a beira da minha cama
bem para o meio
do meu devaneio
e num frémito que não domino
volteio a palavra por decifrar
o verso que não rima
remoo nos dedos o gosto da tua pele
que a minha desatina
que me ficou quando pela tua boca passou...

...e com passo desajeitado
deixo o verso calado
sublevar-se
ausentar-se
dessa forma imaculada
e vir manchar minha pele alva e pura
tremendemente louca
de uma secura
urgente e desajeitada
e num repente
num bater de asa
muito antes que o galo cante alvorada

sais do meu poema
libertas-te do peso do meu verso
e cais na minha pele
absorto e liberto
tremendemente incerto
alma nua e ausente
mas amorosamente delicado
e delicadamente amoroso
como toda a paixão
que se serve quente...
 
São Reis